sexta-feira, 12 de julho de 2019

Infância



Muitas vezes, em família, invisível, era como eu queria estar na grande parte do tempo, as brigas e discussões eram intermináveis, a intolerância reinava. Muito frágil, inocente e alegre nada entendia, só me defendia. Muita gente numa casa tão minúscula, muitas bocas e olhos suplicando amor, carinho, atenção e comida.
Éramos seis, eu rodeada de homens e com ausência de companhia feminina. 
Eu adorava minha mãe, ela trazia balas e presentes. Era brincalhona e leve, ficávamos reunidos à sua volta em cima da cama, brincando, rindo e desfrutando de poucos momentos de paz e alegria. Momentos esses recriminados por meu pai, onde perdíamos "um tempo precioso " e mamãe nos distraía da disciplina imposta por ele. 
Tinha muito medo de meu pai, severo, carrancudo, preocupado, agitado, sério e tenso. Pra ele não era permitido o ócio: o inimigo do povo, o prazer era pecado, momentos de lazer inexistiam, tínhamos que estar sempre ocupados produzindo, aproveitando o tempo com coisas úteis. Tratáva-nos como adultos.
Sua educação foi em um internato presbiteriano, depois o exército. Cresceu com a ausência do pai, recebeu influência socialista de um tio mais próximo, inclusive passou um ano, após o exército nos países socialistas. 
Sua mãe era rígida e seca, pouco falava, poupava sorrisos, filha de índia, mantinha-se distante em um mundo diferente. 
Essas referências na sua formação afetaram e muito, tanto negativa como positivamente nossa criação.
Ambos os nossos pais eram histéricos, caóticos e densos, disputavam a tapas a última palavra, papai ficava muito nervoso e tenso, suas palavras eram fortes e pontiagudas, já mamãe apelava para o sarcasmo, destituindo o outro pela humilhação e desmerecimento. Assistíamos assustados e aprendendo o jogo da vida, onde a violência verbal eram as principais estratégias de defesa e ataque. 
Foi uma infância seca, estéril e amedrontada, papai reproduzida a mesma labuta e dificuldade de uma vida no campo, onde recursos são escassos, e onde tudo se transforma em utilidade. No campo tudo se aproveitava, latas de azeite viravam canecas, caixas em guarda roupas, nada é desperdiçado, e papai, mesmo morando numa capital, onde o acesso aos bens de consumo eram mais facilmente acessíveis, nos fazia viver e sentir a aridez e dificuldades de uma vida restrita e paupérrima de facilidades e regalias.
Qual era sua lógica?, não sabemos, mas suponho que seja para nos preparar para as vicissitudes da vida, nos tornar fortes e resistentes, para possíveis tempos de guerra. Inútil tentativa, pois nos tornamos amedrontados, frágeis e inseguros, pois sem afeto, amparo e carinho, a confiança não se desenvolveu.
No entanto, como éramos um número grande de filhos, um grupo de crianças saudáveis, fortes e sobretudo inteligentes, conseguíamos achar lacunas para nossas diversões, desde que sempre houvesse um de nós à postos vigiando sua possível chegada, quando então saíamos em disparada para às atividades ditas "produtivas". 
Assim, mesmo sendo massacrados pela sua rigidez, conseguíamos nos divertir e aprontar muitas coisas, das quais algumas inenarráveis. Entrávamos em construções, em porões, subíamos em árvores, jogávamos bola, soltávamos pipa, montávamos o boi de mamão com a vizinhança, arranjávamos muitas brigas com vizinhos e frequentadores de um parquinho próximo. Os banhos de chuva nos verões eram os mais esperados e desejados, refrescavam corpo e lavavam nossa alma, a alegria era geral!
Nossa casa era pequena, apenas dois quartos para 8 pessoas, sala cozinha e banheiro, habitava ainda a secretária, no minúsculo quartinho dos fundos. Vivi nela quase toda minha vida, dos 5 anos até idade adulta. 
Meu pai nunca valorizou a aparência e o conforto, considerava valores burgueses e dispensáveis. Era uma casa que tinha o necessário para viver, sem adornos, sem enfeites e sem cor. As cores existentes vinham das lombadas dos inúmeros livros nas muitas estantes espalhadas pela casa, cada cômodo havia livros. Um homem espartano nos impôs limitações e rotinas impensáveis como o uso de papel de pão, amassados e cortados em quadrados, por meio de uma produção em série, filhos reunidos em volta da mesa, cada filho tinha uma função no processo de amaciar o áspero papel, recortar e posteriormente eram pendurados num prego na parede ao lado do vaso sanitário. Esse era nosso papel higiênico! Quando cresci , perto dos 13 anos, tive direito à um rolo industrializado, pois era a menina da prole. 
A louça antes de ser lavada, precisava ser limpa com jornal pra tirar a gordura, sendo que a areia às vezes também era utilizada na remoção da "graxa", cachos de banana eram pendurados pela cozinha à disposição das crianças, caso sentissem fome, as vitaminas eram feitas sempre com aveia e banana para tornar nossos músculos sadios. As capas dos cadernos eram trocadas e refeitas com papelão mais reforçado para aguentar o manuseio. Os papelões eram encartes da indústria farmacêutica, que meu tio representava. 
Tudo isso nos tornava diferentes das demais crianças, nos distanciava e percebíamos que éramos diferentes e os únicos com hábitos estranhos. Ao chegar a adolescência, tais diferenças evidenciaram-se e para nós foi um choque irreversível e com consequências desafiadoras.
Aos finais de semana, para não deixar a turma ociosa papai nos colocava a juntar pedras do quintal, atividade essa oriunda de sua infância, talvez, mas inútil, apenas um tempo a ser preenchido, nós odiávamos isso! Nossa estratégia para fugir desse castigo era ler. Se estávamos lendo ele não importunava. Eu pegava alguns livros na biblioteca da escola cada final de semana. Meu segundo irmão devorava os livros e tornou-se incomunicável com o tempo, pois o exercício do diálogo, da tolerância com as diferenças e o respeito pelo próximo passava ao largo de nossa casa. 
Amor existia, expresso no cuidado em não faltar comida, saúde e educação, mas a expressão de afeto, amparo e carinho desconhecíamos. Mamãe tentava compensar toda essa aridez, tornando nossos natais e aniversários mais alegres e encantadores, mas pagávamos um bom preço por essas alegrias momentâneas, principalmente ela, que ouvia todo um discurso patético e despropositado em relação ao consumismo. Como ela sempre foi forte e corajosa enfrentava sem muito sofrimento tais descompassos, assim, diante da indiferença dela, ele passava a nos perseguir e descontar sua ira nos nossos pequenos deslizes. 
Sim, fomos felizes, afinal toda criança possui a capacidade inata de alegrar-se, esquecer em troca de um brinquedo ou por qualquer proposta de brincadeiras. Seu tempo é outro, as diferenças são longas entre os episódios de sua vida, o tempo se estende, por ser vivido tão intensamente com entrega e desprendimento. As sequelas só apareceram mais tarde, quando se faz a hora de ampliar as relações, o compartilhar sem medos ou ressalvas, dos jogos e dinâmicas sociais, enfim na vida adulta.
Lembranças de minha tenra idade, não possuo, são poucos os momentos que lembro que se iniciam por volta dos 3 ou 4 anos, numa casa maior, na rua ao alto de uma colina, um aniversário, no carro de meu avô que após mexer num botão fiquei com ele na mão. Muito assustada e temerosa, passei o resto do aniversário escondida atrás da porta de meu quarto. Já apresentava rigor e medo. Ainda nessa mesma casa, lembro de meus irmãos esconderem os brinquedos embaixo das camas, das sessões de injeções em volta do umbigo que precisei receber devido à uma suposta mordida de um cachorro louco e cuja recompensa por minha valentia foi a promessa de ganhar uma boneca do meu tamanho! Sim, com muita alegria ganhei, e mais tarde percebi que essa foi uma excelente qualidade de minha mãe e que todos nós gostávamos, ela nos presenteava, ela prometia e cumpria, ela nos dava a alegria da realização de sonhos, a permissão pra fantasiar. A capacidade de sonhar, batalhar e receber; posso afirmar que essa é uma herança materna e que muito me ajudou ao longo do caminho.
Aos cinco anos, frequentava o jardim de infância com meu irmão, um ano mais moço, me sentia sua protetora, mas foram lá as minhas primeiras relações sociais, assustada e sozinha buscava referenciais protetores, mas não encontrava, era triste e solitário e tinha ainda que enfrentar inimigos que me beliscavam por baixo da mesa. Esse corte do vínculo familiar foi bastante impactante, busquei forças até então desconhecidas, desenvolvi defesas e experimentei meus primeiros desafios. Uma criança aos cinco anos ainda é muito vulnerável e dependente, torna-se mais forte quando tem irmãos, principalmente mais velhos, onde recebe mais cedo o aprendizado da sobrevivência. Mas isso não lhe poupa da dor do mundo externo à família. Dos cinco irmãos, todos tinham uma diferença de idade de 2 anos, apenas o após a mim a diferença era apenas 1 ano. Tínhamos uma ligação forte, fomos companheiros de descobertas, de fases e de aventuras. Aos nove anos, ele com oito, contraímos juntos hepatite viral , e o resguardo foi compartilhado. Não lembro o porquê ele não receber, ou se recebeu desconheço, as costumeiras recompensas para nos comportar, eu no caso, para manter-me na cama sossegada, fui seduzida com duas bonecas Suzis, as mais cobiçadas na época. Sei que invariavelmente eu tinha que ser convencida de ficar quieta, pois muito ativa, era necessário domar minhas constantes inquietações, sempre curiosa e desbravadora. Adorava recompensas, presentes e surpresas, eu seguia o acordo de maneira disciplinada e exemplar!
Minha mãe nessa época era minha estrela, meu mito, minha proteção, meu tudo, amava sob quaisquer circunstâncias, com ela me sentia segura e forte. Mas aos poucos, a medida que fui ganhando o mundo, fui observando com outro olhar algumas de suas ações, escolhas e sentimentos. Começou a causar estranhamento a ênfase que colocava na sua personalidade e nas relações coletivas, lentamente percebi, na medida em que me tornava mocinha, um afastamento, ressalvas até então inexistentes e comparações absurdas entre mim e ela.
O contato com sua histeria ficou mais presente e visível, e percebi a diferença do status que lhe creditava em relação ao seu empenho em me conquistar ou mantê-la ao seu lado. Passei a me sentir pequena, feia, incomodativa e trapaceira sem ao menos entender o porquê. A doce proteção se esvaía entre meus dedos, fazendo me sentir ainda mais solitária e desde então tal sentimento me acompanhou ao longo dos meus dias, eu havia perdido a imagem imaculada de minha mãe, e passei a caminhar sozinha.
Minha alfabetização foi mágica, apaixonei-me de imediato pela professora Emília, muito carinhosa e delicada, elogiava com propriedade e estímulo, o que fazia com que me esforçasse e acompanhasse com muito esmero todas as atividades propostas. Aprender a ler foi ganhar o mundo, ampliar meu espaço e minhas possibilidades de conhecer e crescer, desde sempre fui ávida por descobertas e conhecimentos novos. Eu me sentia plena e segura, por isso considero a relação da primeira professora de uma criança fundamental para seu desenvolvimento, um termômetro da futura trajetória . Além da harmoniosa e produtiva relação com a professora, em casa, minhas conquistas escolares eram também estimuladas pelo meu pai e eu começava a me sentir uma criança grande à altura de meus irmãos mais velhos. Não era propriamente uma competição, mas sim uma forma de se igualar, de se afirmar, de me apropriar do que é só meu!
As relações familiares com tios, avós, primos eram escassas e eventuais. Apenas com uma tia materna e seus cinco filhos conviviam com relativa frequência. Papai era considerado esquisito e inacessível, todos temiam suas ideias e atitudes excêntricas, portanto as visitas eram escassas e breves. Mas longe de sua vista todos relaxavam e se permitiam ser quem realmente gostariam de ser, sem tensão e críticas. Eu passei alguns finais de semana na casa da tia, era um refúgio, um paraíso, pois além de ficar longe do policiamento e da tensão, era um mundo completamente diferente. Uma casa normal, com hábitos, relações, refeições e dinâmicas contrárias às nossas. Se fosse permitido eu ficaria por lá até a saudade bater, se é que um dia sentiria a falta de tamanha rigidez e medo. Sim, muito medo eu sentia, medo da crítica de mamãe, do seu ciúme, sua vigília sobre mim, sua repulsa ao saber ser amada por papai, seu olhar desesperado e reprovador, medo das exigências do papai, do estar sempre alerta, de rir, de fazer escolhas erradas, opinar, reivindicar. Não tínhamos vozes, sentíamos reprimidos e oprimidos.
As viagens para Alegrete também foram bastante representativas, deixando lembranças e marcas de uma infância alegre e divertida. Apesar de minha avó paterna ser tão sisuda e fechada quanto meu pai, conseguíamos driblar seu humor e sorrateiramente aprontar episódios temidos e reprovados por ela, mas divertidos para nós. Destruíamos o pomar, avançando vertiginosamente nos morangos, pêssegos, ameixas, ainda não completamente maduros, na ânsia de quem pega primeiro quebrávamos os galhos e o parreiral. Vovó não conseguia nos conter, e tudo que inventávamos fazer resultava num desastre pra ela. Seu sono não era o mesmo durante os 2 meses que vivíamos as férias escolares no campo, sua sagrada sesta sempre interrompida abruptamente com alguma arte dos netos. Não sei se tinha alegria em nos receber, percebia sua zanga e desespero em ninguém conseguir nos conter. Havia um revezamento entre papai e mamãe, conforme suas férias, e havia ainda a empregada, que auxiliava na lida doméstica. Com papai na área, ficávamos mais contidos, mas quando ele ou eles, os adultos se ausentavam, a fazenda virava um turbilhão incontrolável. Vovó e mamãe não se bicavam, o contraste era grande, a primeira uma mulher do campo, sem vaidade aparente, arrimo de família, responsável desde muito cedo por questões importantes, enquanto a outra, vaidosa ao extremo, de uma carência desmedida, o que lhe tornava uma mulher exponencialmente ciumenta, possessiva e controladora. A tolerância, amorosidade, respeito e paciência não eram atributos compartilhados entre elas. Mamãe não respeitava sua idade, seu espaço e seu sentimento em relação ao filho, sua carência sempre em evidência não permitia a vivência, num curto espaço de tempo, de uma relação maternal entre eles. Vovó parecia que recriminava a escolha de papai por ser uma mulher estranha e agressiva, bonita e irascível. Para papai sempre achei que minha mãe representava seu troféu de beleza e vaidade. Longe de seus ideais socialistas, ela representava a beleza que não lhe pertencia, compensava a estranheza que lhe era companheira e por fim a vaidade que tanto desejava ter e era desejável por muitos. Muitos questionamentos me surgiam diante de tal postura, afinal um homem tão reto, espartano e crítico, por que cultivar e alimentar-se de tal vaidade e permitindo tamanho exibicionismo? Nesses termos, só em Freud eu encontraria alguma luz, alguma resposta, sem lógica. Nos dias de hoje ainda continuo sem compreender essa sua permissão ao supérfluo, à exaltação da beleza, da aparência, ao fugaz, efêmero e sem valia. Minha impressão em relação aos valores de meu pai talvez seja exclusiva e cabem apenas na nossa relação. Valores serão sempre determinados por determinadas relações, pela interação e movimento, e nessa relação pai e filha, nesse intercâmbio com ele e diferente dele, foi que atribuí valores a nossa relação e à minha vida. Expandi-las, além nós, talvez sejam inválidas e estéreis, sem sentido. O fato é que vovó e mamãe não tinham uma boa relação, e mamãe se escondia em nós e nos defendia das críticas e reprovações que nos eram apropriadas. 
Para nós as férias eram momentos plenos de afeto e aventuras, onde nossas fantasias se expandiam. Na fazenda sentíamos livres, mas na cidade, onde vovó mantinha uma casa grande pra abrigar a família, ficávamos mais confinados, pois no máximo conhecíamos os vizinhos ao lado, de idade aproximada e onde estabelecemos relações, aprovadas por mamãe. Tinha um quintal imenso, uma garagem onde fazíamos um palco com teatro e músicas, o calor era desértico e insuportável, mamãe costumava dizer que dava pra fritar ovos no asfalto. Eventualmente o Rio Caverá nos refrescava, mas eu não frequentava, poucas foram minhas idas, apenas os guris eram assíduos, com protestos de mamãe, pois como sempre exagerada e pensando o pior, mamãe não aprovava. 
Mas ao baile eu fui com ela e nos meus 13 anos! A fila para dançar com a menina nova na cidade foi quilométrica, mas não dancei com ninguém, não sabia dançar, era tímida e desconhecia aquela gente toda. Fui bastante xingada por não aceitar as danças, por ter sido esnobe rejeitando os galanteios, afinal o desafio passou a ser quem conseguiria me convencer, mas preferi ficar na minha zona de conforto à enfrentar ilustres desconhecidos. Desse baile restou um rapaz mais insistente, que conhecendo o nosso vizinho, passou a frequentar a área, oportunizando conhecê-lo melhor, e que por fim acabei sendo disputada pelos dois, incluindo o vizinho. Por fim não passou de um amor de verão platônico! Mas foi um dos meus primeiros passos em direção à minha mocidade, uma juventude que me aguardava com muitas surpresas.
De Alegrete ainda me lembro de uma briga entre vovó e mamãe, saímos as pressas para cidade, com o carro carregado de ovos, leite, carnes e crianças, seis, minha mãe na direção e nossa ajudante no banco do carona com meu irmão mais moço, então com 4 anos, no colo. Todas as demais crianças atrás, quatro no banco e uma na cachorreira com as mercadorias e bagagens. Chovia leve e constante, mamãe nervosa e nós a cantar alegremente. No meio do caminho escutamos um estouro, minha mãe gritou, o pneu da frente estourou, o carro derrapou, caindo de um barranco, a ajudante jogou a criança do alto, eu apertada entre irmãos desmaiei, nenhum ovo quebrou e nenhum litro de leite derramou, apenas minha clavícula rachou. Lembro- me somente de estar saindo do carro, segurando o braço e entrando num ônibus rumo ao hospital. Ninguém havia se machucado, uma clavícula rachada. Mamãe ficou desesperada, achando que algo havia ocorrido de grave ao meu irmão caçula ao ser atirado pela porta do alto da ribanceira. Mas nada de mais grave ocorreu. Passamos o resto de nossas férias somente na cidade, não íamos mais para o campo, fruto da discórdia entre as duas mulheres de meu pai. Mesmo estando na cidade e com a clavícula quebrada eu continuava arteira, subindo os muros, brincando de pega-pega, de esconder, azucrinando minha mãe. No campo minhas peripécias eram semelhantes, subia em árvores pra mexer em ninhos de passarinhos, encontrava cobras pelo campo e as matava, galopava o cavalo zânio sem receio, visitava o milharal para fazer cabanas, e íamos às sangas nos refrescar, mas receava as águas escuras. Os banhos eram gelados no chuveiro da rua ou na banheira dentro de casa. Não tinha luz, e os lampiões eram acessos assim que escurecia. A geladeira era movida a gás e com a pouca luz gerada pelos moinhos de vento. Nossas noites ficavam encantadas com histórias, muitas estórias contadas por vovó, por nossas cuidadoras, sobre Pedro Malazarte, dos enigmas do campo, dos parentes desconhecidos, mas existentes. Por vezes nossas noites ou manhãs eram assombrosas pelos fortes ventos do minuano ou por gritos de galinhas, causado pelas raposas. Dormíamos tarde, apesar na falta de luz, aproveitávamos o sono dos justos pra assaltar as bolachas das latas, as compotas de abóbora na geladeira e jogar cartas até cansar. Papai nos forçava a dormir cedo, mas esperávamos o silêncio se fazer para voltar às nossas atividades noturnas, afinal a distância entre nossos quartos era bem grande!
Uma casa com crianças é uma casa com rotinas, hora de comer, dormir, estudar, apesar de acharmos que só nos era permitido estudar, tamanha pressão existente. Estudar era nossa principal razão de existir, para papai deveríamos estudar 24 horas por dia, o que achávamos sem propósito, um massacre descomunal, mas obedecíamos, sempre que estávamos em sua presença, estávamos em volta da mesa grande da sala com os livros abertos. Nessas horas, que eram muitas, o que fazíamos ou pensávamos apenas nos pertencia!!
A comida era outro item importante e fundamental na nossa criação, dentre as rotinas estabelecidas, fazíamos, um revezamento, para enfrentar a via sacra das feiras populares, das 07 às 11horas da manhã, onde comprávamos a xepa do final do dia, produtos mais batidos, amassados e murchos eram mais em conta. Os cardápios eram cuidadosamente selecionados conforme valor nutricional, e havia escândalos quando as frituras apareciam, o preparo antecipado no sábado do almoço dominical e seu repetitivo cardápio, cuja divisão era religiosamente as mesmas todos os domingos e minhas manifestações contrárias eram recebidas com indiferença e sarcasmos. E por fim as esperadas guloseimas das sextas à noite, o sagu, as rapaduras quando era permitido assistir televisão.
O irmão mais velho, quem sabe por ter que dividir desde sempre, tudo entre todos, era o mais esganado e comilão, chamávamos de Maria Godera, sempre pronto pro lanchinho! Mas todos cresceram muito ávidos por comida, esganados, e consequentemente muito sadios e fortes.
Nossa sala de estar era nosso QG, nela estudávamos, aos sábados papai recortava os jornais da semana, e era meu quarto de dormir , um sofá cama xadrez. Não tinha adornos, apenas livros, uma vitrola que durante a semana escutava-se os noticiários matutinos e noturnos, discos de musicas MPB nos finais de semana, um quadro de Renoir, a leitora, uma grande mesa com 6 cadeiras e um sofá de couro marrom usado.
Nossos vizinhos eram nossos amigos de brincadeiras, morávamos num beco sem saída, com três residências, na região central da capital, mamãe chamava de "Beco das Amélias" porque as esposas eram sofridas e guerreiras. Dessas, duas sofriam violência física dos maridos, um absurdo impensável para nossos valores. Nossos pais também se violentavam, mas verbalmente. A violência física era reservada para nós, os filhos.
Nossa casa era a menor e mais humilde, a última delas; havia árvores na frente e ao lado de casa, carambolas e amoras. Creio que éramos os mais felizes, pois tudo era falado e escancarado, os problemas tentavam ser resolvidos as claras e aos berros, tal autenticidade e transparência nos fortalecia de algum modo.  Foram essas primeiras e significativas impressões que me deram sustentação pra viver o que vivi, que me prepararam pra estabelecer minhas conquistas e meus limites  Crescemos amedrontados, mas orgulhosos do que nos tornamos,  aprendemos a amar aquilo que nos acostumamos, a amar quem nos amou e mesmo com as dificuldades inerentes à qualquer sujeito que nasce, cresce e morre, posso afirmar que me orgulho de meus pais e minha família e agradeço sincera e profundamente todos as oportunidades e ensinamentos que recebi com  grande amor de meu pai e minha mãe e que a finitude de nossas vidas não promova o esquecimento de nossa grande história. Na minha infância papai era rei e mamãe rainha num reino de fadas e monstros, de alegrias e tristezas de amor e fantasia.
E acima de tudo, lembro de meu grande amor por  papai, eu o amava e muito! Seu cheiro, seu hálito de chimarrão! Seu bigode bem aparado por cima daqueles grossos lábios de que quando discursava flamejavam e o dentes perfeitos brilhavam. Que sorriso gostoso ele tinha, com cheiro de laranjeira e amoleciam meus olhos. Seu corpo, seus cheiros me envolviam num clima de aconchego e amparo, eu sentia que ele me amava, eu era a menininha dele que crescia, mas sempre sua menininha. O som de sua voz era estrondosa e ecoava em meu peito como uma ode de amor, quer seja para discursar ou quando nos relatava fatos históricos! A noite, antes de dormir, me contava histórias de Guimarães Rosa, de Borges, pouco compreendia, mas adorava ser embalada, pela sua voz em diferentes vibrações, e com imensa capacidade de nos embrenhar por terras estranhas com personagens tão importantes que faziam daqueles momentos somente nossos.
 Não lembro como, mas aprendi com ele o manejo da terra, o segredo da fertilização, me tornei uma menina do dedo verde e sou orgulhosa e feliz por isso, por ter herdado seu dom e seu gosto pelo pó, barro, pedra e terra.
14/11/2018

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