segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Pé no chão


 E assim se vão esvaindo...minhas lembranças momentâneas e um bocado das remotas.

Não sei a causa, poderá ser Alzaimer, velhice ou quimioterapia,  só sei que esqueço. 

Desligada eu sigo como muito desejei, ser desprendida, sair do controle, ser mais leve e serena.

Escolho esquecer das dores de uma vida exaustiva, dos compromissos enfadonhos, do excesso de controle sobre tudo que me cerca.

É assustador pensar que minha vida possa estar nas mãos de outros, o que construí com tanta força e determinação já não me pertence mais. 

Que os frutos de minha árdua conquista deverão ser usufruídos por aqueles cuja batalha não foi compartilhada. 

Todavia, é disso que preciso: desapego, me cuidar, abrir mão daquilo que não traz significado pra minha alma,  quero ser liberta.

Sou livre? Não vivo o hoje sem pensar no outro, ainda sou refém das convenções,  dos valores morais, éticos e sociais. Tenho medo de ir e vir sozinha, desacompanhada.

Ainda não sou um garapuvu que apesar de portentoso, esbelto e belo tem suas raízes e caules flexíveis e sensíveis aos fortes ventos ferozes de Iansã.

Minhas raízes são firmes em demasia, onde diante de uma simples ameaça eu me reteso e seguro firme com os meus mais primitivos instintos.


Às claras


 Vivo escutando que nós mesmos produzimos a doença. 

 Que nossas raivas e mágoas guardadas geram desequilíbrio celular, emocional, físico e espiritual.  

Fico pensando se sou má, raivosa, magoada e ressentida. 

No entanto percebo que pessoas adoecidas são as mais sensíveis e frágeis, que não suportam o peso e a dor da raiva e da mágoa, pessoas que não aceitam esses sentimentos dentro de si e sucumbem nesse duelo de proteger-se continuamente de energias sugadoras, de artimanhas manipulativas e da crueldade do mundo. 

Sim! Nós entregamos, cansados e exauridos da dor, da ira e do medo. 

Sim! Não aguentamos os jogos da vida e de lidar com a maldade escancarada ou escondida. Sim! Cansamos e nos entregamos à fúria do medo, do abandono, do egoísmo, da vaidade e do orgulho. 

Agora entendi, e agora aceito! Minha dor me machucou e escolhi não mais escondê-la!


Recaídas


 Sempre que me acomete uma recaída como dor na barriga, tonteira, indisposição, e sempre que me reparo mais magra, a pele seca, coceiras, inapetente e sempre que meus exames alteram me lembro da minha amada filha. Seu processo de debilidade foi semelhante, mas diferentes foram às reações perante essas constatações.  Ela era sensível à dor, seu corpo era frágil e suscetível,  desesperava-se com facilidade, seu pavor e agitação eram imensos diante de doenças e sentia-se profundamente agredida física e organicamente com as dores.

Sua jornada foi longa, pois doente estava quase desde sempre.  No entanto após o diagnóstico, o tempo foi curto, dois anos e meio. 

Eu já estou há três anos, num período de muitas quimioterapias e cirurgias e animada para novos desafios que atiçam minha perseverança.

Me intriga pensar em como morrerei, quais e como serão as diversas etapas do definhamento e das horas finais.

Espero estar serena e em conexão com minha paz e minha luz, mesmo se advir a dor e o sofrimento físico.  Sei que o protocolo padrão é a morfina, para acalmar e aliviar o trajeto, mas será que estarei lúcida e consciente de minha partida ou dopada e no abandono físico e mental da droga? Se optar pela passagem de modo lúcido, estarão  presentes os sofrimentos físicos?

Bem, até chegar os dias e as horas finais, devido à debilidade causada pelo câncer, ou qualquer outro motivo que não seja repentino, deverei passar por dificuldades e percalços, e quais seriam? Semelhantes às de minha filha? Sem comer, sem andar, obstrução intestinal,  dor de cabeça alucinante e constante,  perda das funções dos órgãos, falência dos sinais vitais? 

Outro dia li que no limiar da morte sentimos alteração do estado de consciência, apesar de muitos conservarem a lucidez até o final, a sensação de afogamento, a dor, alterações alimentares, psicológicas, respiratórias e os quadros de confusão mental.

E quando? Como traço meus planos, à médio ou pequeno prazo, o que devo iniciar, o que fazer enquanto se espera? Há uma dificuldade de seguir a vida no que se refere às decisões quando o fim se avizinha.


Fique em casa


 Estamos confinados.

Um eterno sábado e domingo

O marido fica em casa

E eu me escabelo

Tv eternamente ligada

Filmes comerciais americanos

Com lutas intermináveis 

Casa desarrumada, almofadas fora do lugar

Bichos circulando livremente, pêlos pelo caminho

Entrega minha filha, entrega...

Nada disso é demasiadamente importante, relaxe!


Aquilo que escondemos


 Hoje percebo o quanto sempre fui doente, nasci doente! 

Sou fruto de uma união desajustada

Dois seres inquietos, angustiados e depressivos. 

Cresci num ambiente claustrofóbico, onde o desejo de não estar ali era presente e constante. Fiz escolhas absurdas e desconcertantes que resultaram na multiplicação de dores e de frutos doentios.

Se, olho pra trás vejo minhas dores, tristezas e concluo que sempre fui depressiva e escondi. 

Se busco entender como sobrevivi diante de tantos desafios, percebo que foi minha rigidez que me segurou e meu orgulho que não permitiu sucumbir. 

Quando me dizem que sou forte, não fico feliz, pois sei que minha fortaleza foi construída nos alicerces da dor, do orgulho, da ambição e da teimosia. 

Meu sofrimento se transformou em força e me manteve adoecida ao longo de minha vida. 

Lembro-me de minha filha e sua imensa batalha contra a dor e sofrimento

Me reconheço nela, porém ela se revoltava e gritava aos quatro cantos, já eu me encolhia e me resguardava solitária no meu esconderijo.

Tive hepatite aos nove anos, primeiro grito de desespero e raiva acumulada. 

O resultado de meu constante medo e pavor tornaram meus músculos e princípios rígidos e inflexíveis, sequei minhas águas emocionais, me afastei de todos e de mim mesma, meu pavor de contato com os outros era evidente, preferindo sempre a solidão e o silêncio. 

Sou depressiva, ansiosa, rígida, indecisa, o medo do passado, do presente e do futuro me paralisa, receio dormir, acordar e viver!

Estou sempre em alerta, seguro objetos com força, levanto os ombros e tenciono os músculos.

Dos pés à cabeça quando entro em ação, desde o ouvir, olhar, falar ou tocar, tudo arde e em alerta, ai como cansa!

Sei que meus filhos, todos têm o mesmo sentimento, as mesmas dores e angústias, o mesmo grande e profundo vazio existencial e isso para mim, mãe, é insuportável, insustentável, desesperador e mortal. 

Necessito de descanso e paz, já se passaram muitos anos, estou cansada!


Cuidados paliativos


 Quando minha morte for iminente, devem ser iniciados os cuidados paliativos e algumas decisões deverão assumir os que me são próximos. 

Então:

Não desejo me submeter à ressuscitação cardiorrespiratória (RCP – um procedimento de emergência que restabelece a função cardíaca e pulmonar) para viver mais um fiozinho de vida.

Desejo ser hospitalizada ou usar um ventilador?

Quero falecer em casa? Pra isso é necessário que os familiares devam planejar, chamar um médico ou enfermeiro e ter os medicamentos em casa. Nada de dor!

Optarei pela cremação!

Se for possível permito a doação de órgãos e tecidos. 

As práticas religiosas podem ser dispensadas. 

Os sinais físicos característicos da morte são: a diminuição da  consciência, os membros começam a esfriar e ganham uma coloração azulada ou com manchas, a respiração pode ficar irregular, as confusão e sonolência podem ocorrer nas últimas horas.

As secreções na garganta ou o relaxamento dos músculos da garganta provocam uma respiração ruidosa, denominada o estertor da morte. O ruído pode ser evitado ao mudar a posição do paciente, limitar a ingestão de líquidos ou usar medicamentos para secar as secreções. Esse tratamento tem como objetivo o conforto da família ou dos prestadores de cuidados, uma vez que os a respiração ruidosa ocorre quando o doente terminal já não tem consciência. O estertor da morte não provoca desconforto para a pessoa em estado terminal. Essa respiração pode continuar por horas e frequentemente significa que a morte ocorrerá em horas ou dias.

No momento da morte, pode acontecer que alguns músculos se contraiam e que o peito se mexa como se estivesse respirando. O coração pode ainda bater alguns minutos depois de se interromper a respiração e pode ocorrer uma breve convulsão. Os familiares poderão tocar, acariciar e abraçar ainda durante alguns momentos depois da morte.

Que eu parta na hora do lusco-fusco, durante a luminosidade crepuscular e que todos  fiquem bem, estarei descansando e livre. Fiquemos na paz e na luz.


Pensar

 Chafurdo o passado

Meu vício 

Procuro razões e porquês 

De tanta limitação 

Dificuldades diárias 

De abrir janelas

Mostrar a carne

A alma e a desordem

Da caminhada exaurida

Para estampar o consenso

Junto ao espetáculo circense.

Ah se eu soubesse...

Dias e noites repensando 

Como não sucumbir

À essa teima repetida

Um capricho belicoso

Que impede o regozijo

Mas o que fazer

Se o contentamento habita

No universo obscuro

Da mente, do corpo, do sentir

Sem sadismo nem tristeza

Meus hormônios já perdi

Sem eles resta-me a razão 

O incessante refletir

Das partes do tempo

Do ontem, do hoje e do amanhã.




Um mal necessário


 Eram quatro bocas

Era meu orgulho palpitando

Era o tempo correndo 

Era necessário ser e ter

E o que fazer?

Princípio básico: estudar, estudar e estudar para ter um trabalgo "digno" .

Assim eu fiz: já passava dos trinta, voltei aos estudos  e aos quase quarenta me estabeleci.

Fui funcionária pública por 24 anos, precisava da estabilidade para garantir o sustento de quatro bocas e mais a minha.
Me adaptei bem, meu perfil disciplinado, obediente, organizado, sistemático, planejador e resignado me ajudaram. Mas a salvação foi ter conseguido realizar sonhos, metas com relativa independência e apoio. Tracei e alcancei objetivos que me satisfizeram e me realizaram profissionalmente. 

Transformei meu trabalho em realização pessoal e profissional, fiz o que pude pra ser honesta , fiel, criteriosa, dedicada e caprichosa. Consegui me estabelecer, me fiz respeitar, mas por fim encerrei. Fui muito feliz e sou muito grata.

Nem tudo foi flores, nos últimos anos já havia saturado, feito o que queria,  estava cansada. Foi duro esse período, fazer o que não eu não mais gostava, aturar ambientes inóspitos, cruéis, dissimulados, competitivos e desagradáveis. Foi um fardo desnecessário, poderia ter escolhido um caminho mais leve e prazeroso. 

Biblioteca era trabalho, hoje nem lembro.  Por fim, acabou. Sou agradecida, mas nunca mais!


Três anos sem ela

 Minha bebezinha

Era uma belezinha!

Sonhava em ser bailarina

Nos encantava com sua energia

Sagaz, atenta e perspicaz


Talentosa, dengosa, manhosa

Um coração que não lhe cabia

De tão grande, transbordava amor 

De tanto amor tornou-se intensa, profunda e inquieta.

Ah que saudade que eu tenho

Dos tempos temperados e destemperados que percorremos eu, ela, nós, lado à lado, imersas na lida da vida.

Pra sempre saudosa

Eternamente amada!


Tiago


 Hoje meu segundo filho faz quarenta e dois anos.

Um bebê lindo, sereno, doce e amoroso!

Uma vida difícil,  muitas ausências,  agressões,  desprezo e tristezas!

Seu sentimento de abandono é imenso.

Busca consolo no esquecimento momentâneo. 

Se ausentando por poucos minutos e ao retornar suas dores triplicam.

Que desespero deve sentir por optar pela potencialidade de sua dor?

Que solidão profunda o faz sucumbir regularmente ao precipício?

Torturo-me em não saber como curá-lo, mas me conforto em acreditar que sua caminhada é aprendizado.

Mas como ampara-lo além de suas necessidades e carências básicas?

Como aceitar e ficar serena com suas escolhas e consequências?

Só o amor incondicional nos salva!

Eu te amo meu amado filho e sempre serás a razão de minha vida!


Revisão


 QUAIS FORAM MINHAS GRANDES DORES?

- A partida de meu filho com o advento da esquizofrenia 

- Perder minha filha nos seus 40 anos

- Perder meu filho para o crack e ele ficar prisioneiro 

- Ficar longe de meus filhos e ir pra Campinas, SP fazer mestrado

- Minha ausência durante infância e juventude dos filhos 

- As desavenças,  brigas e diferenças e o uso de drogas e álcool dos filhos

- Sofrimento e morte do meu irmão Fábio

- Morar com minha mãe e estar dependente dela

-  Estar grávida aos 16 anos.

- Inveja, menosprezo e rejeição de minha mãe 

- Rejeição de meu pai em relação aos meus filhos


QUAIS FORAM MINHAS GRANDES ALEGRIAS?

- Ganhar presentes de mamãe durante a infância 

- Presentear para meus filhos

- Conquistar estabilidade financeira 

- Passar no vestibular, fazer mestrado e ser aprovada em concursos

- Construir casas para meus filhos

- Aprovação do Rômulo, Lucas e Mayana no vestibular

- Ter meus filhos perto de mim

- Ter um pé de manacá e plantar muitas árvores

- A prática de yoga


AGRADECIMENTOS:

Amor de Martin e filhos

Amor de Roger e papai

Amor de amigos

Auxílio financeiro de minha mãe e meu pai

Àqueles que me ampararam

Àqueles que me ensinaram. 


PERDÕES (É FEITO PRA GENTE PEDIR)

- Aos meus filhos pela ausência 

- Ao Martin pelas dores que causei

- Ao Rubem por não conseguir ampara-lo

- A todos aqueles que agi com soberba, desprezo, indiferença, arrogância, preconceito e crueldade verbal e psicológica.

- Ao PAI pelos meus erros


MINHAS MÁGOAS 

- Intrigas e dores causadas no ambiente de trabalho

- Meu irmão Telmo pela violência e ciúme com Mayana

- Abandono dos filhos pelo pai deles



 Nasci e cresci ateia ou agnóstica.

Nunca percebi nos meus pais, durante a infância e juventude,  a existência de alguma devoção religiosa. 

Somente após o falecimento de meu irmão, minha mãe passou a fazer alusão à Deus, às vezes enaltecendo, outras praguejando.

Eu e meu irmão no início  da adolescência, e por influência de nossa ajudante doméstica, frequentamos a igreja Batista,  por um breve período. 

Acho que buscávamos uma comunidade,  um aprendizado sobre convivência social e uma fuga de casa. Não durou, foi difícil a adaptação, uso de linguagem desconhecida e pouco racional aos nossos ouvidos.

Estranhei durante minha caminhada a não incorporação de alguns sentimentos e a não prevalência de ações como a gratidão, a compaixão  e a caridade.

Isso me fez falta para amenizar o coração,  dividir e compartilhar com o outro,  amparar, reconhecer o amparo e a ausência do exercício da vida em grupo.

Concebia o mundo solitário,  rude, duro e exaustivo. A humanidade sempre me pareceu inimiga e nada acolhedora.

Concebia a ideia do coletivo, da egrégora, das iniciativas caridosas, do ser tolerante e humilde, estando todos sempre atrelados aos pressupostos teológicos. 

Construí e solidifiquei o entendimento da religião como o ópio do povo,  uma bengala. Reconheço ter tido uma curta e preconceituosa visão. 

Havia um incômodo social frequente,  afinal ser religioso ou ter uma religião é ser um sujeito temente a Deus ou à algum outro poder inquestionável; denotando nossa humildade e resignação perante nossos conflitos. 

Diante da dificuldade de me curvar, ser ateu era ser segregado, estar separado, preterido e subjulgado.

Uma boa parcela da humanidade do nosso convívio diário,  possui um laço comum que mantém seus membros iguais e unidos, que no caso é o papel agregador das relegiões. 

Sempre cultivei minha preciosa solidão, acreditava que na minha vida não havia espaço para a futilidade social e o insistente domínio ofensivo de meu silêncio e privacidade

Demorei anos até entender que posso ser uma agnóstica feliz e compartilhar com todos independente do credo.

Posso afirmar tranquila e sem temor que não preciso de um Deus idealizado para viver e me proteger, mas necessito e gosto de pessoas e relações saudáveis, onde eu possa praticar a caridade, a humildade,  a compaixão e o amor independente e amplo. Gosto de pensar num universo imparcial, acolhedor e equilibrado que nos fornece luz, energia, discernimento e sossego. Entretanto nas horas da profunda tristeza,  do desespero pela falta de controle frente às vicissitudes do destino, sucumbimos e recorremos à ele, o imponderável milagre das soluções e o amparo à nossa dor


Conselhos


 Como diria minha mãe: 

Vão todos à merda!

Coitados, daqueles que como eu, têm câncer! Devem ouvir diariamente:

Tem que ser forte!

Tudo vai passar!

É como diabetes,  basta medicar

Tem que se cuidar!

É emocional

É a raiva contida

Tem que ter merecimento 

Enfia pelo ânus oxigênio que cura!

Entorna muito chá disso e daquilo

Não pode açúcar, farinha, carboidrato e o diabo a quatro. 

Meter agulha, tirar sangue, botar sangue e ficar roxa, também cura!

Coma gengibre, açafrão e muito verde 

Faz isso, faz aquilo...

Chega!!! Me deixem e vão todos se lascar!


Notícias não gratas


 No sábado uma dúvida

Na segunda um aviso

Na quinta um alerta 

Enfim a confirmação

Seguida do susto, mudanças forçadas!

Pavor, o que saber?

Medo, como fazer?

Dor, o que irei perder?

Meu aniversário, meu presente, 7 de março

A longa jornada se decreta

As dúvidas transbordam

A fé se procura

Recorre-se a habilidade de esmiuçar as forças

E sigo em frente, preparando o “evento”

Que não revela seu momento 

Quando, onde, como...


Muito esforço empreendido

Muitas perdas sentidas

Mas vou deixa-los amparados

Para a vida seguir

Mais fortes e mais solitários 


Aqui eu parto

Feliz pra outro lugar 

Deixo tudo zerado

E meu amor nos seus olhos