quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

A escriba



Quanto mais escrevo, maior o desejo de ser ouvida, meu legado.

Meu corpo anuncia minha morte iminente, a cada dia percebo as boas células  se esgotarem, numa velocidade galopante.
Percebo minha breve finitude, compreendo meu processo, aceito a realidade e aguardo serena.
Necessito falar, escrever e expressar meus sentimentos e impressões, é momento de revisao, reflexão e expectativas.
Se faz urgente o resgate da vida vivida e constatar o tudo que valeu viver.
Gratidão é o maior dos sentimentos.  Cada dia está sendo uma dádiva,  uma alegria à vida à mim ofertada. Não estive só,  agradeço meus pais, meus filhos, minhas realizações profissionais e pessoais, amigos, a natureza, ao tanto de saúde que me resta e às conquistas, das mais singulares e humildes às mais representativas.
A dor, o sofrimento, a dificuldade foram parceiras de caminhada e foi através  delas que desenvolvi minha força,  lucidez e capacidade de superação.
Escrevo durante as noites insones pós quimioterapia,  cuja azia, refluxo, além do corticóide, não me permitirem um sono restaurador.
Escrevo após longos banhos, quando meus pensamentos se tornam mais cristalinos.
Escrevo sobre descobertas e revelações proporcionadas pela interação com o mundo, nas relações que desejo a verdade e a entrega.
Escrevo porque gosto, para dar voz aos meus anseios.
Escrevo para exercer a criatividade, a lógica e praticar a arte da exploração, da observação,  do escutar e da percepção.
Escrevo porque sou uma escriba espectadora. Sou oral, racional e auditiva.

Estar ou ser feliz?

Ser feliz nao é ter coisas,  amigos, viver intensamente as regalias de uma vida confortável,  estabilizada, segura ou algo pra se mostrar.

Ser feliz é estar integralmente consigo, é ter e ser o mundo dentro de si.
Não é o riso, o falar, o fazer.
É ser, respirar, conectar, contemplar e ser uno com o universo.
Não preciso falar sobre minhas alegrias, tristezas, conquistas, sentimentos. Não preciso saturar os meu sentidos mais básicos para ser, preciso reconhecer e explorar os sentidos além mar, além matéria.
Ser feliz é ter um elo inquebrantável com o etéreo,  o sublime.

terça-feira, 17 de novembro de 2020

O chamado


 Esta noite senti o invisível presente

Os fluídos da vida, da existência, do universo
Meus sentidos estavam apuradíssimos
Ouvi o barulho interminável do silêncio
A voz da vida me atiçando
A presença do vazio e da escuridão me chamando
As urgências aceleradas
O aparentemente simples em altamente complexo e assustador
Foi uma epifania arrasadora
Tive medo do instante da morte!

É preciso esvaziar o saco
Perder a hora
Deixar cair
Nao segurar, soltar, deixar rolar
Rio encontrar o mar
Insignificar
Relevar
Escorregar
Calar, silenciar, aquietar
Perder, esquecer e desintegrar.

sábado, 14 de novembro de 2020

 Está chegando a hora

O cerco está se fechando

Hora de comer o que quiser
Hora de mandar o médico a merda
Hora de parar de se iludir
Hora do enfrentamento
Hora de planejar a finitude
Hora de investir no melhor pra mim
Vou ter flores, doces, amparo e cuidado
Vou rir pelos cotovelos
Vou dançar até cair
Vou jogar pro ar as regras
Vou transgredir minhas proprias leis
Ah, vai ser bacana, só alegria, leveza e paz
Vou sem mala, sem memória

 

terça-feira, 10 de novembro de 2020

Navalha na carne

 



Ja foram muitas!
Físicas e por analogias
Das dores que resultaram um corte com sangue e um corpo dilacerado. Elas passam, cicatrizes ficam, mas logo esquecidas.
Desde cedo, aos quatro anos, após uma mordida de cachorro tomei 30 injeções no umbigo e aos nove anos contraí hepatite viral.
Foram mais de dez procedimentos cirúrgicos, desses, seis com internações e grandes cortes: cesariana (17 anos), laqueadura (38), abdomemplastia (42), parótida esquerda(47) duas citorreduções (57 e 58)
As menores, em hospitais foram a retirada de um sinal grande abaixo da orelha, de um sinal basocelular na nuca, duas do túnel do carpo, colocação e retirada de tres cateters.
De quebra só a clavícula.
Há ainda os sofrimentos de mais de trinta sessões de quimioterapia e de internações hospitalares por conta dos seus efeitos.
As dores da alma são inumeráveis,  pois são aprendizados e maturidade espiritual. Mas doem e muito.
A perda de filhos,  seus sofrimentos,  a dificuldade de aprender e reconhecer erros e acertos, a violência sofrida, o desprezo, a acidez dos afetos, enfim me fortaleceram, apesar que alguns desses machucados ainda insistirem em permanecer.


Fui

Que fique bem claro

Nao tenho medo da morte.
É o fim de um ciclo
É uma semente estourada
Uma flor sem pétalas
Uma árvore seca
Um alimento apodrecido
É uma outra vida
Uma outra estória
Contada por mim, por vós,  por nós

Tenho medo da dor, da falta de ar, de altura, da imobilidade advinda de uma cama, de não poder sentir o sol, a chuva, as árvores.
Tenho medo da falta de amor, do ódio,  da manipulação,  da ira, da traição e da maldade.

Se perderei todas as chances de viver esses medos, então estarei feliz, mesmo morta!



Como estar leve?


Ela está sempre comigo, mas evito seu olhar.

É um cheiro, uma palavra, um lembrança,  tem sempre algo a me cercar.

Tenho medo de sucumbir
Quero chorar, quero sentir
Sentir a perda, a tristeza, a saudade, a dor
Mas me retraio. Não sei se me fará bem.
Receio o aumento do volume das minhas células doentes e ressentidas.
Mas esse aperto dói,  gostaria de não represa-lo, deixar correr meu mar de lágrimas,  ter o aperto na garganta, a coriza escorrendo como uma cachoeira e por fim ter a cabeça  latejando, pesada e dormir...

Se

 


Se a cura pela fé te deixará mais tranquilo e esperançoso,  tudo bem, eu respeito
Se creres em milagres, tudo certo,  apesar de serem muito raros e demorados
Se sugeres  outra alimentação acreditando mudanças repentinas, bom pra sua saúde e disposição
Se pensas em mim atrelada à uma receita, mandinga, casos de cura, sem problemas,  vc está querendo minha presença e meu cuidado.
Mas, por favor, de tudo que te esforças para me ver bem, faça também um tantinho a mais e respeite e me ampare nas minhas crenças,  mesmo sendo tão cartesianas e mentais.
Preciso de afeto e generosidade,  preciso que me ensines a sentir e não somente a pensar...



Retorno IV

 Novamente ele chegou com inspiração e dor

É uma doença que exige força,  determinação,  paciência,  sublimação e resignação.
São muito doídos os efeitos das quimioterapias. Eles destroçam nosso organismo, destroem nossos dias e não há luz do sol, luar ou mar que nos faça alegrar.
São dias de tristezas, dor e escuridão.  

É quando morremos para a vida mesmo estando vivos.

Qual a finalidade? Há sentido em estender a vida por alguns poucos anos mais, 1 ou 2 se durante esse período ficaremos impossibilitados de viver a luz, o sol, a alegria, a saúde?
A decisão é difícil! Estar vivo para o outro? Rastejar pra não se entregar?
Não faz sentido pra mim.
E se eu me perguntar: quero estar viva para quê? Quais são meus planos?
Não sei a resposta. Pra comer, plantar, ler, comprar, gastar, viajar, não,  essas coisas não são tão valiosas a ponto de compensar o sofrimento advindo da dor e miséria de uma quimioterapia!
Mas é pecado, covardia, heresia não se tratar?

Um Medico, um cuidador?

Eu gosto dele, é jovem, tem a idade de minha filha e estar com ele é ter a lembrança dela comigo por alguns minutos. 

Ele é liso, escorregadio e esconde a realidade.
Há temor e insegurança em sua postura, não sabe o que dizer pra fugir dos fatos.
Evita ser realista e utiliza do argumento que cada caso é diferente, há especificidades a serem consideradas. Tenta escapar das estatísticas. Me poupa ou tem receio de assumir posturas?
Mas ao mesmo tempo é ortodoxo e protocolar na hora de definir um novo tratamento, refugia-se no senso comum, desconsiderando totalmente a especificidade de cada indivíduo.
Não ousa, não há coragem, não amplia fronteiras e não enfrenta desafios, apenas faz o que sabe ou o que seus pares já fizeram.
Isto é cinismo, é o não comprometimento com seu paciente, é falta de empatia, de amparo e generosidade.
Ele não faz contato, ele vê e não toca com a alma.


Mereço isso de novo?

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Pé no chão


 E assim se vão esvaindo...minhas lembranças momentâneas e um bocado das remotas.

Não sei a causa, poderá ser Alzaimer, velhice ou quimioterapia,  só sei que esqueço. 

Desligada eu sigo como muito desejei, ser desprendida, sair do controle, ser mais leve e serena.

Escolho esquecer das dores de uma vida exaustiva, dos compromissos enfadonhos, do excesso de controle sobre tudo que me cerca.

É assustador pensar que minha vida possa estar nas mãos de outros, o que construí com tanta força e determinação já não me pertence mais. 

Que os frutos de minha árdua conquista deverão ser usufruídos por aqueles cuja batalha não foi compartilhada. 

Todavia, é disso que preciso: desapego, me cuidar, abrir mão daquilo que não traz significado pra minha alma,  quero ser liberta.

Sou livre? Não vivo o hoje sem pensar no outro, ainda sou refém das convenções,  dos valores morais, éticos e sociais. Tenho medo de ir e vir sozinha, desacompanhada.

Ainda não sou um garapuvu que apesar de portentoso, esbelto e belo tem suas raízes e caules flexíveis e sensíveis aos fortes ventos ferozes de Iansã.

Minhas raízes são firmes em demasia, onde diante de uma simples ameaça eu me reteso e seguro firme com os meus mais primitivos instintos.


Às claras


 Vivo escutando que nós mesmos produzimos a doença. 

 Que nossas raivas e mágoas guardadas geram desequilíbrio celular, emocional, físico e espiritual.  

Fico pensando se sou má, raivosa, magoada e ressentida. 

No entanto percebo que pessoas adoecidas são as mais sensíveis e frágeis, que não suportam o peso e a dor da raiva e da mágoa, pessoas que não aceitam esses sentimentos dentro de si e sucumbem nesse duelo de proteger-se continuamente de energias sugadoras, de artimanhas manipulativas e da crueldade do mundo. 

Sim! Nós entregamos, cansados e exauridos da dor, da ira e do medo. 

Sim! Não aguentamos os jogos da vida e de lidar com a maldade escancarada ou escondida. Sim! Cansamos e nos entregamos à fúria do medo, do abandono, do egoísmo, da vaidade e do orgulho. 

Agora entendi, e agora aceito! Minha dor me machucou e escolhi não mais escondê-la!


Recaídas


 Sempre que me acomete uma recaída como dor na barriga, tonteira, indisposição, e sempre que me reparo mais magra, a pele seca, coceiras, inapetente e sempre que meus exames alteram me lembro da minha amada filha. Seu processo de debilidade foi semelhante, mas diferentes foram às reações perante essas constatações.  Ela era sensível à dor, seu corpo era frágil e suscetível,  desesperava-se com facilidade, seu pavor e agitação eram imensos diante de doenças e sentia-se profundamente agredida física e organicamente com as dores.

Sua jornada foi longa, pois doente estava quase desde sempre.  No entanto após o diagnóstico, o tempo foi curto, dois anos e meio. 

Eu já estou há três anos, num período de muitas quimioterapias e cirurgias e animada para novos desafios que atiçam minha perseverança.

Me intriga pensar em como morrerei, quais e como serão as diversas etapas do definhamento e das horas finais.

Espero estar serena e em conexão com minha paz e minha luz, mesmo se advir a dor e o sofrimento físico.  Sei que o protocolo padrão é a morfina, para acalmar e aliviar o trajeto, mas será que estarei lúcida e consciente de minha partida ou dopada e no abandono físico e mental da droga? Se optar pela passagem de modo lúcido, estarão  presentes os sofrimentos físicos?

Bem, até chegar os dias e as horas finais, devido à debilidade causada pelo câncer, ou qualquer outro motivo que não seja repentino, deverei passar por dificuldades e percalços, e quais seriam? Semelhantes às de minha filha? Sem comer, sem andar, obstrução intestinal,  dor de cabeça alucinante e constante,  perda das funções dos órgãos, falência dos sinais vitais? 

Outro dia li que no limiar da morte sentimos alteração do estado de consciência, apesar de muitos conservarem a lucidez até o final, a sensação de afogamento, a dor, alterações alimentares, psicológicas, respiratórias e os quadros de confusão mental.

E quando? Como traço meus planos, à médio ou pequeno prazo, o que devo iniciar, o que fazer enquanto se espera? Há uma dificuldade de seguir a vida no que se refere às decisões quando o fim se avizinha.


Fique em casa


 Estamos confinados.

Um eterno sábado e domingo

O marido fica em casa

E eu me escabelo

Tv eternamente ligada

Filmes comerciais americanos

Com lutas intermináveis 

Casa desarrumada, almofadas fora do lugar

Bichos circulando livremente, pêlos pelo caminho

Entrega minha filha, entrega...

Nada disso é demasiadamente importante, relaxe!


Aquilo que escondemos


 Hoje percebo o quanto sempre fui doente, nasci doente! 

Sou fruto de uma união desajustada

Dois seres inquietos, angustiados e depressivos. 

Cresci num ambiente claustrofóbico, onde o desejo de não estar ali era presente e constante. Fiz escolhas absurdas e desconcertantes que resultaram na multiplicação de dores e de frutos doentios.

Se, olho pra trás vejo minhas dores, tristezas e concluo que sempre fui depressiva e escondi. 

Se busco entender como sobrevivi diante de tantos desafios, percebo que foi minha rigidez que me segurou e meu orgulho que não permitiu sucumbir. 

Quando me dizem que sou forte, não fico feliz, pois sei que minha fortaleza foi construída nos alicerces da dor, do orgulho, da ambição e da teimosia. 

Meu sofrimento se transformou em força e me manteve adoecida ao longo de minha vida. 

Lembro-me de minha filha e sua imensa batalha contra a dor e sofrimento

Me reconheço nela, porém ela se revoltava e gritava aos quatro cantos, já eu me encolhia e me resguardava solitária no meu esconderijo.

Tive hepatite aos nove anos, primeiro grito de desespero e raiva acumulada. 

O resultado de meu constante medo e pavor tornaram meus músculos e princípios rígidos e inflexíveis, sequei minhas águas emocionais, me afastei de todos e de mim mesma, meu pavor de contato com os outros era evidente, preferindo sempre a solidão e o silêncio. 

Sou depressiva, ansiosa, rígida, indecisa, o medo do passado, do presente e do futuro me paralisa, receio dormir, acordar e viver!

Estou sempre em alerta, seguro objetos com força, levanto os ombros e tenciono os músculos.

Dos pés à cabeça quando entro em ação, desde o ouvir, olhar, falar ou tocar, tudo arde e em alerta, ai como cansa!

Sei que meus filhos, todos têm o mesmo sentimento, as mesmas dores e angústias, o mesmo grande e profundo vazio existencial e isso para mim, mãe, é insuportável, insustentável, desesperador e mortal. 

Necessito de descanso e paz, já se passaram muitos anos, estou cansada!


Cuidados paliativos


 Quando minha morte for iminente, devem ser iniciados os cuidados paliativos e algumas decisões deverão assumir os que me são próximos. 

Então:

Não desejo me submeter à ressuscitação cardiorrespiratória (RCP – um procedimento de emergência que restabelece a função cardíaca e pulmonar) para viver mais um fiozinho de vida.

Desejo ser hospitalizada ou usar um ventilador?

Quero falecer em casa? Pra isso é necessário que os familiares devam planejar, chamar um médico ou enfermeiro e ter os medicamentos em casa. Nada de dor!

Optarei pela cremação!

Se for possível permito a doação de órgãos e tecidos. 

As práticas religiosas podem ser dispensadas. 

Os sinais físicos característicos da morte são: a diminuição da  consciência, os membros começam a esfriar e ganham uma coloração azulada ou com manchas, a respiração pode ficar irregular, as confusão e sonolência podem ocorrer nas últimas horas.

As secreções na garganta ou o relaxamento dos músculos da garganta provocam uma respiração ruidosa, denominada o estertor da morte. O ruído pode ser evitado ao mudar a posição do paciente, limitar a ingestão de líquidos ou usar medicamentos para secar as secreções. Esse tratamento tem como objetivo o conforto da família ou dos prestadores de cuidados, uma vez que os a respiração ruidosa ocorre quando o doente terminal já não tem consciência. O estertor da morte não provoca desconforto para a pessoa em estado terminal. Essa respiração pode continuar por horas e frequentemente significa que a morte ocorrerá em horas ou dias.

No momento da morte, pode acontecer que alguns músculos se contraiam e que o peito se mexa como se estivesse respirando. O coração pode ainda bater alguns minutos depois de se interromper a respiração e pode ocorrer uma breve convulsão. Os familiares poderão tocar, acariciar e abraçar ainda durante alguns momentos depois da morte.

Que eu parta na hora do lusco-fusco, durante a luminosidade crepuscular e que todos  fiquem bem, estarei descansando e livre. Fiquemos na paz e na luz.


Pensar

 Chafurdo o passado

Meu vício 

Procuro razões e porquês 

De tanta limitação 

Dificuldades diárias 

De abrir janelas

Mostrar a carne

A alma e a desordem

Da caminhada exaurida

Para estampar o consenso

Junto ao espetáculo circense.

Ah se eu soubesse...

Dias e noites repensando 

Como não sucumbir

À essa teima repetida

Um capricho belicoso

Que impede o regozijo

Mas o que fazer

Se o contentamento habita

No universo obscuro

Da mente, do corpo, do sentir

Sem sadismo nem tristeza

Meus hormônios já perdi

Sem eles resta-me a razão 

O incessante refletir

Das partes do tempo

Do ontem, do hoje e do amanhã.




Um mal necessário


 Eram quatro bocas

Era meu orgulho palpitando

Era o tempo correndo 

Era necessário ser e ter

E o que fazer?

Princípio básico: estudar, estudar e estudar para ter um trabalgo "digno" .

Assim eu fiz: já passava dos trinta, voltei aos estudos  e aos quase quarenta me estabeleci.

Fui funcionária pública por 24 anos, precisava da estabilidade para garantir o sustento de quatro bocas e mais a minha.
Me adaptei bem, meu perfil disciplinado, obediente, organizado, sistemático, planejador e resignado me ajudaram. Mas a salvação foi ter conseguido realizar sonhos, metas com relativa independência e apoio. Tracei e alcancei objetivos que me satisfizeram e me realizaram profissionalmente. 

Transformei meu trabalho em realização pessoal e profissional, fiz o que pude pra ser honesta , fiel, criteriosa, dedicada e caprichosa. Consegui me estabelecer, me fiz respeitar, mas por fim encerrei. Fui muito feliz e sou muito grata.

Nem tudo foi flores, nos últimos anos já havia saturado, feito o que queria,  estava cansada. Foi duro esse período, fazer o que não eu não mais gostava, aturar ambientes inóspitos, cruéis, dissimulados, competitivos e desagradáveis. Foi um fardo desnecessário, poderia ter escolhido um caminho mais leve e prazeroso. 

Biblioteca era trabalho, hoje nem lembro.  Por fim, acabou. Sou agradecida, mas nunca mais!


Três anos sem ela

 Minha bebezinha

Era uma belezinha!

Sonhava em ser bailarina

Nos encantava com sua energia

Sagaz, atenta e perspicaz


Talentosa, dengosa, manhosa

Um coração que não lhe cabia

De tão grande, transbordava amor 

De tanto amor tornou-se intensa, profunda e inquieta.

Ah que saudade que eu tenho

Dos tempos temperados e destemperados que percorremos eu, ela, nós, lado à lado, imersas na lida da vida.

Pra sempre saudosa

Eternamente amada!


Tiago


 Hoje meu segundo filho faz quarenta e dois anos.

Um bebê lindo, sereno, doce e amoroso!

Uma vida difícil,  muitas ausências,  agressões,  desprezo e tristezas!

Seu sentimento de abandono é imenso.

Busca consolo no esquecimento momentâneo. 

Se ausentando por poucos minutos e ao retornar suas dores triplicam.

Que desespero deve sentir por optar pela potencialidade de sua dor?

Que solidão profunda o faz sucumbir regularmente ao precipício?

Torturo-me em não saber como curá-lo, mas me conforto em acreditar que sua caminhada é aprendizado.

Mas como ampara-lo além de suas necessidades e carências básicas?

Como aceitar e ficar serena com suas escolhas e consequências?

Só o amor incondicional nos salva!

Eu te amo meu amado filho e sempre serás a razão de minha vida!


Revisão


 QUAIS FORAM MINHAS GRANDES DORES?

- A partida de meu filho com o advento da esquizofrenia 

- Perder minha filha nos seus 40 anos

- Perder meu filho para o crack e ele ficar prisioneiro 

- Ficar longe de meus filhos e ir pra Campinas, SP fazer mestrado

- Minha ausência durante infância e juventude dos filhos 

- As desavenças,  brigas e diferenças e o uso de drogas e álcool dos filhos

- Sofrimento e morte do meu irmão Fábio

- Morar com minha mãe e estar dependente dela

-  Estar grávida aos 16 anos.

- Inveja, menosprezo e rejeição de minha mãe 

- Rejeição de meu pai em relação aos meus filhos


QUAIS FORAM MINHAS GRANDES ALEGRIAS?

- Ganhar presentes de mamãe durante a infância 

- Presentear para meus filhos

- Conquistar estabilidade financeira 

- Passar no vestibular, fazer mestrado e ser aprovada em concursos

- Construir casas para meus filhos

- Aprovação do Rômulo, Lucas e Mayana no vestibular

- Ter meus filhos perto de mim

- Ter um pé de manacá e plantar muitas árvores

- A prática de yoga


AGRADECIMENTOS:

Amor de Martin e filhos

Amor de Roger e papai

Amor de amigos

Auxílio financeiro de minha mãe e meu pai

Àqueles que me ampararam

Àqueles que me ensinaram. 


PERDÕES (É FEITO PRA GENTE PEDIR)

- Aos meus filhos pela ausência 

- Ao Martin pelas dores que causei

- Ao Rubem por não conseguir ampara-lo

- A todos aqueles que agi com soberba, desprezo, indiferença, arrogância, preconceito e crueldade verbal e psicológica.

- Ao PAI pelos meus erros


MINHAS MÁGOAS 

- Intrigas e dores causadas no ambiente de trabalho

- Meu irmão Telmo pela violência e ciúme com Mayana

- Abandono dos filhos pelo pai deles



 Nasci e cresci ateia ou agnóstica.

Nunca percebi nos meus pais, durante a infância e juventude,  a existência de alguma devoção religiosa. 

Somente após o falecimento de meu irmão, minha mãe passou a fazer alusão à Deus, às vezes enaltecendo, outras praguejando.

Eu e meu irmão no início  da adolescência, e por influência de nossa ajudante doméstica, frequentamos a igreja Batista,  por um breve período. 

Acho que buscávamos uma comunidade,  um aprendizado sobre convivência social e uma fuga de casa. Não durou, foi difícil a adaptação, uso de linguagem desconhecida e pouco racional aos nossos ouvidos.

Estranhei durante minha caminhada a não incorporação de alguns sentimentos e a não prevalência de ações como a gratidão, a compaixão  e a caridade.

Isso me fez falta para amenizar o coração,  dividir e compartilhar com o outro,  amparar, reconhecer o amparo e a ausência do exercício da vida em grupo.

Concebia o mundo solitário,  rude, duro e exaustivo. A humanidade sempre me pareceu inimiga e nada acolhedora.

Concebia a ideia do coletivo, da egrégora, das iniciativas caridosas, do ser tolerante e humilde, estando todos sempre atrelados aos pressupostos teológicos. 

Construí e solidifiquei o entendimento da religião como o ópio do povo,  uma bengala. Reconheço ter tido uma curta e preconceituosa visão. 

Havia um incômodo social frequente,  afinal ser religioso ou ter uma religião é ser um sujeito temente a Deus ou à algum outro poder inquestionável; denotando nossa humildade e resignação perante nossos conflitos. 

Diante da dificuldade de me curvar, ser ateu era ser segregado, estar separado, preterido e subjulgado.

Uma boa parcela da humanidade do nosso convívio diário,  possui um laço comum que mantém seus membros iguais e unidos, que no caso é o papel agregador das relegiões. 

Sempre cultivei minha preciosa solidão, acreditava que na minha vida não havia espaço para a futilidade social e o insistente domínio ofensivo de meu silêncio e privacidade

Demorei anos até entender que posso ser uma agnóstica feliz e compartilhar com todos independente do credo.

Posso afirmar tranquila e sem temor que não preciso de um Deus idealizado para viver e me proteger, mas necessito e gosto de pessoas e relações saudáveis, onde eu possa praticar a caridade, a humildade,  a compaixão e o amor independente e amplo. Gosto de pensar num universo imparcial, acolhedor e equilibrado que nos fornece luz, energia, discernimento e sossego. Entretanto nas horas da profunda tristeza,  do desespero pela falta de controle frente às vicissitudes do destino, sucumbimos e recorremos à ele, o imponderável milagre das soluções e o amparo à nossa dor


Conselhos


 Como diria minha mãe: 

Vão todos à merda!

Coitados, daqueles que como eu, têm câncer! Devem ouvir diariamente:

Tem que ser forte!

Tudo vai passar!

É como diabetes,  basta medicar

Tem que se cuidar!

É emocional

É a raiva contida

Tem que ter merecimento 

Enfia pelo ânus oxigênio que cura!

Entorna muito chá disso e daquilo

Não pode açúcar, farinha, carboidrato e o diabo a quatro. 

Meter agulha, tirar sangue, botar sangue e ficar roxa, também cura!

Coma gengibre, açafrão e muito verde 

Faz isso, faz aquilo...

Chega!!! Me deixem e vão todos se lascar!


Notícias não gratas


 No sábado uma dúvida

Na segunda um aviso

Na quinta um alerta 

Enfim a confirmação

Seguida do susto, mudanças forçadas!

Pavor, o que saber?

Medo, como fazer?

Dor, o que irei perder?

Meu aniversário, meu presente, 7 de março

A longa jornada se decreta

As dúvidas transbordam

A fé se procura

Recorre-se a habilidade de esmiuçar as forças

E sigo em frente, preparando o “evento”

Que não revela seu momento 

Quando, onde, como...


Muito esforço empreendido

Muitas perdas sentidas

Mas vou deixa-los amparados

Para a vida seguir

Mais fortes e mais solitários 


Aqui eu parto

Feliz pra outro lugar 

Deixo tudo zerado

E meu amor nos seus olhos


segunda-feira, 8 de junho de 2020

Restituindo à vida


Eu era uma mocinha, estudava, praticava esportes, às vezes saía a noite, e sempre procurava estar longe de casa. Tinha muitos conhecidos, mas poucas amigas, sem contatos diários com primos que também eram poucos. 
O sentimento de deslocamento era constante. A rua não era extensão da casa, exercia papeis diferentes e com muito estranhamento, algo não se encaixava, não havia diálogo, consentimento e empatia entre os dois mundos. 
Todos nós, irmãos, sentíamos uma dicotomia, uma distância e uma diferença monumental entre esses mundos. Levávamos uma vida esquizofrênica, dividida, alucinada, instável e inquieta.
Onde queríamos estar? Talvez juntos, talvez distantes do caos familiar, mas não muito confortáveis nas ruas, nos grupos; percebíamos nitidamente as diferenças, e a leveza e a liberdade das ruas nos atraía. Mas também lá fora não havia amor, mas tinha horizonte. Como estabelecer relações tranquilas, fortes, verdadeiras sem o respaldo de um berço confiável e estável?
Diante desse cenário, me sentia perdida e desorientada, e com dificuldades de escolhas sensatas. 
Desde o momento que o mundo passou a se tornar maior, com mais pessoas e situações participando do meu processo de amadurecimento já me via tateando insegura, cautelosa e arisca, com muito receio do erro, da ira e da desaprovação. 
Desse modo fui indo, ganhando espaço e experimentando o monstro desconhecido. E foi a leitura distorcida do amor que me cativou e me arrastou para longe de cena. 
Pensei ser amor, mas era a dissimulação do poder e da posse. Enfim, sucumbi e apostei numa fuga estratégica pensando em abastecer minhas carências e confortar minhas dores.
Foi uma ação suicida, mas após seis longos anos sobrevivi, mesmo cansada e desiludida.
Como estar de volta à cena? Como ficou o mundo na minha ausência, o que perdi e preciso recuperar? 
Pensei em resgatar, começar de onde parti, mas estava em outro mundo, outro momento e eu era outra pessoa, ainda insegura, receosa mas com uma mala nas costas, cheia de dúvidas e demandas. Perdida.
Eu precisava ampliar minha rede de amigos, um trabalho, uma nova e diferente vida, pois nada sabia, ingressar meus filhos na escola, dando-lhes rotinas e amigos e me reconhecer como mulher adulta, separada, e me tornar independente do suporte financeiro de minha mãe. 
Assustada com tantas urgências fui regressando aos poucos, retomei minhas aulas de yoga, fiz um curso com o apoio de meu irmão e passei a ministrar aulas, ter alunos e conhecer pessoas. Mas meu ganho era mínimo e nada recebia de pensão alimentícia, então por acaso, não lembro como, encontrei uma antiga conhecida de colégio e ela me propôs um trabalho com crianças no seu jardim de infância. Meu primeiro emprego com carteira assinada que durou 5 anos, de 1984 à 1989. Em paralelo às aulas do jardim, pelas manhãs, também fazia e vendia lanches para as crianças do turno vespertino e duas vezes na semana ministrava aulas de yoga pela manhã, das 6 às 7. A correria era grande, mas deu pra manter meus dois filhos menores na mesma escola que eu trabalhava, enquanto os dois maiores já estavam sendo alfabetizados. Foi duro, foi suado e sacrifiquei momentos de atenção e cuidado com todos os filhos, foi o início de uma criação distante e acelerada, com a redução de minha presença e de contatos afetivos.
Durante os cinco anos que eu estava atrelada à escola, foram intensas as vivências sociais, afetivas e profissionais. Me reconheci uma mulher profissional, com muito gosto por descobertas, aprendizagem e apreensão de conhecimentos. Fui fisgada pelo prazer da produção intelectual, retomei as leituras diárias acrescentando temas técnicos pedagógicos que me davam suporte e ampliavam meu campo de atuação. 
Esse processo da descoberta de meus dons e prazeres profissionais, acendeu em mim um desconforto: como crescer sendo uma eterna e dependente professorinha de patrões capitalistas. Me deparei com limitações e restrições e resolvi voltar a estudar. Assim, além de trabalhar na escola nos dois turnos, matutino e vespertino, passo a estudar à noite até as 22 horas. E meus filhos foram obviamente sacrificados, porém só dessa maneira, conseguiria um trabalho e salário decente, uma realização financeira e profissional.
Apta a prestar vestibular, em 1988, com 28 anos, ingresso na universidade, mesmo não sendo a escolha do curso perfeita. Desde então, cursava a universidade pelas manhãs, trabalhava a tarde na escola, que no caso meu salário foi reduzido pela metade e a noite lia, estudava ou namorava. Nessa época já estava numa segunda relação estável após separação, mas ainda muito imatura e carente, projetava no outro minhas necessidades e me iludia em pensar que o outro preencheria minhas faltas. 
Em 1990 decido abandonar o emprego e com mais duas amigas abrimos um berçário. Inútil dizer que falhamos, nenhuma de nós com perfil capitalista e com dinheiro para a manutenção do investimento. Após abandonarmos o empreendimento eu passo a ser bolsista num órgão central que dava suporte à todas as bibliotecas da Universidade. Ganhava uma miséria e minha mãe nos sustentava, como desde sempre.
Meu desespero foi grande quando me formei e não havia nenhuma perspectiva de trabalho, apesar de continuar trabalhando na biblioteca, agora com contrato somente por um determinado tempo. E foi com essa oportunidade de viver na prática os conceitos teóricos, que consegui aprovação, em quinto lugar, no primeiro concurso público que fiz. Porém antes de saber do resultado do concurso, ingressei no mestrado em Campinas, SP com bolsa da CAPES. A essa altura meus filhos já estavam habituados a viver sem minha presença, e supondo que minha ida pra São Paulo seria um sacrifício a ser feito para conseguir uma maior garantia de trabalho. 
Meu relacionamento já vinha num processo de desgaste, não havia perspectivas de emprego e então parti e passei o ano de 1993 profundamente triste e desolada com a distância dos filhos e que me afetou drasticamente. 
Ainda em 1989, com o impulso e apoio do meu companheiro iniciei a construção de uma casa, ao lado da casa de minha mãe, no mesmo terreno. Recebi também ajuda de meus pais e de meu irmão querido e tal realização foi um marco nas nossas vidas, entramos na casa no Natal e ainda sem luz, mas a necessidade do distanciamento de minha mãe era tão grande que dormimos à luz de velas, todos juntos.
Em 1994 ingresso na Universidade como professora substituta e fico até 2001, sete anos. Mas nesse ínterim, em 1997 sou chamada para assumir o cargo de bibliotecária na universidade, fruto do primeiro concurso que fui aprovada. Me torno uma funcionária pública estadual. Mas antes disso, durante o período fiz vários concursos, onde mesmo sendo aprovada, não era chamada e eu buscava alucinadamente um trabalho com vínculo duradouro e que trouxesse estabilidade financeira para não faltar nada para meus filhos e me tornasse livre da escravidão com minha mãe. 
Nessa época, devido às constantes tensões, tinha dores espalhadas por todo corpo que me dificultavam o sono e meus movimentos diários, desenvolvi a fibromialgia, cujas dores não havia alívio. 
E foi também em 1994 que conheci meu companheiro e com ele até hoje permaneço. Um parceiro calmo, amoroso, tolerante, confiável que me trouxe a paz e me fez conhecer o amor. Jamais tinha tido contato com pessoas amorosas e puras, cujos gestos, palavras e atitudes eram a expressão da paz, da segurança e da confiança. Foi um alento, uma "graça" recebida para que eu tivesse forças pra viver o que me aguardava. Essa convivência me possibilitou, às duras penas, a viver melhor minhas relações e aprender a ver o outro. 
Inicialmente no trabalho eu reproduzia meus valores brutalizados de austeridade, de impaciência, agressividade e todas as demais opressões recebidas pelo núcleo familiar e da dureza e aridez da alma e do coração. Havia ainda muito à aprender!
Após 6 meses de trabalho sou promovida à coordenadoria e dois anos depois assumi o cargo maior na área, a Direção. Enfim, realizei uma carreira profissional significativa, conforme havia intuído lá naquela escolinha onde dei início a minha trajetória e atuei durante 23 anos como funcionária pública.
No trabalho não foram anos sempre harmoniosos, os desafios e dificuldades faziam parte do meu dia a dia, meu trabalho era árduo pois consistia principalmente em investir no reconhecimento do valor e da importância da instituição biblioteca no contexto universitário. Era um processo de convencimento por meio de ações relevantes e de amplitude, melhorias nas infraestruturas das unidades e investimentos na capacitação dos profissionais bibliotecários. Atrelado ao meu rigor e disciplina profissional havia ainda a família a ser cuidada e protegida. No âmbito familiar a situação era bem mais complexa, havia sequelas insuperáveis pela ausência do pai, a interferência da avó e referências nocivas dos tios. Com todas essas variáveis e mais a minha permanente ausência, houve um desalinho, e a perda do controle. Os filhos adolescentes foram ganhando o mundo sem acompanhamento, soltos e expostos às influências desconhecidas.
Em 2001, quando assumi a Direção, meu terceiro filho teve sua primeira crise e foi diagnosticado com esquizofrenia. O mais moço, largou a universidade e foi ser motoboy, com seu perfil agitado e impulsivo, arriscou sua vida por diversas vezes. A menina, na época em que eu estava em Campinas, havia adentrado no mundo da droga e do álcool. 
Em 2010 descobri que todos utilizavam drogas e álcool, e que eu havia falhado com eles e vencido profissionalmente. Diante das constatações e após um longo processo de culpa, fui aos poucos resgatando o que dava pra ser resgatado, recuperando o contato mais diário e presente com eles e restaurando as relações. Nem tudo se encaixou e muita coisa se perdeu e não havia o que fazer. 
Mas após reflexão e análise dos fatos, concluo que fiz o que considerei relevante, fiz o que conseguia fazer, e definitivamente não possuía o controle de tudo, e jamais conseguiria assumir os papéis que não me cabia, apesar de achar que estava suprindo. Precisei juntar os cacos e continuar fazendo o que precisava ser feito, dentro das minhas possibilidades e reconhecendo que também cabia à eles responderem pelas suas escolhas.
A partir de 2008, após a inauguração do prédio da Biblioteca Central, fui pouco a pouco iniciando um processo depressivo. Parte da equipe de trabalho era hostil e eu sentia a rejeição me cercando. Sensível, vulnerável e frágil emocionalmente devido às questões familiares, fui aos poucos me retraindo e entristecendo, mas meu orgulho, força e minha resistência me mantinham aparentemente firme e indestrutível, sendo que internamente estava desfalecendo, me desestruturando.
Depois de alguns episódios explícitos de rejeição e ódio fiquei profundamente infeliz e somado aos problemas insolúveis com os filhos, sucumbi e fui ao nocaute.
Um desgosto profundo foi minando meu ser mental, espiritual e físico e meu corpo passou a produzir células doentes, distorcidas e estranhas.
Por fim, me afasto à força daquele ambiente nefasto e torna-se urgente me cuidar. Em 2017 minha vida se transforma, perco minha filha, meu filho escravizado pelas drogas, o terceiro isolado e distante em função da esquizofrenia e a infelicidade do do mais novo me arrasam e me arrastam para a dor e ela se transmuta num câncer tinhoso e de difícil controle.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Pra Pro Quê ?


Passamos a vida nos apropriando de saberes, coisas, sentimentos, tudo para nos sentir compactos física, mental e emocionalmente.

E o espírito se alimenta de que? De dogmas e ilusões criadas pelo homem?
É necessário apropriar-se, faz diferença saber entre um loteamento e um condomínio? Entre o verde e o amarelo?
Qual a importância do pertencimento?
Criamos um mundo a nossa volta para que atenda nossos anseios e inquietações . 
Que significados imprimimos aos nossos desejos, pertences e relacionamentos de qualquer natureza?
É tudo tão sem sentido que necessitamos dar sentido a tudo que nos cerca.
Fazemos de nossas vidas um teatro e de diferentes expressões: máscaras, comédias, dramas, enfim sem isso não somos nada, apenas um ser que respira e troca seus fluidos com o universo. 
O que nos difere de uma árvore, uma estrela, uma formiga? 
Eles também tem um Deus para adorar? 
Lutam pela sobrevivência, vivem o agora, sem futuro ou passado?

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Como fazer diferente?


Hoje não tô legal! Sentimentos triplicados! Efeitos de uma quimioterapia!

Cansei de ser forte, controladora, certinha, exemplar, resolver tudo, cuidar da casa, educar criança, lavar, estender, recolher roupas, varrer, limpar, sacudir, comprar mantimentos, fazer camas, dobrar e guardar, vestir -se, pentear-se, escutar barulho intermitente da televisão, subir escadas, abrir janelas, colocar travesseiros ao sol, fazer almoço, chás, jantar, resolver papéis, pedreiro, pagar contas.....

Gosto de tomar banho, mas me controlo, não fico muito tempo, uma pena, deveria ficar mais.
Gosto de sair, mas não gosto de voltar. 
Gosto de abraços, mas recebo poucos, gosto de conversar mas não tenho com quem. Amo rir!
Gosto de café, mas tomo pouco, amo sorvete mas não posso. Gosto de caminhar, mas receio ir sozinha .

É de entristecer, volta e meia fico deprimida diante de tantas limitações que esse momento trás. Mas o que fazer... essas medicações afundam meu humor...

17 setembro 2019

domingo, 15 de setembro de 2019

Maioridade e solteirice


Era janeiro de 1983
Foi o ano de minha suposta libertação!
Mera ilusão, a vida é dura e infalível, só na morte sossegamos.
Poucas malas, sendo que a mais leve carreguei no colo.
Mãos carregadas de piás.
Jurava estar livre, do medo, da violência e da dependência.
Mas constatei estar presa ao medo da incerteza e do futuro.
Pensei estar partindo do inferno
Mas partia para uma batalha pior, solitária e escura
Quem decidia era eu, quem se estrepava éramos nós .
Havia vantagens, podia viver uma juventude desconhecida e assim conhecer a maioridade.
Mas a confusão era grande, ser mãe e mulher são sentimentos distintos
São posturas diferentes
São papéis deslocados
Me virei do avesso, me vesti e despi da culpa, me meti em infernos surreais e desconcertantes do meu querer.
Foi aprendizado, desnecessário, mas em outras circunstâncias, a paz seria meu lar.

Inquietude por segurança



Eu tenho um medo, traduzido em desespero que só agora começo a reconhecer e quem sabe esse processo me acalme a alma.
Passei a vida construindo casas, foram oito no total e estou iniciando a nona.
Que loucura é essa?
Nasci numa casa onde tinha que dividir tudo, minúscula e barulhenta. 
Na minha infância dividi o quarto com mais 4 irmãos homens e na adolescência fui pra sala, dormir num sofá cama, em meio a alucinante energia e dinâmica das longas noites de estudos, discursos ou discussões.  
Dessa situação desconfortável e desajustada fugi, na ilusão de poder ter minha própria cama. 
Mas passei a dividir com os filhos na barriga e com um marido insistente que não sossegava de parar de me assediar.
Com ele foram tantas casas, todos lares inseguros e inconstantes, não sabia o dia de amanhã, se haveria comida, abrigo, sono, nada era garantido.
Assim que consegui me ver livre da dependência de pessoas inconstantes e imprevisíveis, tratei de garantir um lar, um abrigo onde me acolher. Até aí já tinha quatro filhos, e nunca me adaptei ao barulho, às discussões e ao intenso movimento do ir e vir. 
Querendo estar sempre sossegada e no silêncio, tratei do sonho de construir um abrigo para cada filho, desse modo, estariam com suas vidas cada um no seu ritmo e eu estaria garantindo minha paz, meu silêncio, sabendo que estariam bem abrigados do frio e das intempéries. 

04/09/2019

Molecagem


Os meninos eram muitos, mas o espaço restrito
No pé de carambola, faziam a festa, deixando rastros amarelados pelo chão.
Já no pé de amora, o de mais difícil alcance, as roupas saiam manchadas de roxo, as unhas pretas e volta e meia, queimados das bichas cabeludas.
Na falta do que fazer, eram as obras de construção invadidas, para pular e brincar nas areias e se perderem nos labirintos.
No parquinho, mesmo com balanço, gangorra e carrossel, a escolha era explorar as árvores, viviam nas alturas!
De tanto brincar, cansados e extasiados, voltavam para casa com brilho no olhar.
Esses eram nós, os seis filhos de Maria

Uma pedra



Chegada a hora,
Eu não sei pra onde iria
Eu fiquei desnorteada e assustada
Eu queria o sossego, a paz, o nada fazer
Eu queria me cuidar, me olhar, me sentir , me conhecer
Eu queria um tempo pra mim, um tempo sem hora, sem prazo, sem justificativas, sem dever.
Fiquei sem chão, sem ter o que dizer
Apenas aceitar, resignadamente aceitar.
Pensei no outro, mais uma vez...
Amenizei e evitei a dor do outro
Achei ser capaz de sustentar o peso da responsabilidade
Pensei poder proteger, cuidar
Bobagem, acabei me mutilado, me anulando e me iludindo em pensar conseguir ajudar.
Não quero e não posso ajudar.
Quero a minha liberdade
Não quero estar cuidando de novo de pessoas, seja lá quantas forem, não consigo, não posso continuar me adoecendo lidando com pessoas doentes, perturbadas e desestruturadas.
Socorro, quero ir embora, quero ajuda pra cuidar do que me pesa, ou daquilo que não me pertence e não me atrai. 

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

O que é perdoar, amar e se libertar?


Perdão é filho do orgulho
Para perdoar foi preciso reter algo ruim e desconfortável dentro de si
Algo de fora que lhe tocou, mexeu, ameaçou sua segurança, defesas, autoestima e a sensação de vulnerabilidade ressurgiu
Algo que questionou seu controle e seu poder.
Orgulho

Perdoar sem limites
Perdoar cada ofensa, mesmo que frequente
Esquecer a si mesmo
Ser brando e humilde de coração
Ser indulgente, caridoso, generoso
Você é responsável pelos seus pensamentos
Que eles sejam despojados de rancor

Perdoe os inimigos, estará perdoando a si mesmo
Perdoe os amigos, para que também seja perdoado
Perdoe as ofensas, se tornará melhor
Evite ser duro, exigente e inflexível
Deixe cair no esquecimento qualquer ofensa
Colocando um véu sobre o passado
seja leve, sereno, suave e feliz!

O verdadeiro amor é incondicional
Não impõe condições
ama, confia, entrega e aceita
Criar expectativa em relação ao outro
É aprisionar-se e aprisiona-lo
Cada um tem sua liberdade
Cada um faz suas escolhas
cada um cria suas possibilidades
De amar e ser amado.

A LOUCURA



A loucura é um produto da relação entre o homem e o mundo que afasta, distancia o homem de si mesmo, aliena sua natureza.

O homem na loucura não perde a verdade, mas a "sua" verdade.

Não são mais as leis do mundo que lhe escapam, mas ele mesmo que escapa às leis de sua própria essência.

O processo da busca em cuidar-se se dissipa...

Leve e suave


Quando a entrega for sem medo
Quando o desprendimento sem apego
Onde nada significa, nem tão pouco justifica
Estarei livre, leve sem o dia, sem o tempo a definir algum trajeto
O que dará sentido à vida se as formas e os porquês dissolvidos?

28/02/2017

Quem sou eu?



Fui mãe ainda criança
De forma atropelada tentei viver a juventude
Adulta enfrentei as vicissitudes de decisões e escolhas infantis
Na maturidade colhi frutos do desequilíbrio desse descompasso temporal
Meu final, afinal, não foi de todo mal, pois a vida foi vivida e nela me fortaleci

30/07/2014

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Rastros saudosos





Aqueles que se vão nos deixam lembranças, ruins e boas. Na maioria boas, pois a saudade quando grita são as boas lembranças que estão emergindo.
Que lembranças minhas terão?
Suponho que se lembrarão da minha inquietude em relação ao caos, a bagunça e ao barulho; da insistência em buscar a estabilidade e controle, ou seja, de tudo aquilo que me apavora e me faz sentir insegurança e medo, daquilo que me assustou e desesperou no meu caminhar.
Irão lembrar do meu perfume! meu cheiro de jasmim, de madeira, do cravo e da canela, cheiros que me remetem à paz e ao sossego!
Será que lembrarão do meu silêncio? Da escuridão que eu gostava de ficar lendo, jogando, trabalhando? Mas talvez do sorriso largo e fácil não esquecerão, sorriso molar, como dizia meu dentista.
Daqueles que desfrutaram de minha comida, talvez também sintam saudade.
Sentir saudade é gostoso! Lembranças boas nos trás alegria!
Vou sentir saudade do mar, do som das ondas quebrando, das espumas brancas, da areia quente e rir das minhas tentativas de pegar jacaré. 
Das pessoas que estavam próximas de mim, daqueles que me amaram fazendo- me sentir viva e feliz, da minha casa cheirosa, aconchegante e acolhedora, da sua segurança e proteção que significava. Saudade do sol do inverno, da chuva de verão, das flores e das árvores que sempre me inspiraram, nutriram e me fizeram mais forte e serena: dos altos Garapuvus, coloridos manacás da serra, imensos e amplos flamboyants, floridos jacarandás e quaresmeiras. Espero encontrar por onde eu for, montanhas verdes, virgens e arborizadas! Como são belas, portentosas e inabaláveis! É de lá que eu vim e pra lá quero ir, sempre! Serra do Rio do Rastro, da Dona Francisca, da Graciosa, Floresta da Tijuca, Cambirela.
Será que tenho alguém pra perdoar antes de partir? Sim, de muitas pessoas e situações preciso me redimir! Muitas mágoas acumulei, muitas dores causei e tantas outras não curei!
Meu ciúme, inveja, orgulho, arrogância e vaidade, quanta blasfêmia ao grande universo harmonioso, amoroso e acolhedor! Meu sincero perdão à tudo e à todos!

É tão surpreendente essa vida, com que facilidade nos apegamos, contudo a matéria é tão vaga e finita! Hoje esbarro com mil pessoas no mercado, nas ruas, no restaurante e amanhã nunca mais posso encontra-las, que marcas e historias ficam? Nenhuma, pois não agregaram significados. Dificuldade de estar no mundo e perceber que tudo é tão etéreo, sublime e sutil!
Com quem ficarão minhas roupas, plantas, panelas, cobertas, toalhas, tudo aquilo que me cercou, representou e me encantou? Querer e ter são desejos fascinantes, mágicos, alienantes e hipnotizantes; perder e entregar são doídos, solitários e desesperadores. Não conhecemos outro modo de vida nessa terra de viventes, parece que tudo se baseia nisso.
Passo meus dias exercitando o desapego, tentando insignificar ou resignificar meus quereres. Temo pelo sofrimento do outro frente à minha partida, sinto o amor do outro pela minha companhia e lamento ter que abandona-los assim no meio do caminho, pois temos a eterna sensação que ainda não é hora, que falta muito a ser vivido, porque estamos sempre no futuro ou no passado, lembrando das coisas que já se foram.
Estou sem futuro, um grande desafio e oportunidade para viver o presente! 
Estou experimentando o verdadeiro sentimento de finitude e de que o que tenho hoje deixarei pra trás sem dor ou pesar, quero estar leve, sem peso pra carregar, quero estar serena, sem contas para acertar. A paz eu quero encontrar!!!