Muitas vezes, em família, invisível, era como eu queria estar na grande parte
do tempo, as brigas e discussões eram intermináveis, a intolerância reinava.
Muito frágil, inocente e alegre nada entendia, só me defendia. Muita gente numa
casa tão minúscula, muitas bocas e olhos suplicando amor, carinho, atenção e
comida.
Éramos seis, eu rodeada de homens e com
ausência de companhia feminina.
Eu adorava minha mãe, ela trazia balas e
presentes. Era brincalhona e leve, ficávamos reunidos à sua volta em cima da cama,
brincando, rindo e desfrutando de poucos momentos de paz e alegria. Momentos
esses recriminados por meu pai, onde perdíamos "um tempo precioso " e
mamãe nos distraía da disciplina imposta por ele.
Tinha muito medo de meu pai,
severo, carrancudo, preocupado, agitado, sério e tenso. Pra ele não era
permitido o ócio: o inimigo do povo, o prazer era pecado, momentos de lazer
inexistiam, tínhamos que estar sempre ocupados produzindo, aproveitando o tempo
com coisas úteis. Tratáva-nos como adultos.
Sua educação foi em um internato
presbiteriano, depois o exército. Cresceu com a ausência do pai, recebeu influência
socialista de um tio mais próximo, inclusive passou um ano, após o exército nos
países socialistas.
Sua mãe era rígida e seca, pouco falava, poupava sorrisos, filha
de índia, mantinha-se distante em um mundo diferente.
Essas referências na sua formação afetaram e muito, tanto negativa como positivamente nossa criação.
Ambos os nossos pais eram histéricos,
caóticos e densos, disputavam a tapas a última palavra, papai ficava muito
nervoso e tenso, suas palavras eram fortes e pontiagudas, já mamãe apelava para
o sarcasmo, destituindo o outro pela humilhação e desmerecimento. Assistíamos
assustados e aprendendo o jogo da vida, onde a violência verbal eram as
principais estratégias de defesa e ataque.
Foi uma infância seca, estéril e
amedrontada, papai reproduzida a mesma labuta e dificuldade de uma vida no
campo, onde recursos são escassos, e onde tudo se transforma em utilidade. No
campo tudo se aproveitava, latas de azeite viravam canecas, caixas em guarda
roupas, nada é desperdiçado, e papai, mesmo morando numa capital, onde o
acesso aos bens de consumo eram mais facilmente acessíveis, nos fazia viver e sentir a aridez e
dificuldades de uma vida restrita e paupérrima de facilidades e regalias.
Qual era sua lógica?, não sabemos, mas
suponho que seja para nos preparar para as vicissitudes da vida, nos tornar
fortes e resistentes, para possíveis tempos de guerra. Inútil tentativa, pois
nos tornamos amedrontados, frágeis e inseguros, pois sem afeto, amparo e
carinho, a confiança não se desenvolveu.
No entanto, como éramos um número
grande de filhos, um grupo de crianças saudáveis, fortes e sobretudo
inteligentes, conseguíamos achar lacunas para nossas diversões, desde que
sempre houvesse um de nós à postos vigiando sua possível chegada, quando então
saíamos em disparada para às atividades ditas "produtivas".
Assim,
mesmo sendo massacrados pela sua rigidez, conseguíamos nos divertir e aprontar
muitas coisas, das quais algumas inenarráveis. Entrávamos em construções, em
porões, subíamos em árvores, jogávamos bola, soltávamos pipa, montávamos o boi
de mamão com a vizinhança, arranjávamos muitas brigas com vizinhos e
frequentadores de um parquinho próximo. Os banhos de chuva nos verões eram os
mais esperados e desejados, refrescavam corpo e lavavam nossa alma, a alegria
era geral!
Nossa casa era pequena, apenas dois
quartos para 8 pessoas, sala cozinha e banheiro, habitava ainda a secretária,
no minúsculo quartinho dos fundos. Vivi nela quase toda minha vida, dos 5 anos
até idade adulta.
Meu pai nunca valorizou a aparência e o conforto, considerava
valores burgueses e dispensáveis. Era uma casa que tinha o necessário para
viver, sem adornos, sem enfeites e sem cor. As cores existentes vinham das
lombadas dos inúmeros livros nas muitas estantes espalhadas pela casa, cada
cômodo havia livros. Um homem espartano nos impôs limitações e rotinas
impensáveis como o uso de papel de pão, amassados e cortados em quadrados, por
meio de uma produção em série, filhos reunidos em volta da mesa, cada filho
tinha uma função no processo de amaciar o áspero papel, recortar e
posteriormente eram pendurados num prego na parede ao lado do vaso sanitário.
Esse era nosso papel higiênico! Quando cresci , perto dos 13 anos, tive direito
à um rolo industrializado, pois era a menina da prole.
A louça antes de ser
lavada, precisava ser limpa com jornal pra tirar a gordura, sendo que a areia
às vezes também era utilizada na remoção da "graxa", cachos de banana
eram pendurados pela cozinha à disposição das crianças, caso sentissem fome, as
vitaminas eram feitas sempre com aveia e banana para tornar nossos músculos
sadios. As capas dos cadernos eram trocadas e refeitas com papelão mais
reforçado para aguentar o manuseio. Os papelões eram encartes da indústria
farmacêutica, que meu tio representava.
Tudo isso nos tornava diferentes das
demais crianças, nos distanciava e percebíamos que éramos diferentes e os
únicos com hábitos estranhos. Ao chegar a adolescência, tais diferenças
evidenciaram-se e para nós foi um choque irreversível e com consequências
desafiadoras.
Aos finais de semana, para não deixar a
turma ociosa papai nos colocava a juntar pedras do quintal, atividade essa
oriunda de sua infância, talvez, mas inútil, apenas um tempo a ser preenchido,
nós odiávamos isso! Nossa estratégia para fugir desse castigo era ler. Se
estávamos lendo ele não importunava. Eu pegava alguns livros na biblioteca da
escola cada final de semana. Meu segundo irmão devorava os livros e tornou-se
incomunicável com o tempo, pois o exercício do diálogo, da tolerância com as
diferenças e o respeito pelo próximo passava ao largo de nossa casa.
Amor
existia, expresso no cuidado em não faltar comida, saúde e educação, mas a
expressão de afeto, amparo e carinho desconhecíamos. Mamãe tentava compensar
toda essa aridez, tornando nossos natais e aniversários mais alegres e
encantadores, mas pagávamos um bom preço por essas alegrias momentâneas,
principalmente ela, que ouvia todo um discurso patético e despropositado em
relação ao consumismo. Como ela sempre foi forte e corajosa enfrentava sem
muito sofrimento tais descompassos, assim, diante da indiferença dela, ele
passava a nos perseguir e descontar sua ira nos nossos pequenos deslizes.
Sim,
fomos felizes, afinal toda criança possui a capacidade inata de alegrar-se,
esquecer em troca de um brinquedo ou por qualquer proposta de brincadeiras. Seu
tempo é outro, as diferenças são longas entre os episódios de sua vida, o tempo
se estende, por ser vivido tão intensamente com entrega e desprendimento. As
sequelas só apareceram mais tarde, quando se faz a hora de ampliar as relações,
o compartilhar sem medos ou ressalvas, dos jogos e dinâmicas sociais, enfim na
vida adulta.
Lembranças de minha tenra idade, não
possuo, são poucos os momentos que lembro que se iniciam por volta dos 3 ou 4
anos, numa casa maior, na rua ao alto de uma colina, um aniversário, no carro
de meu avô que após mexer num botão fiquei com ele na mão. Muito assustada e
temerosa, passei o resto do aniversário escondida atrás da porta de meu quarto. Já apresentava rigor e medo. Ainda nessa mesma casa, lembro de meus irmãos esconderem os brinquedos embaixo
das camas, das sessões de injeções em volta do umbigo que precisei receber
devido à uma suposta mordida de um cachorro louco e cuja recompensa por minha
valentia foi a promessa de ganhar uma boneca do meu tamanho! Sim, com muita
alegria ganhei, e mais tarde percebi que essa foi uma excelente qualidade de
minha mãe e que todos nós gostávamos, ela nos presenteava, ela prometia e
cumpria, ela nos dava a alegria da realização de sonhos, a permissão pra
fantasiar. A capacidade de sonhar, batalhar e receber; posso afirmar que essa é
uma herança materna e que muito me ajudou ao longo do caminho.
Aos cinco anos, frequentava o jardim de
infância com meu irmão, um ano mais moço, me sentia sua protetora, mas foram lá
as minhas primeiras relações sociais, assustada e sozinha buscava referenciais
protetores, mas não encontrava, era triste e solitário e tinha ainda que
enfrentar inimigos que me beliscavam por baixo da mesa. Esse corte do vínculo
familiar foi bastante impactante, busquei forças até então desconhecidas,
desenvolvi defesas e experimentei meus primeiros desafios. Uma criança aos
cinco anos ainda é muito vulnerável e dependente, torna-se mais forte quando tem
irmãos, principalmente mais velhos, onde recebe mais cedo o aprendizado da
sobrevivência. Mas isso não lhe poupa da dor do mundo externo à família. Dos
cinco irmãos, todos tinham uma diferença de idade de 2 anos, apenas o após a
mim a diferença era apenas 1 ano. Tínhamos uma ligação forte, fomos
companheiros de descobertas, de fases e de aventuras. Aos nove anos, ele com
oito, contraímos juntos hepatite viral , e o resguardo foi compartilhado. Não
lembro o porquê ele não receber, ou se recebeu desconheço, as costumeiras
recompensas para nos comportar, eu no caso, para manter-me na cama sossegada,
fui seduzida com duas bonecas Suzis, as mais cobiçadas na época. Sei que
invariavelmente eu tinha que ser convencida de ficar quieta, pois muito ativa,
era necessário domar minhas constantes inquietações, sempre curiosa e
desbravadora. Adorava recompensas, presentes e surpresas, eu seguia o acordo de
maneira disciplinada e exemplar!
Minha mãe nessa época era minha
estrela, meu mito, minha proteção, meu tudo, amava sob quaisquer
circunstâncias, com ela me sentia segura e forte. Mas aos poucos, a medida que
fui ganhando o mundo, fui observando com outro olhar algumas de suas ações,
escolhas e sentimentos. Começou a causar estranhamento a ênfase que colocava na
sua personalidade e nas relações coletivas, lentamente percebi, na medida em
que me tornava mocinha, um afastamento, ressalvas até então inexistentes e
comparações absurdas entre mim e ela.
O contato com sua histeria ficou mais
presente e visível, e percebi a diferença do status que lhe creditava em
relação ao seu empenho em me conquistar ou mantê-la ao seu lado. Passei a me
sentir pequena, feia, incomodativa e trapaceira sem ao menos entender o porquê.
A doce proteção se esvaía entre meus dedos, fazendo me sentir ainda mais
solitária e desde então tal sentimento me acompanhou ao longo dos meus dias, eu
havia perdido a imagem imaculada de minha mãe, e passei a caminhar sozinha.
Minha alfabetização foi mágica,
apaixonei-me de imediato pela professora Emília, muito carinhosa e delicada,
elogiava com propriedade e estímulo, o que fazia com que me esforçasse e
acompanhasse com muito esmero todas as atividades propostas. Aprender a ler foi
ganhar o mundo, ampliar meu espaço e minhas possibilidades de conhecer e
crescer, desde sempre fui ávida por descobertas e conhecimentos novos. Eu me
sentia plena e segura, por isso considero a relação da primeira professora de
uma criança fundamental para seu desenvolvimento, um termômetro da futura
trajetória . Além da harmoniosa e produtiva relação com a professora, em casa,
minhas conquistas escolares eram também estimuladas pelo meu pai e eu começava
a me sentir uma criança grande à altura de meus irmãos mais velhos. Não era
propriamente uma competição, mas sim uma forma de se igualar, de se afirmar, de me apropriar do que é só meu!
As relações familiares com tios, avós,
primos eram escassas e eventuais. Apenas com uma tia materna e seus cinco
filhos conviviam com relativa frequência. Papai era considerado esquisito e
inacessível, todos temiam suas ideias e atitudes excêntricas, portanto as
visitas eram escassas e breves. Mas longe de sua vista todos relaxavam e se
permitiam ser quem realmente gostariam de ser, sem tensão e críticas. Eu passei
alguns finais de semana na casa da tia, era um refúgio, um paraíso, pois além
de ficar longe do policiamento e da tensão, era um mundo completamente
diferente. Uma casa normal, com hábitos, relações, refeições e dinâmicas
contrárias às nossas. Se fosse permitido eu ficaria por lá até a saudade bater,
se é que um dia sentiria a falta de tamanha rigidez e medo. Sim, muito medo eu
sentia, medo da crítica de mamãe, do seu ciúme, sua vigília sobre mim, sua
repulsa ao saber ser amada por papai, seu olhar desesperado e reprovador, medo
das exigências do papai, do estar sempre alerta, de rir, de fazer escolhas
erradas, opinar, reivindicar. Não tínhamos vozes, sentíamos reprimidos e
oprimidos.
As viagens para Alegrete também foram
bastante representativas, deixando lembranças e marcas de uma infância alegre e
divertida. Apesar de minha avó paterna ser tão sisuda e fechada quanto meu pai,
conseguíamos driblar seu humor e sorrateiramente aprontar episódios temidos e
reprovados por ela, mas divertidos para nós. Destruíamos o pomar, avançando
vertiginosamente nos morangos, pêssegos, ameixas, ainda não completamente
maduros, na ânsia de quem pega primeiro quebrávamos os galhos e o parreiral.
Vovó não conseguia nos conter, e tudo que inventávamos fazer resultava num
desastre pra ela. Seu sono não era o mesmo durante os 2 meses que vivíamos as
férias escolares no campo, sua sagrada sesta sempre interrompida abruptamente
com alguma arte dos netos. Não sei se tinha alegria em nos receber, percebia
sua zanga e desespero em ninguém conseguir nos conter. Havia um revezamento
entre papai e mamãe, conforme suas férias, e havia ainda a empregada, que
auxiliava na lida doméstica. Com papai na área, ficávamos mais contidos, mas
quando ele ou eles, os adultos se ausentavam, a fazenda virava um turbilhão
incontrolável. Vovó e mamãe não se bicavam, o contraste era grande, a primeira
uma mulher do campo, sem vaidade aparente, arrimo de família, responsável desde
muito cedo por questões importantes, enquanto a outra, vaidosa ao extremo, de
uma carência desmedida, o que lhe tornava uma mulher exponencialmente ciumenta,
possessiva e controladora. A tolerância, amorosidade, respeito e paciência não
eram atributos compartilhados entre elas. Mamãe não respeitava sua idade, seu
espaço e seu sentimento em relação ao filho, sua carência sempre em evidência
não permitia a vivência, num curto espaço de tempo, de uma relação maternal
entre eles. Vovó parecia que recriminava a escolha de papai por ser uma mulher
estranha e agressiva, bonita e irascível. Para papai sempre achei que minha mãe
representava seu troféu de beleza e vaidade. Longe de seus ideais socialistas,
ela representava a beleza que não lhe pertencia, compensava a estranheza que
lhe era companheira e por fim a vaidade que tanto desejava ter e era desejável
por muitos. Muitos questionamentos me surgiam diante de tal postura, afinal um
homem tão reto, espartano e crítico, por que cultivar e alimentar-se de tal
vaidade e permitindo tamanho exibicionismo? Nesses termos, só em Freud eu
encontraria alguma luz, alguma resposta, sem lógica. Nos dias de hoje ainda
continuo sem compreender essa sua permissão ao supérfluo, à exaltação da
beleza, da aparência, ao fugaz, efêmero e sem valia. Minha impressão em relação
aos valores de meu pai talvez seja exclusiva e cabem apenas na nossa relação. Valores
serão sempre determinados por determinadas relações, pela interação e
movimento, e nessa relação pai e filha, nesse intercâmbio com ele e diferente
dele, foi que atribuí valores a nossa relação e à minha vida. Expandi-las, além
nós, talvez sejam inválidas e estéreis, sem sentido. O fato é que vovó e mamãe
não tinham uma boa relação, e mamãe se escondia em nós e nos defendia das
críticas e reprovações que nos eram apropriadas.
Para nós as férias eram
momentos plenos de afeto e aventuras, onde nossas fantasias se expandiam. Na
fazenda sentíamos livres, mas na cidade, onde vovó mantinha uma casa grande pra
abrigar a família, ficávamos mais confinados, pois no máximo conhecíamos os
vizinhos ao lado, de idade aproximada e onde estabelecemos relações, aprovadas
por mamãe. Tinha um quintal imenso, uma garagem onde fazíamos um palco com
teatro e músicas, o calor era desértico e insuportável, mamãe costumava dizer
que dava pra fritar ovos no asfalto. Eventualmente o Rio Caverá nos refrescava, mas eu não
frequentava, poucas foram minhas idas, apenas os guris eram assíduos, com
protestos de mamãe, pois como sempre exagerada e pensando o pior, mamãe não
aprovava.
Mas ao baile eu fui com ela e nos meus 13 anos! A fila para dançar
com a menina nova na cidade foi quilométrica, mas não dancei com ninguém, não
sabia dançar, era tímida e desconhecia aquela gente toda. Fui bastante xingada
por não aceitar as danças, por ter sido esnobe rejeitando os galanteios, afinal
o desafio passou a ser quem conseguiria me convencer, mas preferi ficar na
minha zona de conforto à enfrentar ilustres desconhecidos. Desse baile restou
um rapaz mais insistente, que conhecendo o nosso vizinho, passou a frequentar a
área, oportunizando conhecê-lo melhor, e que por fim acabei sendo disputada
pelos dois, incluindo o vizinho. Por fim não passou de um amor de verão
platônico! Mas foi um dos meus primeiros passos em direção à minha mocidade,
uma juventude que me aguardava com muitas surpresas.
De Alegrete ainda me lembro de uma
briga entre vovó e mamãe, saímos as pressas para cidade, com o carro carregado
de ovos, leite, carnes e crianças, seis, minha mãe na direção e nossa ajudante
no banco do carona com meu irmão mais moço, então com 4 anos, no colo. Todas as
demais crianças atrás, quatro no banco e uma na cachorreira com as mercadorias
e bagagens. Chovia leve e constante, mamãe nervosa e nós a cantar alegremente.
No meio do caminho escutamos um estouro, minha mãe gritou, o pneu da frente
estourou, o carro derrapou, caindo de um barranco, a ajudante jogou a criança
do alto, eu apertada entre irmãos desmaiei, nenhum ovo quebrou e nenhum litro
de leite derramou, apenas minha clavícula rachou. Lembro- me somente de estar
saindo do carro, segurando o braço e entrando num ônibus rumo ao hospital.
Ninguém havia se machucado, uma clavícula rachada. Mamãe ficou desesperada,
achando que algo havia ocorrido de grave ao meu irmão caçula ao ser atirado
pela porta do alto da ribanceira. Mas nada de mais grave ocorreu. Passamos o
resto de nossas férias somente na cidade, não íamos mais para o campo, fruto da
discórdia entre as duas mulheres de meu pai. Mesmo estando na cidade e com a
clavícula quebrada eu continuava arteira, subindo os muros, brincando de
pega-pega, de esconder, azucrinando minha mãe. No campo minhas peripécias eram
semelhantes, subia em árvores pra mexer em ninhos de passarinhos, encontrava
cobras pelo campo e as matava, galopava o cavalo zânio sem receio, visitava o
milharal para fazer cabanas, e íamos às sangas nos refrescar, mas receava as
águas escuras. Os banhos eram gelados no chuveiro da rua ou na banheira dentro
de casa. Não tinha luz, e os lampiões eram acessos assim que escurecia. A
geladeira era movida a gás e com a pouca luz gerada pelos moinhos de vento. Nossas noites ficavam encantadas com histórias, muitas estórias contadas por
vovó, por nossas cuidadoras, sobre Pedro Malazarte, dos enigmas do campo, dos
parentes desconhecidos, mas existentes. Por vezes nossas noites ou manhãs eram
assombrosas pelos fortes ventos do minuano ou por gritos de galinhas, causado
pelas raposas. Dormíamos tarde, apesar na falta de luz, aproveitávamos o sono
dos justos pra assaltar as bolachas das latas, as compotas de abóbora na
geladeira e jogar cartas até cansar. Papai nos forçava a dormir cedo, mas
esperávamos o silêncio se fazer para voltar às nossas atividades noturnas,
afinal a distância entre nossos quartos era bem grande!
Uma casa com crianças é uma casa com
rotinas, hora de comer, dormir, estudar, apesar de acharmos que só nos era
permitido estudar, tamanha pressão existente. Estudar era nossa principal razão
de existir, para papai deveríamos estudar 24 horas por dia, o que achávamos sem
propósito, um massacre descomunal, mas obedecíamos, sempre que estávamos em sua
presença, estávamos em volta da mesa grande da sala com os livros abertos.
Nessas horas, que eram muitas, o que fazíamos ou pensávamos apenas nos
pertencia!!
A comida era outro item importante e
fundamental na nossa criação, dentre as rotinas estabelecidas, fazíamos, um
revezamento, para enfrentar a via sacra das feiras populares, das 07 às 11horas
da manhã, onde comprávamos a xepa do final do dia, produtos mais batidos,
amassados e murchos eram mais em conta. Os cardápios eram cuidadosamente
selecionados conforme valor nutricional, e havia escândalos quando as frituras
apareciam, o preparo antecipado no sábado do almoço dominical e seu repetitivo
cardápio, cuja divisão era religiosamente as mesmas todos os domingos e minhas
manifestações contrárias eram recebidas com indiferença e sarcasmos. E por fim as
esperadas guloseimas das sextas à noite, o sagu, as rapaduras quando era
permitido assistir televisão.
O irmão mais velho, quem sabe por ter
que dividir desde sempre, tudo entre todos, era o mais esganado e comilão,
chamávamos de Maria Godera, sempre pronto pro lanchinho! Mas todos cresceram
muito ávidos por comida, esganados, e consequentemente muito sadios e fortes.
Nossa sala de estar era nosso QG, nela
estudávamos, aos sábados papai recortava os jornais da semana, e era meu quarto
de dormir , um sofá cama xadrez. Não tinha adornos, apenas livros, uma vitrola
que durante a semana escutava-se os noticiários matutinos e noturnos, discos de
musicas MPB nos finais de semana, um quadro de Renoir, a leitora, uma grande
mesa com 6 cadeiras e um sofá de couro marrom usado.
Nossos vizinhos eram nossos amigos de
brincadeiras, morávamos num beco sem saída, com três residências, na região
central da capital, mamãe chamava de "Beco das Amélias" porque as
esposas eram sofridas e guerreiras. Dessas, duas sofriam violência física dos
maridos, um absurdo impensável para nossos valores. Nossos pais também se
violentavam, mas verbalmente. A violência física era reservada para nós, os
filhos.
Nossa casa era a menor e mais humilde,
a última delas; havia árvores na frente e ao lado de casa, carambolas e amoras.
Creio que éramos os mais felizes, pois tudo era falado e escancarado, os
problemas tentavam ser resolvidos as claras e aos berros, tal autenticidade e
transparência nos fortalecia de algum modo. Foram essas primeiras e
significativas impressões que me deram sustentação pra viver o que vivi, que me
prepararam pra estabelecer minhas conquistas e meus
limites Crescemos amedrontados, mas orgulhosos do que nos
tornamos, aprendemos a amar aquilo que nos acostumamos, a amar quem
nos amou e mesmo com as dificuldades inerentes à qualquer sujeito que nasce,
cresce e morre, posso afirmar que me orgulho de meus pais e minha família e
agradeço sincera e profundamente todos as oportunidades e ensinamentos que
recebi com grande amor de meu pai e minha mãe e que a finitude de
nossas vidas não promova o esquecimento de nossa grande história. Na minha
infância papai era rei e mamãe rainha num reino de fadas e monstros, de
alegrias e tristezas de amor e fantasia.
E acima de tudo,
lembro de meu grande amor por papai, eu o amava e muito! Seu cheiro,
seu hálito de chimarrão! Seu bigode bem aparado por cima daqueles grossos
lábios de que quando discursava flamejavam e o dentes perfeitos brilhavam. Que
sorriso gostoso ele tinha, com cheiro de laranjeira e amoleciam meus olhos. Seu
corpo, seus cheiros me envolviam num clima de aconchego e amparo, eu sentia que
ele me amava, eu era a menininha dele que crescia, mas sempre sua menininha. O
som de sua voz era estrondosa e ecoava em meu peito como uma ode de amor, quer
seja para discursar ou quando nos relatava fatos históricos! A noite, antes de
dormir, me contava histórias de Guimarães Rosa, de Borges, pouco compreendia,
mas adorava ser embalada, pela sua voz em diferentes vibrações, e com imensa capacidade
de nos embrenhar por terras estranhas com personagens tão importantes que
faziam daqueles momentos somente nossos.
Não
lembro como, mas aprendi com ele o manejo da terra, o segredo da fertilização,
me tornei uma menina do dedo verde e sou orgulhosa e feliz por isso, por ter
herdado seu dom e seu gosto pelo pó, barro, pedra e terra.
14/11/2018