sexta-feira, 12 de julho de 2019

Longa jornada: recidivas



Em 20/07/2018, aguardo ansiosa, com medo, inerte e curiosa. Será recidiva? Segundo a literatura tenho 70% chance de ter. 
E então, dancei, já era, ou faço a longa via sacra de tratamentos sofridos intermináveis durante 3, 5 até no máximo 10 anos ou desisto e vivo intensamente, sem dor e sem desconfortos o tempo que me for permitido. 
O medo é da quimioterapia, não da morte. Receio o hospital, as agulhas, os enjoos, as dores, a morbidade, a enganação, a ignorância de não saber o melhor caminho, a melhor escolha.
A cara de pastel de meu médico me deixa em dúvida, ou ele é pastel mesmo ou se faz pra não me dar o feedback real, será que está me poupando? Será que garante que é uma questão de tempo? 
Se assim for, considero extremamente injusto! Quero saber pra fazer escolhas significativas. As vezes fico intrigada como meu organismo sobrevive após tamanha intervenção, estou despedaçada, muitas histórias foram extirpadas, as relacionadas ao baço, ao fígado, estômago, diafragma, bexiga, intestino grosso, reto, peritônio, vesícula, apêndice e linfonodos pélvicos e abdominais.
Metaforicamente pensando foi salutar a retirada de alguns pedaços, afinal no baço tirei muita da tristeza e descontentamento que sentia, da bexiga me despedi dos episódios afetivos desagradáveis, do diafragma diminuiu meu medo, a ansiedade e a pressa; a extirpação da vesícula permitiu que eu expressasse mais livremente minhas mágoas, da retirada do apêndice me tornei menos sentimental e do fígado permitiu desencadear mudanças, possibilidade de um equilíbrio emocional mais estável. Com o intestino pude eliminar algumas coisas do passado. Assim suponho...
Dia 24/07 recebi o resultado da tomografia. Foi ruim, assustador, triste. É como suspeitava, estava emagrecendo, sentia dores laterais e um desconforto após as refeições. Foi no final de maio que comecei a desconfiar, questionei meu médico, mas o banzo nada disse, pra variar.
Depois de tudo confirmado, em 16/09/2018, com outro médico, passei por um ciclo de quimioterapia, restando mais um e depois cirurgia, em novembro.
Ando desconfiada e duvidosa, apesar dos exercícios da fé e da captação de energias positivas tenho minhas desconfianças, afinal meus sintomas não cessam, todos os dias continuo com gases, dores e desconfortos. 
Não sei a data, mas suponho que é essa doença que me levará, talvez no máximo 7 anos. Mas o que me deixa mais inquieta é não ter certeza, meu péssimo vício de querer controlar, ter domínio sobre minha vida, que afinal nem me pertence mais.
O que me resta mesmo é o cultivo de minha paz interior, é o viver amorosamente com e no mundo, é esquecer que existe o amanhã e seja qual for a data, estarei pronta pra estar serena, tranquila e agradecida. A beleza do mundo não é física, e sim vibracional. Peço, busco e gostaria de estar zen 100% de meu tempo. Um desafio enorme, afinal a interação com o mundo e pessoas é imensamente desafiadora e assustadora.
Meu parceiro sofre, assustado e temeroso. Seu amor e cuidado é tão reconfortante, sinto-me firme e plena, muita gratidão, muito aprendizado por ser assim amada.
No dia 24/09 as 11:45 iniciei o segundo ciclo do protocolo. Estava indo tudo bem, mas quando colocaram a última medicação, a carboplatina, me deu alergia, meu corpo rejeitou tanto veneno! que susto!
Já estarei platina resistente? Se sim, então ficará mais difícil controlar as coisas!
Mas quero crer que já estou curada e meu anjo da guarda não permitiu o envenenamento do meu corpo e interrompeu a aplicação.
Esperei, e tal espera parecia um atravessar de uma galáxia, mas finalmente fiz a cirurgia dia 23/11, numa sexta feira, às 17 horas, em Curitiba. Correu tudo bem, como sempre meu organismo é forte e recupera-se bem e rápido. Meu preparo pra cirurgia, foi fazer hidroginástica, pilates, caminhei e alterei minha alimentação. Talvez isso tenha ajudado. Detalhes da cirurgia, o que tirei, quanto, onde nada soube e nada me inquietou, aguardei o resultado das biópsias que me indicaria o que foi tirado e o que ainda tinha contaminação. Assim que recebi o resultado, soube que foram 17 peças retiradas, destas cinco ainda tinha doença. As contaminadas estavam na pelve e fígado e diafragma. Após 34 dias de cirurgia fiz os exames de sangue, entre eles o CA 125 cujo resultado foi péssimo: 45, mais alto do que devia! E comecei a sentir dores diferentes das do pós operatório, do lado esquerdo próximo ao rim, cólicas, dor ao redor do umbigo e em 01 Janeiro, pressão no ânus com constantes idas ao banheiro. Será o bicho, mesmo após cirurgia? Novos exames dia 17/01/2019 CA 125: 77. É o bicho!? A médica acha que não. Inicio novamente às quimioterapias dia 23/01.
Domingo, 27/01/2019: Fiz quimioterapia na quarta! Horrível, vontade de desistir! Pra que tanto enjoo e tanto esforço por suportar ? Pra que passar por isso? Chega, cansei! derrubada no sofá sem força, sem vida, sem brilho, sem nada, só o estômago rodando e esses cheiros nauseando. 1 omeprazol, 1 cipro, 2 dexas, 1 fenergan, 2 plasil, + 2 dexas antes dormir + 1 rivrotril= 10 bagas por dia!!!! Puta que pariu, esperar até o corpo aguentar! Prolongar vida ou sofrimento? Saco esses remédios! Quarta reinicia tudo de novo ufffaa! Não reiniciou, minhas plaquetas baixaram ao extremo. Só dia 20/02, meu CA 125: 55, ainda não tá bom! Que desespero!
Leio coisas do Lair Ribeiro e me assustam, diz que apenas 2.5% de quem faz quimioterapia sobrevive! Merda!
Cada caso é um caso! Vi o filme o poder da cura: Fé e meditação. Alimentação, reike, e tudo mais da medicina holística. Afff Maria, será? Onde está minha fé? Difícil crer!
Pronto agora baixou o CA 125 pra 15, estou mais aliviada! Passei mal nessa penúltima químio, vômito e fraqueza. Mas tomei um soro e passou, tudo passa!

Dia 21/03/2019 terminei meus ciclos de quimioterapia. Após 4 dias surgiram os efeitos, fiquei fraca e debilitada, sem forças pra andar, muito enjoos e vômito. Precisei novamente de soro e glicose. Levo vários dias até me recuperar. Penso que vou morrer, a respiração é um fiozinho tênue. Até agora já foram 20 sessões, vamos aguardar 2 meses e fazer os exames novamente. Vou viajar pra Londres, ficar com meu irmão, passear, me distrair. Estou desconfiada, amedrontada, quero não pensar!
Em Londres não senti nada, estava ótima!

Mas na semana seguinte à minha volta, início de junho já comecei a sentir minha barriga estranha, cólicas que parecem menstruais, dor lateral na altura do rim esquerdo. A barriga inchada após as refeições e as fezes diferentes mais pastosas e frequentes. De novo! Em 26/06/2019 exames indicam segunda recidiva, muito pouco tempo em remissão! Nem 3 meses! Isso tá muito acelerado, o bicho é feroz e esganado. Lá vou eu pra mais uma batalha, resignada e pacientemente. Sou resistente à platina! Tô fodida, pois medicações existentes e eficazes só a base de platina. Vamos ver até onde aguento. No entanto estou calma, sem ansiedade, deixando o barco correr e aguardando novos exames. Pressa pra que? Há hora pra tudo, controle de nada! Não vou respirar a doença, vou ficar na vida, nas pessoas ao meu lado, no sol aquecendo o inverno, no miar da gatinha, na fala incessante cheia de vida da neta, no tocar e no olhar doce do meu amado...vou estabelecer uma relação incondicional com a vida que pulsa agora dentro de mim! E escutar e esperar o que o universo definiu.

Bora para o terceiro protocolo, doxorrubicina mais o Avastim, iniciei dia 19 de agosto de 2019, serão oito sessões da medicação doxorrubicina de 28 em 28 dias e o Avastim tomarei por um longo período de 21 em 21 dias. Primeira sessão tranquila, poucos enjoos , fadiga e desequilíbrio corporal. Mas bem tolerável. Dia 23 coloco cateter.  Segunda sessão de Avastim dia 09/09, super tranquila! Dia 19/09 segunda da doxo, mais complicadinha, cansada, infecção urinária,  mais fraca. 
Em setembro de 2020 ainda sobrevivo, tirei ferias no natal e ano novo, em janeiro volto às quimios, firme e forte! Em fevereiro acabaram as sessões da doxo, recebo somente a manutenção. Já não fico mais frágil e debilitada. Tenho sequelas nas mãos, pés, pele, fôlego entre outras. Fiquei três meses só com o Avastim e volto a sentir sintomas da presença de células ruins, mesmos sintomas do princípio. 
Lá vamos nós pra terceira recidiva....08 de outubro de 2020, tomografia apresenta presença de 2 micronodulos no pulmão,  crescimento da doença  nos linfonodos, nódulo no fígado , nódulo no retosigmoide. Novas estratégias,  medicamentos e aguardar resposta positiva sem muito sofrimento físico. 

O andarilho


Ele caminha, sem destino, sem compromisso, como cuspido num chão de chuva, carregando consigo detritos indesejáveis, mas salutares para sua defesa e preservação. 
Sua sobrevivência está atrelada ao acaso, ao vazio e ao descaso. 
Um homem tonto, como cabra cega, ranhento feito um bezerro no frio, estúpido e violento dos açoites recebidos. 
Pobre homem rejeitado, mal disposto e maltrapilho, seu orgulho é seu algoz e sua prepotência seu pesar. 
Quem nesse mundo quer caminhar contigo, se da vida só pensas em vantagens, esfolando àquele que te transversa? 
O que nesse mundo fazes, além de sofrer da solidão e da ganância, onde te encontras cidadão, que nada te dobra , nem sabão? 
Fale-me de tuas alegrias e amores, daqueles que nos bastam no sono plácido, diga-me sobre tuas conquistas, que juntas somam um par de botas maltrapilhas. 
Ah, meu irmão errante e distante, que fizeste tu com nossos encantos, que fazes tu nos teus silêncios?

27/11/2018

Heranças de dores, calores e mágoas



Meus valores refletem uma parcela das heranças recebidas dos meus pais. São muitas, mas há dentre elas algumas que identifico desfavoráveis, destruidoras e limitantes.
Das heranças de meu pai percebo a dificuldades de conviver com as diferenças, considerar pecado o ócio, a lei do menor esforço, ser perdulário, o egocentrismo, a preguiça, a improdutividade, o consumo excessivo e desnecessário.
O que mais me afetou ao longo da vida, foi não me permitir o prazer de desfrutar de minhas conquistas, reconhecendo meus méritos. 
Mas além dessas aprendi a não ser uma boa ouvinte, fazer excesso de críticas e julgamentos, adotar um discurso que enfatiza minhas ideias e posicionamentos sem permitir argumentos diferentes.
E como não bastasse, também absorvi e carreguei comigo, sem me dar conta, as manias maternas, como rejeitar o diferente de si, corrigir falas e falhas alheias, receio de compartilhar socialmente e fazer excessivamente julgamentos e ser exclusivista.
Como consequências acumulei mágoas desnecessárias, optei sempre pela solidão, isolamento e afastamento, dada a dificuldade de convivência. 
Me vi com medo das emoções e da dor e com facilidade de se decepcionar.
Por vezes nutri raivas infundadas e passageiras. Fiz pouco contato físico, fugindo do toque e do abraço, pois guardava ou escondia as emoções, sem apegar-me afetivamente às pessoas. 
Me sabotei sistematicamente não permitindo sentir alegrias internas e de compartilhamento.
Suponho que hoje guardo mágoas bobas, pequenas, insignificantes e que não inviabilizam meu dias de alegria e satisfação. 

19/02/2019 - início do segundo protocolo
Gencitibina e carboplatina

Longa convivência



Somos diferentes!

Vc e passivo - eu sou ativa
Vc é indiferente - sou posicionada
Vc é calmo - sou nervosa, agitada, determinada
Vc é amoroso - sou objetiva
Vc é emocional - sou mental, racional
Vc é apegado - sou livre
Vc é tradicional e escravo das convenções - sou anárquica 
Vc é família e eu quero o mundo!
Não sou plena contigo, mas não existe a perfeição não é mesmo!? Até quando vou ficar frustrada esperando uma atitude de entrega na relação e na desvinculação dos filhos, agora já adultos e crescidos, traçando suas vidas conforme suas reais necessidades e natureza? Minha frustração surge quando espero, quando crio expectativas, quando não me liberto e não entendo que cada um dá somente aquilo que tem pra dar e acho que não será numa única pessoa que encontrarei tudo do que necessito. Preciso te respeitar e aceitar assim, um homem bom e que prioriza a família, pois é nela que desenvolves o afeto e te realizas.
Agradecida sou e muito pela convivência, aprendizado e amor recebido!!! Muito aprendi, muito fui amparada; não quero parecer ingrata, mas nessas horas vejo o quanto você ainda é dependente e passivo diante de suas relações familiares e em função disto fico frustrada, solitária e decepcionada! Passo a perceber que tais valores nos afastam. E teus valores me afetam e me impedem que eu te respeite e honre como um homem forte e corajoso, decidido e destemido, um homem que luta por mim diante de um mundo adverso e cruel e ao mesmo tempo um mundo instigante e possibilitador da evolução e da liberdade! 
Para caminhar junto de alguém esse alguém precisa que me toque a alma! Entender , compreender e aceitar as diferenças é meu esforço para com o mundo, mas com meu parceiro de estrada preciso bem mais do que compreensão e aceitação, preciso de alegria, significado, fantasia, determinação e companhia para viver onde haja empatia.
Mas afinal do que reclamo? Você na minha jornada apareceu no momento que eu precisava ter um ninho, uma família e de amor, recebi um amor doce e tranquilo, suave e incondicional. 
É na família que vc se nutre! É na família que você se supera! É a família o seu significado existencial !
Porém, diferentemente de você eu não desejo somente família! Apredi contigo a expressão do afeto, a importância do amparo, da força do amor maternal. Mas quero ir mais além, preciso aprender também outras coisas para crescer, preciso me nutrir de outros aspectos que compõe a vida de um ser, preciso de fantasias, de aventuras, de história, de alegria solta, espontânea e criativa. Preciso muito ser lúdica, preciso muito do silêncio e meditação, de tantas coisas que não consigo mencionar e dimensionar. 
E sei que não é vc que conseguirá saciar todas minhas necessidades e desejos, ninguém poderá, pois aprendi que em cada homem e parceiro que encontrei pelo caminho e com quem compartilhei necessidades, carências, surpresas, conhecimento e alegrias, tiveram um papel específico, conforme momentos e necessidades específicas. 
Se não fossem nossas carências e a eterna necessidade de se apegar e encontrar algo que possamos possuir e dizer ser nosso, poderíamos passar ao longo da vida compartilhando com várias pessoas e companheiros que nos inspiram em diferentes instâncias. 
Gostaríamos de encontrar alguém perfeito e que nele exista tudo do que precisamos e gostamos? Nossa eterna condição humana material nos faz pensar que um único homem nos fará feliz! Infelizmente se assim fosse encontraríamos uma perfeição monótona e rotineira...
Bom lembrar que a empatia é a memória afetiva positiva que tentamos reviver das experiências boas que tivemos desde a tenra idade. Minhas lembranças positivas e que busco reviver são muitas, sendo a maioria ainda desconhecidas, pois só agora, ainda engatinhando, estou aprendendo a me escutar e fazer minhas vontades.
Gosto de ouvir estorias e conhecer a historia, viajo num cinema e na leitura, gosto de passear e caminhar pra tomar sorvete, rir é um bom remédio e cantar um descanso pra alma. Gosto da leveza das brincadeiras inocentes e divertidas. Adoro conversas jogadas ao vento na companhia do chimarrão ou café na beira de uma rua florida e muitos transeuntes. Gosto de surpresas! De presentes miúdos e diários. 
Contigo gosto de ficar em casa num dia de chuva, assistido filmes. Gosto da sua calma e da sua assertividade nas relações conflituosas. Gosto de ir a praia, mergulhar e contemplar o mar. Gosto da sua despedida matutina antes de partir. Gosto da tua fidelidade e do inabalável comprometimento com a nossa relação. Gosto do teu amor, atenção e cuidado. Gosto do seu bom gosto. Da sua generosidade, gentileza e educação. 

13/05/2019 Londres

Mudanças no galinheiro mudam a vida por inteiro!


Após constatado grávidos eu, com 16 e ele, com 21, tínhamos ido morar em outra cidade, no interior, pois ele passara no vestibular e seu pai propôs investir nos estudos e bancar o casamento.
Apesar do desespero em constatar que eu havia feito uma cagada imensa ao eleger um marido desequilibrado emocionalmente, esquizoide e desajustado, eu deveria continuar! Não tinha saída, não saberia resolver de outra maneira, estava envergonhada a tal ponto, que voltar atrás pareceria covardia e derrota. 
Não era meu orgulho falando mais alto, mas creio que a minha índole passiva, dócil e confiante que me fez crer que tudo daria um jeito. Eu era esperançosa, e acreditava que era capaz de mudar, crescer, vencer, superar, uma confiança interna muito forte e convicta, estranhamente intuitiva.
Mas também eu me encontrava muito melancólica na gravidez, diante das dificuldades, sozinha, num lugar estranho, e com um estranho grosseiro, me reclusava tristemente em casa, com minha barriga crescendo, meus sonos extensos e enjoos constantes. Eramos eu e o bebê, sozinhas num apartamento pequeno, ajeitado, com louças e utensílios da cor vermelha e laranja e as porcelanas brancas. Nada sabia fazer de comidas alternativas, um mingau, uma vitamina, eu tinha hábitos alimentares diferentes, e enjoada era impossível querer acertar uma comida!
Sozinha pelas manhãs, escutava música, limpava a casa, lavava roupa e dormia. A filha crescia e se mexia, muito! Conversava comigo até nas madrugadas, forcando- me ficar acordada pra escuta-la, sempre agitada. Mudamos de casa mesmo sendo dependentes financeiramente do sogro, pois o marido precisava ostentar, gastar, ter seus luxos e hobbies, assim inventou de ter um cão de raça e com pedigree, um animal imenso, feroz, nervoso e inquieto, um doberman, o que nos obrigou à uma primeira mudança de casa.
Era uma casa enorme, espaçosa, dois pisos, madeira e com um quintal árido mas no qual a cadela teria espaço. Não fui feliz lá, não gostei da casa, passei meus dias chorando jogada na cama, mais sozinha do que nunca! 
Era o primeiro semestre de 1977 e eu cursava o segundo ano do colegial, pelas manhãs, num colégio público, onde fiz uma amizade com uma menina curiosa, comunicativa e ávida pelas novidades da capital. Eu introvertida e ela extrovertida. Frequentei muito a casa dela, sua família me acolheu, era mais feliz com ela do que sozinha. Se tornou a madrinha da filha que eu esperava.
Nas férias de julho, retornamos pra Florianópolis, lugar em que ele nunca abandonou e sempre retornava. Desistiu de dar continuidade ao curso de biologia que ingressara em março. A filha nasceu em 25 de agosto de 77, eu com 17 anos, de parto de cesariana, após longa espera, fui as 11 da noite com dilatação e esperei 12 horas até a médica resolver fazer a cirurgia. 
Estávamos amontoados dentro da casa da sogra, num quarto dividindo espaço com a família e suas irmãs e eu queria morrer!!! Odiava aquela situação, eu era intrusa e tratada como intrusa. 
Eu era diferente, e não compartilhava os mesmos valores e estranhava tudo, mas era dócil e quieta, sofria calada. 
Após o nascimento da menina, o sogro comprou uma casa recém construída, no bairro do aeroporto, onde estavam surgindo novos loteamentos. E meu marido convence seu pai a investir num negócio de produtos naturais, o empório Sol da Terra. Nova mudança se realizou e fomos eu, ele e a filha, com a cadela e o segundo filho já na barriga, rumo ao mangue.
Durante minhas estada forçada ao lado da sogra, de julho à setembro eu comecei a aprender a cozinhar e observar o estilo de comida até então diferente de minhas referencias passadas. E passei a produzir quitutes para o empório, cuidando da casa, da filha, da barriga e da produção diária para ser vendida. 
O segundo filho nasce, calmo, sereno, tranquilo, dorminhoco. Fácil trato, alegria em cuida-lo. Sozinhos ficávamos durante o dia, a noite o marido chegava e cheirava as crias. Havia uma relativa paz, até ele se inquietar e desejar novos rumos. 
Vendeu a casa e o empório e fomos morar no centro, na casa em que a família morava e já havia se mudado para outro bairro. 
Com a venda do empório e da casa, montamos um restaurante natural, e depois de pronto, passadas duas ou três semanas de funcionamento, foi vendido. 
Novamente outra mudança, fomos morar em São Joaquim, na casa de um amigo dele. Todas as decisões era ele quem tomava, me restando a função da casa e crianças. Mesmo estando lá no mato eu não era feliz, pois aquelas companhias não eram bacanas, fumavam maconha o dia todo, eu era a hóspede e não ditava as regras. Adorava o amanhecer, pois era o momento que eu me escapava com as duas crianças e me sentia livre e tranquila, lavava as fraldas num arroio e na volta fazíamos rosquinhas de ricota no forno à lenha. O menino fez um ano quando estávamos por lá e no mesmo dia começou a caminhar. Como de costume o marido não parava em casa, sempre havia uma desculpa pra ir pra Floripa, e mantinha o fornecimento da maconha para os amigos. 
Por fim, voltamos pra Floripa e nos enfiamos na casa de minha mãe até alugar um engenho velho de chão batido, sem água encanada e sem luz numa praia deserta. Ratazanas enormes desfilavam pelo madeiramento rústico do telhado e faziam a festa nos cereais e demais comidas à vista. Para ter água eu carregava no lombo baldes de água que pegava numa bica distante. Mantinha a casa sempre arrumada e curtia muito minha solitária viagem de viver a vida mais natural, reservada e simples. 
Eu estava com dezoito anos, pura inocência, vivia um ideal, sem antecipar um futuro. Aliás, fazer planos com o marido era impossível, portanto me adaptei e passei a viver o agora. Como eu era mansa!
Chegou um tempo que marido quis voltar pra cidade e me enfiou na casa de minha mãe novamente! Eu não aguentava tanta instabilidade, já vinha triste desde nossa mudança do aeroporto, passava os dias deprimida e desesperançosa e com a desistência da casa e a vinda para minha mãe resolvi me separar. 
Não durou muito, pois precisava ter estrutura para as crianças e morar com minha mãe era o pior dos mundos! Outra mudança!
Cedi às insistências em me convencer a voltar, e alugamos um apartamento próximo ao centro, região tranquila e familiar. Eu dormia em quarto separado, mas ele sempre foi sedutor e inquieto e eu sempre passiva e positiva, até que um dia fui parar na cama do casal e fizemos um bebê. Fomos abortar e tive muita hemorragia, parando no hospital! Em seguida outro filho e com uns 5 meses de gravidez, fomos rumo ao mato, próximo a Anitápolis, Rio Novo. 
A turma alternativa convenceu o homem do dinheiro, meu sogro, a investir num sítio pra criar uma clínica com ofertas alternativas: acupuntura, massagens, casa de repouso com comidas saudáveis e da terra. Enfim, partimos sozinhos para lá eu, o marido, os 2 filhos e um no ventre, enquanto os demais nunca apareceram!
No mato tínhamos vacas, que eu buscava pela manhã para ordenha-las, plantação de batata doce, abóboras, chuchu, e algumas caixas de mel. Rio Novo também foi um dos lugares que vivi comigo mesma, sozinha com dois filhos e outro na barriga. Como sempre eu ficava sozinha com as crianças; era muito frio, noites geladas, barulhos estranhos, muito medo da noite! O bebê na barriga deve ter sentido isso!
Colhia e cozinhava muita batata doce, chuchu, abóbora. Água quente só na serpentina do fogão a lenha, luz de velas, escuridão, dias curtos e solidão.
O marido, para compensar a sua ausência e provavelmente para mais mão de obra ao trabalho, trás um casal para viver conosco. Com hábitos e valores totalmente diferentes, minha dificuldade se estampou e me vi encurralada sendo obrigada a conviver com estranhos. Desnecessário afirmar meu desespero e tratei de comunicar a situação insustentável. Talvez por dificuldades de desfazer o combinado com o casal, ou até mesmo a constatação de que no Mato não teríamos o sustento para a família que crescia, ele desiste no Mato e partimos para Blumenau, em sociedade com sua prima, para abrir um restaurante natural, na esquina da universidade local. Nessa época eu já não acreditava e não me empolgava com nada, sonhava com uma vida longe de um marido desequilibrado, mas havia as crianças. Era infeliz e não amava aquele homem ao meu lado. Mas não via saída, não vislumbrava uma atitude ousada e corajosa, afinal eu acabara de ter um filho ao chegarmos em Blumenau e ainda necessitava de cuidados.
Em Blumenau, morávamos numa casa grande, semi mobiliada, moveis antigos, e bem agradável. Embaixo montamos o restaurante, em cima a residência. De julho até o início do verão ficamos por lá.
O maldito me perseguia feito um louco, mesmo amamentando pouco, ele sentia meu cheiro de mulher e avançava e eu fugia. Mas era impossível com a minha passividade e com o medo de seus ataques e berros. Fizemos Lucas, passei a enjoar e dormir demais, era horrível, quando pensava em me livrar do homem, mais crias gerávamos.
No verão ele manifestou interesse em voltar, gostava da praia, do futebol e da família. Eu não fazia questão de voltar, e sim de me estabilizar para criação dos filhos, me importava a independência! Porém, a inquietude dele falou mais alto! Criou uma briga, rompeu de forma agressiva e violenta com os sócios e me disse que voltaríamos pra Floripa. Eu me neguei e ele surtou quebrando uma cadeira em mim. Não houve jeito, ele tava decidido e não iria ficar! E eu sozinha com 3 filhos e mais um na barriga ficou sem chance sustentar a ideia de não acompanhá-lo.  Fomos nos enfiar na casa de minha mãe, pra variar. Saímos de Blumenau, já com os 3 filhos e um no ventre e fomos morar próximo à Joaquina, e estabelecendo uma sociedade com um casal para a produção de sanduíches naturais e demais quitutes, chamava -se Sabor & Cor, na rua Vidal Ramos. O bebê nasceu ali, setembro 1982, numa casa de madeira, cor laranja , cozinha grande conjugada com a sala, dois quartos e banheiro. Eu cuidava das crianças, roupas, comida e da produção dos quitutes. O recém nascido chorava muito, e eu não conseguia dar conta de todo serviço, vivia estressada e angustiada. Foi um breve tempo, mas sentia um peso, não conseguia encontrar prazer, me sentia desesperada. Em seguida o marido se estranhou com os sócios e desmanchamos a sociedade e o negócio. Fomos então de mala e cuia morar no Centro de Floripa, numa casa grande que na frente foi estruturado um negócio de moveis usados, colocando à venda nossos móveis. Odiava a situação, não concordava com o estilo de vida que estava se perpetuando, preocupava-me com a educação formal dos filhos, e aquele homem me repugnava.
Amor não existia desde sempre, a compaixão foi se extinguindo e em janeiro de 1993, decidi romper de vez, aproveitando que estávamos desfazendo o negócio de móveis usados, pois não havia dado certo, e conforme sua sugestão, eu deveria ter que me enfiar novamente na casa de minha mãe, porem resolvi ser firme e decidida, informando que somente eu e crianças iriam pra casa de minha mãe e que a partir de então estaríamos separados! Foram então 6 anos de união, de janeiro 1977 a janeiro de 1983. Não foi fácil!
Também nada fácil voltar e estar ao lado de minha mãe, me sentia enfrentando os leões. A separação não foi consensual, ele se tornou agressivo e desorientado, impossível manter um diálogo ou estabelecer algumas condições necessárias para a manutenção das crianças. 
Meus irmãos menores que viviam na fazenda, em outra cidade, estavam voltando e queriam seu espaço de direito e eu estava sobrecarregando o ambiente. Eu estava perdida, sem dinheiro, sem formação, sem perspectivas. Mas fui forte, engoli os maus tratos e agressões de minha mãe, enfrentei a vergonha e a humilhação de estar na estaca zero e fui me adentrando no mundo da sobrevivência, onde o preço a ser pago era alto e cruel. 
Eu estava com 23 anos e já tinha 4 filhos, eu não havia completado minha formação escolar básica e nunca havia tido um emprego de carteira assinada. Não fazia ideia de como começar. Comecei fazendo o quê sabia, cozinhar! Fazia quitutes e minha mãe, ainda na ativa, vendia de lanche no serviço dela. Depois fui cuidar de crianças, tarefa que dominava com destreza. Fazia yoga e dava aulas. Percebi que precisava investir mais pra que pudesse ter melhores condições de sustento. Então larguei o yoga e fui terminar o científico e fazer o vestibular. 
Após 5 anos dando aulas em escolinhas, em 1988 entrei na universidade. Morei 7 anos, de 1983 à 1990 enfiada num quarto com 4 crianças na casa de minha mãe. Passava os dias longe, não suportava a convivência com ela, abandonei meus meninos, pois sentia que não sobreviveria ali com ela. Senti muito essa distância, me dilacerou, estraçalhou meu coração e teve repercussões drásticas e insuperáveis. 
Foi uma época de muitas dores, tristezas e desespero.


Janeiro de 2019

Curta Puberdade


Talvez tenha a sido a fase mais triste de minha vida, mas acho que a maioria dos adolescentes pensam e sentam desse mesmo jeito. 
Era tudo muito triste, difícil, diferente e me exigia posicionamentos, julgamentos, escolhas, posturas, sendo que estas estavam atreladas ao meu status entre os amigos, irmãos e meus pais. 
Em casa a falta de um espaço meu era angustiante. Queria pensar, ter cama pra me jogar , chorar ou rir, divagar sobre os dias, sonhar em amores, imaginar diálogos, cantar alegrias, enfim, me ver e sentir crescer, perceber as mudanças físicas, contactar com as transformações psíquicas, mas principalmente ter um lugar de pertencimento e seguro onde pudesse recolher meus lixos, atar os cordões, juntar cacos, espalhar dúvidas, refazer meus passos, bagunçar e organizar idéias, enfim fazer o contato diário comigo mesma.
Impossível, em casa não havia escolha, havia regras a serem obedecidas e seguidas e sem espaço pra ser você mesmo, para manifestar nossos quereres, sentir nossas dores ou alegrias, a vigília era constante. Eu nem aviltava a ideia de argumentar ao contrário, sequer supunha uma mudança. Onde antes eu encontrava consolo , no carinho e no afeto de minha mãe, agora nada tinha, eu havia crescido e estava me tornando uma moça, não muito bonita, mas suficiente para minha mãe se assustar e recear deixá- la esquecida, preferia me esquecer do que a si. Mas nessa época mãe não é lá tão importante, ficamos muito mais envolvidos com as novas e desafiadoras relações sociais com amigos. A importância só se fazia quando precisava do colo, do afago de um sorriso, uma mão na cabeça e um beijo terno que nos dava a sensação que não estamos perdidos diante desse turbilhão de novos fatos, sensações, e ocasiões ainda não vividas. 
Com dificuldade de reconhecer e manter clareza dos sentimentos aflorados, sempre cativava poucos amigos, elegia apenas um por vez, não conseguia estabelecer com profundidade e fidelidade relações com muitas pessoas. 
Tudo me parecia tenso e estranho, conseqüência dos hormônios em polvorosa? Eu sonhava muito, fantasiava uma realidade minha e exclusiva e lá ficava, sempre que conseguia estar sozinha e em silêncio, no ponto de um ônibus, tomando banho, lendo, fingindo estudar e principalmente deitada, esperando o sono me tombar. Nesses sonhos eu tinha um quarto, eu ia a praia, namorava, beijava, tinha amigas que iam na minha casa, tinha roupas bonitas, enfim um mundo pessoal invisível.
Fui crescendo magra e com pernas longas e finas. Cabelos ralos e lisos, sardas não tão marcantes, mas presentes no nariz e bochechas. Aos 13 fiquei mocinha, numa tarde caminhando na chuva, estava encharcada indo pra casa de uma amiga, foi ela que me deu o primeiro e quase único, por alguns meses, absorvente íntimo. Em casa mamãe me apresentou e me limitou a usar os "paninhos", que eram fedidos, sujos e difícil lavação. 
Nessa ocasião, eu tive meu primeiro namoradinho, que consistia em pegar na mão, e após um tempo um selinho de chegada, outro de partida. Éramos crianças, com a libido nascendo, e explorando um novo território. Sempre amedrontada, assustada e pouco ousada, apesar do latejar libidinoso, temia ultrapassar meus medos. Nessa época os meninos estavam sempre por perto, nossos encontros, geralmente em frente a casa de determinado amigo(a), pois não pensávamos explorar novos territórios, eram noturnos, e entre colegas de escola. Nos domingos a tarde eu frequentava um clube, e os encontros eram com outros meninos, de escolas diferentes. O jogo da sedução exigia muito mais de nós, a disputa por atenção consistia num conjunto de requisitos que eu sempre me considerava distante de atender: vestimenta, beleza, desenvoltura, educação, leveza, autoconfiança, dinheiro, ostentação entre tantos outros que na minha fantasia eu não possuía condições de sustentar. Mas para meu espanto e alegria, alguns poucos meninos me olhavam, os menos cobiçados obviamente.
Assim, foram poucos os namoradinhos, rápidos e pueris, temia estabelecer relacionamentos mais duradouro pois eram meninos sérios de boa família acostumados a formalidades e quando pensavam em visitar-me, conhecer minha casa, família eu os afastava com desculpas e finalizada a relação. Meu temor era irem em minha casa, não só pela aparência feia e esquisita, mas também temia meu pai, imaginava sua censura, seu discurso inflamado e austero condenando e recusando qualquer proposta voltada à vida fora de seus padrões rígidos e espartanos. Desse modo, poucos foram os namorados e de rápida duração.
Meu primeiro beijo foi assustador! Uma língua inquieta, viscosa e insistente me perturbou as idéias, queria correr, fugir e nunca mais sentir aquilo. Mas o que fazer, se eu queria ter um namoradinho?
Minha primeira relação, aos 16 anos também foi assustadora! Ainda não tinha libido suficiente pra desejar estar com alguém na intimidade, meu interesse não ultrapassava a fronteira da fantasia. Mas o que fazer se eu queria mudar minha vida? Queria um quarto, não necessariamente uma casa, queria atenção mas não com exclusividade, queria uma vida social sem culpa e sem me esconder, queria ter a sensação de conquistar alguém e esse alguém gostar de mim, mas não necessariamente eu gostar desse alguém, enfim, idealizava uma vida diferente, distante de gritos e confusões, mais tranquila e amorosa. Mas minha falta de decisão, de posicionamento, meu medo constante, minha insegurança inviabilizou a continuidade de viver a adolescência em sua plenitude. Fui brutalmente assediada, manipulada e subornada, e após descobrir que minha cegueira não permitiu perceber que a escolha feita foi desastrada e havia trocado seis por meia duzia meu desespero foi mortal, morreu adolescência, alegria, esperança, desejos, vida, entreguei-me ao acaso, me deixei levar. Por forças das circunstâncias, fui uma adulta ingênua, tola, imatura e idealista. Uma menina mulher frágil, dependente e perdida.
Dos 13 aos 16 , três anos de namoricos breves, iniciei o mergulho na leitura, conheci os mais famosos e modernos cronistas brasileiros, muito investimento em esportes, onde gastava minhas energias, sem preocupação com futuro e a construção de um forte vínculo de afeto e admiração com meu pai. Partir foi muito dolorido, deixá-lo foi triste e traí-lo foi devastador. Como eu pude escolher e me entregar para um sujeito tão estranho à tudo que ele me ensinou, um cara tosco, ignorante, vazio e arrogante e cuja única e principal semelhança entre eles era a loucura e o descompasso de emoções?
Aos 16 anos eu já havia estabelecido e incrustado na minha personalidade as influências e valores vivenciados desde minha chegada ao lar dos Oliveiras Marengos.

03-12-2018

Infância



Muitas vezes, em família, invisível, era como eu queria estar na grande parte do tempo, as brigas e discussões eram intermináveis, a intolerância reinava. Muito frágil, inocente e alegre nada entendia, só me defendia. Muita gente numa casa tão minúscula, muitas bocas e olhos suplicando amor, carinho, atenção e comida.
Éramos seis, eu rodeada de homens e com ausência de companhia feminina. 
Eu adorava minha mãe, ela trazia balas e presentes. Era brincalhona e leve, ficávamos reunidos à sua volta em cima da cama, brincando, rindo e desfrutando de poucos momentos de paz e alegria. Momentos esses recriminados por meu pai, onde perdíamos "um tempo precioso " e mamãe nos distraía da disciplina imposta por ele. 
Tinha muito medo de meu pai, severo, carrancudo, preocupado, agitado, sério e tenso. Pra ele não era permitido o ócio: o inimigo do povo, o prazer era pecado, momentos de lazer inexistiam, tínhamos que estar sempre ocupados produzindo, aproveitando o tempo com coisas úteis. Tratáva-nos como adultos.
Sua educação foi em um internato presbiteriano, depois o exército. Cresceu com a ausência do pai, recebeu influência socialista de um tio mais próximo, inclusive passou um ano, após o exército nos países socialistas. 
Sua mãe era rígida e seca, pouco falava, poupava sorrisos, filha de índia, mantinha-se distante em um mundo diferente. 
Essas referências na sua formação afetaram e muito, tanto negativa como positivamente nossa criação.
Ambos os nossos pais eram histéricos, caóticos e densos, disputavam a tapas a última palavra, papai ficava muito nervoso e tenso, suas palavras eram fortes e pontiagudas, já mamãe apelava para o sarcasmo, destituindo o outro pela humilhação e desmerecimento. Assistíamos assustados e aprendendo o jogo da vida, onde a violência verbal eram as principais estratégias de defesa e ataque. 
Foi uma infância seca, estéril e amedrontada, papai reproduzida a mesma labuta e dificuldade de uma vida no campo, onde recursos são escassos, e onde tudo se transforma em utilidade. No campo tudo se aproveitava, latas de azeite viravam canecas, caixas em guarda roupas, nada é desperdiçado, e papai, mesmo morando numa capital, onde o acesso aos bens de consumo eram mais facilmente acessíveis, nos fazia viver e sentir a aridez e dificuldades de uma vida restrita e paupérrima de facilidades e regalias.
Qual era sua lógica?, não sabemos, mas suponho que seja para nos preparar para as vicissitudes da vida, nos tornar fortes e resistentes, para possíveis tempos de guerra. Inútil tentativa, pois nos tornamos amedrontados, frágeis e inseguros, pois sem afeto, amparo e carinho, a confiança não se desenvolveu.
No entanto, como éramos um número grande de filhos, um grupo de crianças saudáveis, fortes e sobretudo inteligentes, conseguíamos achar lacunas para nossas diversões, desde que sempre houvesse um de nós à postos vigiando sua possível chegada, quando então saíamos em disparada para às atividades ditas "produtivas". 
Assim, mesmo sendo massacrados pela sua rigidez, conseguíamos nos divertir e aprontar muitas coisas, das quais algumas inenarráveis. Entrávamos em construções, em porões, subíamos em árvores, jogávamos bola, soltávamos pipa, montávamos o boi de mamão com a vizinhança, arranjávamos muitas brigas com vizinhos e frequentadores de um parquinho próximo. Os banhos de chuva nos verões eram os mais esperados e desejados, refrescavam corpo e lavavam nossa alma, a alegria era geral!
Nossa casa era pequena, apenas dois quartos para 8 pessoas, sala cozinha e banheiro, habitava ainda a secretária, no minúsculo quartinho dos fundos. Vivi nela quase toda minha vida, dos 5 anos até idade adulta. 
Meu pai nunca valorizou a aparência e o conforto, considerava valores burgueses e dispensáveis. Era uma casa que tinha o necessário para viver, sem adornos, sem enfeites e sem cor. As cores existentes vinham das lombadas dos inúmeros livros nas muitas estantes espalhadas pela casa, cada cômodo havia livros. Um homem espartano nos impôs limitações e rotinas impensáveis como o uso de papel de pão, amassados e cortados em quadrados, por meio de uma produção em série, filhos reunidos em volta da mesa, cada filho tinha uma função no processo de amaciar o áspero papel, recortar e posteriormente eram pendurados num prego na parede ao lado do vaso sanitário. Esse era nosso papel higiênico! Quando cresci , perto dos 13 anos, tive direito à um rolo industrializado, pois era a menina da prole. 
A louça antes de ser lavada, precisava ser limpa com jornal pra tirar a gordura, sendo que a areia às vezes também era utilizada na remoção da "graxa", cachos de banana eram pendurados pela cozinha à disposição das crianças, caso sentissem fome, as vitaminas eram feitas sempre com aveia e banana para tornar nossos músculos sadios. As capas dos cadernos eram trocadas e refeitas com papelão mais reforçado para aguentar o manuseio. Os papelões eram encartes da indústria farmacêutica, que meu tio representava. 
Tudo isso nos tornava diferentes das demais crianças, nos distanciava e percebíamos que éramos diferentes e os únicos com hábitos estranhos. Ao chegar a adolescência, tais diferenças evidenciaram-se e para nós foi um choque irreversível e com consequências desafiadoras.
Aos finais de semana, para não deixar a turma ociosa papai nos colocava a juntar pedras do quintal, atividade essa oriunda de sua infância, talvez, mas inútil, apenas um tempo a ser preenchido, nós odiávamos isso! Nossa estratégia para fugir desse castigo era ler. Se estávamos lendo ele não importunava. Eu pegava alguns livros na biblioteca da escola cada final de semana. Meu segundo irmão devorava os livros e tornou-se incomunicável com o tempo, pois o exercício do diálogo, da tolerância com as diferenças e o respeito pelo próximo passava ao largo de nossa casa. 
Amor existia, expresso no cuidado em não faltar comida, saúde e educação, mas a expressão de afeto, amparo e carinho desconhecíamos. Mamãe tentava compensar toda essa aridez, tornando nossos natais e aniversários mais alegres e encantadores, mas pagávamos um bom preço por essas alegrias momentâneas, principalmente ela, que ouvia todo um discurso patético e despropositado em relação ao consumismo. Como ela sempre foi forte e corajosa enfrentava sem muito sofrimento tais descompassos, assim, diante da indiferença dela, ele passava a nos perseguir e descontar sua ira nos nossos pequenos deslizes. 
Sim, fomos felizes, afinal toda criança possui a capacidade inata de alegrar-se, esquecer em troca de um brinquedo ou por qualquer proposta de brincadeiras. Seu tempo é outro, as diferenças são longas entre os episódios de sua vida, o tempo se estende, por ser vivido tão intensamente com entrega e desprendimento. As sequelas só apareceram mais tarde, quando se faz a hora de ampliar as relações, o compartilhar sem medos ou ressalvas, dos jogos e dinâmicas sociais, enfim na vida adulta.
Lembranças de minha tenra idade, não possuo, são poucos os momentos que lembro que se iniciam por volta dos 3 ou 4 anos, numa casa maior, na rua ao alto de uma colina, um aniversário, no carro de meu avô que após mexer num botão fiquei com ele na mão. Muito assustada e temerosa, passei o resto do aniversário escondida atrás da porta de meu quarto. Já apresentava rigor e medo. Ainda nessa mesma casa, lembro de meus irmãos esconderem os brinquedos embaixo das camas, das sessões de injeções em volta do umbigo que precisei receber devido à uma suposta mordida de um cachorro louco e cuja recompensa por minha valentia foi a promessa de ganhar uma boneca do meu tamanho! Sim, com muita alegria ganhei, e mais tarde percebi que essa foi uma excelente qualidade de minha mãe e que todos nós gostávamos, ela nos presenteava, ela prometia e cumpria, ela nos dava a alegria da realização de sonhos, a permissão pra fantasiar. A capacidade de sonhar, batalhar e receber; posso afirmar que essa é uma herança materna e que muito me ajudou ao longo do caminho.
Aos cinco anos, frequentava o jardim de infância com meu irmão, um ano mais moço, me sentia sua protetora, mas foram lá as minhas primeiras relações sociais, assustada e sozinha buscava referenciais protetores, mas não encontrava, era triste e solitário e tinha ainda que enfrentar inimigos que me beliscavam por baixo da mesa. Esse corte do vínculo familiar foi bastante impactante, busquei forças até então desconhecidas, desenvolvi defesas e experimentei meus primeiros desafios. Uma criança aos cinco anos ainda é muito vulnerável e dependente, torna-se mais forte quando tem irmãos, principalmente mais velhos, onde recebe mais cedo o aprendizado da sobrevivência. Mas isso não lhe poupa da dor do mundo externo à família. Dos cinco irmãos, todos tinham uma diferença de idade de 2 anos, apenas o após a mim a diferença era apenas 1 ano. Tínhamos uma ligação forte, fomos companheiros de descobertas, de fases e de aventuras. Aos nove anos, ele com oito, contraímos juntos hepatite viral , e o resguardo foi compartilhado. Não lembro o porquê ele não receber, ou se recebeu desconheço, as costumeiras recompensas para nos comportar, eu no caso, para manter-me na cama sossegada, fui seduzida com duas bonecas Suzis, as mais cobiçadas na época. Sei que invariavelmente eu tinha que ser convencida de ficar quieta, pois muito ativa, era necessário domar minhas constantes inquietações, sempre curiosa e desbravadora. Adorava recompensas, presentes e surpresas, eu seguia o acordo de maneira disciplinada e exemplar!
Minha mãe nessa época era minha estrela, meu mito, minha proteção, meu tudo, amava sob quaisquer circunstâncias, com ela me sentia segura e forte. Mas aos poucos, a medida que fui ganhando o mundo, fui observando com outro olhar algumas de suas ações, escolhas e sentimentos. Começou a causar estranhamento a ênfase que colocava na sua personalidade e nas relações coletivas, lentamente percebi, na medida em que me tornava mocinha, um afastamento, ressalvas até então inexistentes e comparações absurdas entre mim e ela.
O contato com sua histeria ficou mais presente e visível, e percebi a diferença do status que lhe creditava em relação ao seu empenho em me conquistar ou mantê-la ao seu lado. Passei a me sentir pequena, feia, incomodativa e trapaceira sem ao menos entender o porquê. A doce proteção se esvaía entre meus dedos, fazendo me sentir ainda mais solitária e desde então tal sentimento me acompanhou ao longo dos meus dias, eu havia perdido a imagem imaculada de minha mãe, e passei a caminhar sozinha.
Minha alfabetização foi mágica, apaixonei-me de imediato pela professora Emília, muito carinhosa e delicada, elogiava com propriedade e estímulo, o que fazia com que me esforçasse e acompanhasse com muito esmero todas as atividades propostas. Aprender a ler foi ganhar o mundo, ampliar meu espaço e minhas possibilidades de conhecer e crescer, desde sempre fui ávida por descobertas e conhecimentos novos. Eu me sentia plena e segura, por isso considero a relação da primeira professora de uma criança fundamental para seu desenvolvimento, um termômetro da futura trajetória . Além da harmoniosa e produtiva relação com a professora, em casa, minhas conquistas escolares eram também estimuladas pelo meu pai e eu começava a me sentir uma criança grande à altura de meus irmãos mais velhos. Não era propriamente uma competição, mas sim uma forma de se igualar, de se afirmar, de me apropriar do que é só meu!
As relações familiares com tios, avós, primos eram escassas e eventuais. Apenas com uma tia materna e seus cinco filhos conviviam com relativa frequência. Papai era considerado esquisito e inacessível, todos temiam suas ideias e atitudes excêntricas, portanto as visitas eram escassas e breves. Mas longe de sua vista todos relaxavam e se permitiam ser quem realmente gostariam de ser, sem tensão e críticas. Eu passei alguns finais de semana na casa da tia, era um refúgio, um paraíso, pois além de ficar longe do policiamento e da tensão, era um mundo completamente diferente. Uma casa normal, com hábitos, relações, refeições e dinâmicas contrárias às nossas. Se fosse permitido eu ficaria por lá até a saudade bater, se é que um dia sentiria a falta de tamanha rigidez e medo. Sim, muito medo eu sentia, medo da crítica de mamãe, do seu ciúme, sua vigília sobre mim, sua repulsa ao saber ser amada por papai, seu olhar desesperado e reprovador, medo das exigências do papai, do estar sempre alerta, de rir, de fazer escolhas erradas, opinar, reivindicar. Não tínhamos vozes, sentíamos reprimidos e oprimidos.
As viagens para Alegrete também foram bastante representativas, deixando lembranças e marcas de uma infância alegre e divertida. Apesar de minha avó paterna ser tão sisuda e fechada quanto meu pai, conseguíamos driblar seu humor e sorrateiramente aprontar episódios temidos e reprovados por ela, mas divertidos para nós. Destruíamos o pomar, avançando vertiginosamente nos morangos, pêssegos, ameixas, ainda não completamente maduros, na ânsia de quem pega primeiro quebrávamos os galhos e o parreiral. Vovó não conseguia nos conter, e tudo que inventávamos fazer resultava num desastre pra ela. Seu sono não era o mesmo durante os 2 meses que vivíamos as férias escolares no campo, sua sagrada sesta sempre interrompida abruptamente com alguma arte dos netos. Não sei se tinha alegria em nos receber, percebia sua zanga e desespero em ninguém conseguir nos conter. Havia um revezamento entre papai e mamãe, conforme suas férias, e havia ainda a empregada, que auxiliava na lida doméstica. Com papai na área, ficávamos mais contidos, mas quando ele ou eles, os adultos se ausentavam, a fazenda virava um turbilhão incontrolável. Vovó e mamãe não se bicavam, o contraste era grande, a primeira uma mulher do campo, sem vaidade aparente, arrimo de família, responsável desde muito cedo por questões importantes, enquanto a outra, vaidosa ao extremo, de uma carência desmedida, o que lhe tornava uma mulher exponencialmente ciumenta, possessiva e controladora. A tolerância, amorosidade, respeito e paciência não eram atributos compartilhados entre elas. Mamãe não respeitava sua idade, seu espaço e seu sentimento em relação ao filho, sua carência sempre em evidência não permitia a vivência, num curto espaço de tempo, de uma relação maternal entre eles. Vovó parecia que recriminava a escolha de papai por ser uma mulher estranha e agressiva, bonita e irascível. Para papai sempre achei que minha mãe representava seu troféu de beleza e vaidade. Longe de seus ideais socialistas, ela representava a beleza que não lhe pertencia, compensava a estranheza que lhe era companheira e por fim a vaidade que tanto desejava ter e era desejável por muitos. Muitos questionamentos me surgiam diante de tal postura, afinal um homem tão reto, espartano e crítico, por que cultivar e alimentar-se de tal vaidade e permitindo tamanho exibicionismo? Nesses termos, só em Freud eu encontraria alguma luz, alguma resposta, sem lógica. Nos dias de hoje ainda continuo sem compreender essa sua permissão ao supérfluo, à exaltação da beleza, da aparência, ao fugaz, efêmero e sem valia. Minha impressão em relação aos valores de meu pai talvez seja exclusiva e cabem apenas na nossa relação. Valores serão sempre determinados por determinadas relações, pela interação e movimento, e nessa relação pai e filha, nesse intercâmbio com ele e diferente dele, foi que atribuí valores a nossa relação e à minha vida. Expandi-las, além nós, talvez sejam inválidas e estéreis, sem sentido. O fato é que vovó e mamãe não tinham uma boa relação, e mamãe se escondia em nós e nos defendia das críticas e reprovações que nos eram apropriadas. 
Para nós as férias eram momentos plenos de afeto e aventuras, onde nossas fantasias se expandiam. Na fazenda sentíamos livres, mas na cidade, onde vovó mantinha uma casa grande pra abrigar a família, ficávamos mais confinados, pois no máximo conhecíamos os vizinhos ao lado, de idade aproximada e onde estabelecemos relações, aprovadas por mamãe. Tinha um quintal imenso, uma garagem onde fazíamos um palco com teatro e músicas, o calor era desértico e insuportável, mamãe costumava dizer que dava pra fritar ovos no asfalto. Eventualmente o Rio Caverá nos refrescava, mas eu não frequentava, poucas foram minhas idas, apenas os guris eram assíduos, com protestos de mamãe, pois como sempre exagerada e pensando o pior, mamãe não aprovava. 
Mas ao baile eu fui com ela e nos meus 13 anos! A fila para dançar com a menina nova na cidade foi quilométrica, mas não dancei com ninguém, não sabia dançar, era tímida e desconhecia aquela gente toda. Fui bastante xingada por não aceitar as danças, por ter sido esnobe rejeitando os galanteios, afinal o desafio passou a ser quem conseguiria me convencer, mas preferi ficar na minha zona de conforto à enfrentar ilustres desconhecidos. Desse baile restou um rapaz mais insistente, que conhecendo o nosso vizinho, passou a frequentar a área, oportunizando conhecê-lo melhor, e que por fim acabei sendo disputada pelos dois, incluindo o vizinho. Por fim não passou de um amor de verão platônico! Mas foi um dos meus primeiros passos em direção à minha mocidade, uma juventude que me aguardava com muitas surpresas.
De Alegrete ainda me lembro de uma briga entre vovó e mamãe, saímos as pressas para cidade, com o carro carregado de ovos, leite, carnes e crianças, seis, minha mãe na direção e nossa ajudante no banco do carona com meu irmão mais moço, então com 4 anos, no colo. Todas as demais crianças atrás, quatro no banco e uma na cachorreira com as mercadorias e bagagens. Chovia leve e constante, mamãe nervosa e nós a cantar alegremente. No meio do caminho escutamos um estouro, minha mãe gritou, o pneu da frente estourou, o carro derrapou, caindo de um barranco, a ajudante jogou a criança do alto, eu apertada entre irmãos desmaiei, nenhum ovo quebrou e nenhum litro de leite derramou, apenas minha clavícula rachou. Lembro- me somente de estar saindo do carro, segurando o braço e entrando num ônibus rumo ao hospital. Ninguém havia se machucado, uma clavícula rachada. Mamãe ficou desesperada, achando que algo havia ocorrido de grave ao meu irmão caçula ao ser atirado pela porta do alto da ribanceira. Mas nada de mais grave ocorreu. Passamos o resto de nossas férias somente na cidade, não íamos mais para o campo, fruto da discórdia entre as duas mulheres de meu pai. Mesmo estando na cidade e com a clavícula quebrada eu continuava arteira, subindo os muros, brincando de pega-pega, de esconder, azucrinando minha mãe. No campo minhas peripécias eram semelhantes, subia em árvores pra mexer em ninhos de passarinhos, encontrava cobras pelo campo e as matava, galopava o cavalo zânio sem receio, visitava o milharal para fazer cabanas, e íamos às sangas nos refrescar, mas receava as águas escuras. Os banhos eram gelados no chuveiro da rua ou na banheira dentro de casa. Não tinha luz, e os lampiões eram acessos assim que escurecia. A geladeira era movida a gás e com a pouca luz gerada pelos moinhos de vento. Nossas noites ficavam encantadas com histórias, muitas estórias contadas por vovó, por nossas cuidadoras, sobre Pedro Malazarte, dos enigmas do campo, dos parentes desconhecidos, mas existentes. Por vezes nossas noites ou manhãs eram assombrosas pelos fortes ventos do minuano ou por gritos de galinhas, causado pelas raposas. Dormíamos tarde, apesar na falta de luz, aproveitávamos o sono dos justos pra assaltar as bolachas das latas, as compotas de abóbora na geladeira e jogar cartas até cansar. Papai nos forçava a dormir cedo, mas esperávamos o silêncio se fazer para voltar às nossas atividades noturnas, afinal a distância entre nossos quartos era bem grande!
Uma casa com crianças é uma casa com rotinas, hora de comer, dormir, estudar, apesar de acharmos que só nos era permitido estudar, tamanha pressão existente. Estudar era nossa principal razão de existir, para papai deveríamos estudar 24 horas por dia, o que achávamos sem propósito, um massacre descomunal, mas obedecíamos, sempre que estávamos em sua presença, estávamos em volta da mesa grande da sala com os livros abertos. Nessas horas, que eram muitas, o que fazíamos ou pensávamos apenas nos pertencia!!
A comida era outro item importante e fundamental na nossa criação, dentre as rotinas estabelecidas, fazíamos, um revezamento, para enfrentar a via sacra das feiras populares, das 07 às 11horas da manhã, onde comprávamos a xepa do final do dia, produtos mais batidos, amassados e murchos eram mais em conta. Os cardápios eram cuidadosamente selecionados conforme valor nutricional, e havia escândalos quando as frituras apareciam, o preparo antecipado no sábado do almoço dominical e seu repetitivo cardápio, cuja divisão era religiosamente as mesmas todos os domingos e minhas manifestações contrárias eram recebidas com indiferença e sarcasmos. E por fim as esperadas guloseimas das sextas à noite, o sagu, as rapaduras quando era permitido assistir televisão.
O irmão mais velho, quem sabe por ter que dividir desde sempre, tudo entre todos, era o mais esganado e comilão, chamávamos de Maria Godera, sempre pronto pro lanchinho! Mas todos cresceram muito ávidos por comida, esganados, e consequentemente muito sadios e fortes.
Nossa sala de estar era nosso QG, nela estudávamos, aos sábados papai recortava os jornais da semana, e era meu quarto de dormir , um sofá cama xadrez. Não tinha adornos, apenas livros, uma vitrola que durante a semana escutava-se os noticiários matutinos e noturnos, discos de musicas MPB nos finais de semana, um quadro de Renoir, a leitora, uma grande mesa com 6 cadeiras e um sofá de couro marrom usado.
Nossos vizinhos eram nossos amigos de brincadeiras, morávamos num beco sem saída, com três residências, na região central da capital, mamãe chamava de "Beco das Amélias" porque as esposas eram sofridas e guerreiras. Dessas, duas sofriam violência física dos maridos, um absurdo impensável para nossos valores. Nossos pais também se violentavam, mas verbalmente. A violência física era reservada para nós, os filhos.
Nossa casa era a menor e mais humilde, a última delas; havia árvores na frente e ao lado de casa, carambolas e amoras. Creio que éramos os mais felizes, pois tudo era falado e escancarado, os problemas tentavam ser resolvidos as claras e aos berros, tal autenticidade e transparência nos fortalecia de algum modo.  Foram essas primeiras e significativas impressões que me deram sustentação pra viver o que vivi, que me prepararam pra estabelecer minhas conquistas e meus limites  Crescemos amedrontados, mas orgulhosos do que nos tornamos,  aprendemos a amar aquilo que nos acostumamos, a amar quem nos amou e mesmo com as dificuldades inerentes à qualquer sujeito que nasce, cresce e morre, posso afirmar que me orgulho de meus pais e minha família e agradeço sincera e profundamente todos as oportunidades e ensinamentos que recebi com  grande amor de meu pai e minha mãe e que a finitude de nossas vidas não promova o esquecimento de nossa grande história. Na minha infância papai era rei e mamãe rainha num reino de fadas e monstros, de alegrias e tristezas de amor e fantasia.
E acima de tudo, lembro de meu grande amor por  papai, eu o amava e muito! Seu cheiro, seu hálito de chimarrão! Seu bigode bem aparado por cima daqueles grossos lábios de que quando discursava flamejavam e o dentes perfeitos brilhavam. Que sorriso gostoso ele tinha, com cheiro de laranjeira e amoleciam meus olhos. Seu corpo, seus cheiros me envolviam num clima de aconchego e amparo, eu sentia que ele me amava, eu era a menininha dele que crescia, mas sempre sua menininha. O som de sua voz era estrondosa e ecoava em meu peito como uma ode de amor, quer seja para discursar ou quando nos relatava fatos históricos! A noite, antes de dormir, me contava histórias de Guimarães Rosa, de Borges, pouco compreendia, mas adorava ser embalada, pela sua voz em diferentes vibrações, e com imensa capacidade de nos embrenhar por terras estranhas com personagens tão importantes que faziam daqueles momentos somente nossos.
 Não lembro como, mas aprendi com ele o manejo da terra, o segredo da fertilização, me tornei uma menina do dedo verde e sou orgulhosa e feliz por isso, por ter herdado seu dom e seu gosto pelo pó, barro, pedra e terra.
14/11/2018

Cuidar-se

Nasci para me curar!
Desde sempre percebi essa necessidade de equilibrar e estabilizar minhas dores e males.
Nasci num lar hostil e cheio de amarguras, onde o amor existia, mas era estranho, distante, exigente e egóico.
Fiz escolhas suicidas, difíceis, pesadas, inconscientes e inconsequentes.
Fruto do desamor, do desespero, do caos interno?
Fui resgatada por meio de um amor, aos 34 anos, ganhei uma oportunidade de aprender a amar. 
Recebi um amor espontâneo, sincero, carinhoso, que ampara, acolhe, aquece, toca, cuida e protege.
Mas eu já estava bem machucada, dolorida e descrente, já estava impregnada em mim a desconfiança, o medo, o desespero, a secura de um amor estéril.
Sobrevivi resistindo mais alguns anos, para enfim me entregar ao cansaço, e adoecer profundamente.
Nada mais me restava, investi minha vida na sobrevivência e na felicidade dos filhos, porém eles estavam indo, indiferente de minha vontade e minhas forças, eles estavam seguindo seus destinos, infelizes e adoecidos.
Me entreguei, não mais lutei, não mais acreditei numa virada milagrosa, desisti de viver! 
Todos estavam infelizes! O que fazer? Nada podia!
É difícil encontrar, entender, relaxar e se entregar para uma nova maneira de sentir a vida amorosa, confiante e esperançosamente. Mas se faz urgente!
Como começar?
- ser agradecida àqueles que nos tratam com atenção, carinho e cuidado;
- reconhecer quem amamos e demonstrar afeto, atenção e amor;
- estar tranquila, serena e confiante que nada de ruim vai me acontecer, e que tenho limitações que preciso aceitar;
- aprender a me amar e me cuidar sem exigências e críticas destrutivas e desmotivadoras;
- estar em conexão constante com minha paz interior e com o amor incomensurável do universo.


O viço em decadência


28/02/2018

Onde estão meus pêlos, cílios, sobrancelhas, cabelos?
Onde está minha alegria, prazer e vontade de rir, brincar, correr, pular?
Onde foi parar meus planos e projetos?
Onde estão minhas plantas?
Limitações sem fim....
Será esse o fim?
Cadê minha bunda, minhas carnes, meu viço?
Que mão murcha, magra e morta!
E as unhas, pele? Aí senhor, não me reconheço....
Mas mais importante é constatar que perdi coisas pelo caminho, durante essa trajetória, mas não perdi o que verdadeiramente deveria perder, deixar pra trás, pois é a causa de minhas mazelas.
O orgulho, a empáfia, a constante defesa oriunda do medo, a falta da amorosidade, da confiança em si e o não amor próprio. 
Tá difícil, é muito lento esse processo, depois de 5 anos quem sabe, poderei ter caminhado um pouquinho mais. 
Tanta tristeza e desalento diante dessa muralha a ser ultrapassada.

Medo ou dor?


A dor costuma ocupar toda nossa atenção.
A constante dor física limita a expansão de nossa consciência.
O medo é a dor antecipada  e tem o mesmo efeito de limitar a consciência.
Será o medo a fonte de nossas constantes dores?

29/01/2018

UM ANO SEM ELA...



A saudade dói e muito
Mas sua ausência me possibilitou o aprendizado do aceitar, confiar, entregar e agradecer incondicionalmente.
A urgência em ampliar minha consciência, a necessidade de fortalecer relações amorosas e serenas.
Que o universo te abrace sempre no seu manto de luz e amor minha filha amada!

13/08/2018

Cura




Curar:
A dor
A tristeza
O sofrimento
A mágoa 
A solidão 



Buscar:
A alegria
O amor
A compaixão 

24/08/2018

Saudade dela



Aprendi, tarde, mas aprendi a amar a mana sem julgar suas escolhas. 
Entendi que cada um traça seu caminho. 
Mas, infelizmente não consegui estar 100% ao seu lado, porque suas escolhas a entristeciam e eu sofria com seu sofrimento, não conseguia ver e aceitar sua angústia e dor!
Como reconhecer e alterar todos os comportamentos adquiridos? 
Como deixar de reproduzir a herança genética? 
Quase todas as dificuldades que encontro e reconheço como impedimentos para minha saúde emocional são:
- Chamar atenção pra si e grande dificuldade de compartilhar com pessoas diferentes e dar exclusividade a apenas relacionamentos onde somos o centro de atenção, ter grande carência a ponto do ciúme impedir diversidade de relacionamentos, pois precisamos de demonstrações de amor, controle das situações e exclusividade. Pensamos ser as melhores!
- Dificuldade de ser amorosa e dar carinho, ser receptiva aos diferentes comportamentos e modo de ser e amar de cada um.
- Ser crítica e julgadora, não aceitar outros pontos de vista, sendo orgulhosa e egoísta .
- Não desfrutar e ser agradecida pelo amor recebido, sempre exigindo mais. A seletividade imposta demonstra e retrata meu egoísmo e orgulho.
Como acolher, amar, respeitar, amparar e aceitar todos e tudo de coração sereno e aberto? 
Medo do quê?
QUERO MUDAR! Isso me faz infeliz.
22/07/2018

Processo de conhecer-se


22/01/2019 - 2 meses após segunda cirurgia. Ainda ha vestígios presentes

Como lidar com minhas emoções enquanto luto contra um câncer?
Quero compartilhar com alguém o que sinto?
Quero compreender meus medos e sofrimentos?
Quero ser humana!
Quero aceitar e acolher minhas profundas feridas!
Sou vulnerável e quero expressar isso!
Não quero mais estar sozinha com minha dor?
Quero ser ouvida e aprender a ouvir!
Não quero mais ocultar minhas partes negadas, desprezadas, desvalorizadas por mim e pelos outros.
Acho que meu isolamento me leva à doença e o relacionamento propícia a sobrevivência.
Minha alma e coração estarão sem lar?
Faço meditação, oração,  converso diariamente com o universo? 
Tenho a consciência e sinto a presença dele em minha vida?
Estou completamente sem encanto pela vida? 
Não há significados, não há objetivos, não há cor, alegria, tesão e fé?
Desconectada, sem nenhuma referência?
Desejo a percepção do sagrado dentro e em torno de mim!
Sinto que o silêncio se faz presente cada vez mais dentro de mim, ligado de forma serena às minhas alegrias e dores, me trazendo a paz e o nada querer.
É disso que estou assustada, desse novo modo de ver, sentir, ser!
Do repouso interno advindo do silencio!
É o desejo e a emergência do desapego fácil e rápido daquilo sem valor, do vazio angustiante do ter nunca preenchido.
Agradeço.
São poucas as horas, dias, meses ou anos?!
Quero me cuidar! saúde física, mental e espiritual.
Quero conectar com minhas possibilidades.
Quero um significado de vida, realização pessoal!
Quero conexão com minhas alegrias e conquistas!
Quero maior conexão diária com a energia universal!
Quero mais amor, tolerância, toque e compaixão!
Quero estreitar os laços, ouvir e aceitar as diferenças!
Quero ser mais tolerante, menos rigidez e crítica!
Quero mais humildade, comunidade e coletivo!
Quero encontrar a paz e a luz no final de minha jornada!