Quanto mais escrevo, maior o desejo de ser ouvida, meu legado.
Meu corpo anuncia minha morte iminente, a cada dia percebo as boas células se esgotarem, numa velocidade galopante.Percebo minha breve finitude, compreendo meu processo, aceito a realidade e aguardo serena.
Necessito falar, escrever e expressar meus sentimentos e impressões, é momento de revisao, reflexão e expectativas.
Se faz urgente o resgate da vida vivida e constatar o tudo que valeu viver.
Gratidão é o maior dos sentimentos. Cada dia está sendo uma dádiva, uma alegria à vida à mim ofertada. Não estive só, agradeço meus pais, meus filhos, minhas realizações profissionais e pessoais, amigos, a natureza, ao tanto de saúde que me resta e às conquistas, das mais singulares e humildes às mais representativas.
A dor, o sofrimento, a dificuldade foram parceiras de caminhada e foi através delas que desenvolvi minha força, lucidez e capacidade de superação.
Escrevo durante as noites insones pós quimioterapia, cuja azia, refluxo, além do corticóide, não me permitirem um sono restaurador.
Escrevo após longos banhos, quando meus pensamentos se tornam mais cristalinos.
Escrevo sobre descobertas e revelações proporcionadas pela interação com o mundo, nas relações que desejo a verdade e a entrega.
Escrevo porque gosto, para dar voz aos meus anseios.
Escrevo para exercer a criatividade, a lógica e praticar a arte da exploração, da observação, do escutar e da percepção.
Escrevo porque sou uma escriba espectadora. Sou oral, racional e auditiva.
