Em 20/07/2018, aguardo ansiosa, com medo, inerte e curiosa. Será
recidiva? Segundo a literatura tenho 70% chance de ter.
E então, dancei, já
era, ou faço a longa via sacra de tratamentos sofridos intermináveis durante 3,
5 até no máximo 10 anos ou desisto e vivo intensamente, sem dor e sem
desconfortos o tempo que me for permitido.
O medo é da quimioterapia, não da
morte. Receio o hospital, as agulhas, os enjoos, as dores, a morbidade, a
enganação, a ignorância de não saber o melhor caminho, a melhor escolha.
A cara de pastel de meu médico me deixa em dúvida, ou ele é pastel
mesmo ou se faz pra não me dar o feedback real, será que está me poupando? Será
que garante que é uma questão de tempo?
Se assim for, considero extremamente
injusto! Quero saber pra fazer escolhas significativas. As vezes fico intrigada
como meu organismo sobrevive após tamanha intervenção, estou despedaçada,
muitas histórias foram extirpadas, as relacionadas ao baço, ao fígado,
estômago, diafragma, bexiga, intestino grosso, reto, peritônio, vesícula,
apêndice e linfonodos pélvicos e abdominais.
Metaforicamente pensando foi salutar a retirada de alguns pedaços,
afinal no baço tirei muita da tristeza e descontentamento que sentia, da bexiga
me despedi dos episódios afetivos desagradáveis, do diafragma diminuiu meu
medo, a ansiedade e a pressa; a extirpação da vesícula permitiu que eu
expressasse mais livremente minhas mágoas, da retirada do apêndice me tornei
menos sentimental e do fígado permitiu desencadear mudanças, possibilidade de
um equilíbrio emocional mais estável. Com o intestino pude eliminar algumas
coisas do passado. Assim suponho...
Dia 24/07 recebi o resultado da tomografia. Foi ruim, assustador,
triste. É como suspeitava, estava emagrecendo, sentia dores laterais e um
desconforto após as refeições. Foi no final de maio que comecei a desconfiar,
questionei meu médico, mas o banzo nada disse, pra variar.
Depois de tudo confirmado, em 16/09/2018, com outro médico, passei
por um ciclo de quimioterapia, restando mais um e depois cirurgia, em novembro.
Ando desconfiada e duvidosa, apesar dos exercícios da fé e da
captação de energias positivas tenho minhas desconfianças, afinal meus sintomas
não cessam, todos os dias continuo com gases, dores e desconfortos.
Não sei a
data, mas suponho que é essa doença que me levará, talvez no máximo 7 anos. Mas
o que me deixa mais inquieta é não ter certeza, meu péssimo vício de querer
controlar, ter domínio sobre minha vida, que afinal nem me pertence mais.
O que me resta mesmo é o cultivo de minha paz interior, é o viver
amorosamente com e no mundo, é esquecer que existe o amanhã e seja qual for a
data, estarei pronta pra estar serena, tranquila e agradecida. A beleza do
mundo não é física, e sim vibracional. Peço, busco e gostaria de estar zen 100%
de meu tempo. Um desafio enorme, afinal a interação com o mundo e pessoas é
imensamente desafiadora e assustadora.
Meu parceiro sofre, assustado e temeroso. Seu amor e cuidado é tão
reconfortante, sinto-me firme e plena, muita gratidão, muito aprendizado por
ser assim amada.
No dia 24/09 as 11:45 iniciei o segundo ciclo do protocolo. Estava
indo tudo bem, mas quando colocaram a última medicação, a carboplatina, me deu
alergia, meu corpo rejeitou tanto veneno! que susto!
Já estarei platina resistente? Se sim, então ficará mais difícil controlar
as coisas!
Mas quero crer que já estou curada e meu anjo da guarda não
permitiu o envenenamento do meu corpo e interrompeu a aplicação.
Esperei, e tal espera parecia um atravessar de uma galáxia, mas
finalmente fiz a cirurgia dia 23/11, numa sexta feira, às 17 horas, em Curitiba. Correu tudo bem, como sempre meu organismo é forte e
recupera-se bem e rápido. Meu preparo pra cirurgia, foi fazer hidroginástica,
pilates, caminhei e alterei minha alimentação. Talvez isso tenha ajudado.
Detalhes da cirurgia, o que tirei, quanto, onde nada soube e nada me inquietou,
aguardei o resultado das biópsias que me indicaria o que foi tirado e o que
ainda tinha contaminação. Assim que recebi o resultado, soube que foram 17
peças retiradas, destas cinco ainda tinha doença. As contaminadas estavam na
pelve e fígado e diafragma. Após 34 dias de cirurgia fiz os exames de sangue,
entre eles o CA 125 cujo resultado foi péssimo: 45, mais alto do que devia! E
comecei a sentir dores diferentes das do pós operatório, do lado esquerdo
próximo ao rim, cólicas, dor ao redor do umbigo e em 01 Janeiro, pressão no
ânus com constantes idas ao banheiro. Será o bicho, mesmo após cirurgia? Novos
exames dia 17/01/2019 CA 125: 77. É o bicho!? A médica acha que não. Inicio novamente
às quimioterapias dia 23/01.
Domingo, 27/01/2019: Fiz quimioterapia na quarta! Horrível,
vontade de desistir! Pra que tanto enjoo e tanto esforço por suportar ? Pra que
passar por isso? Chega, cansei! derrubada no sofá sem força, sem vida, sem
brilho, sem nada, só o estômago rodando e esses cheiros nauseando. 1 omeprazol,
1 cipro, 2 dexas, 1 fenergan, 2 plasil, + 2 dexas antes dormir + 1 rivrotril=
10 bagas por dia!!!! Puta que pariu, esperar até o corpo aguentar! Prolongar
vida ou sofrimento? Saco esses remédios! Quarta reinicia tudo de novo ufffaa!
Não reiniciou, minhas plaquetas baixaram ao extremo. Só dia 20/02, meu CA 125:
55, ainda não tá bom! Que desespero!
Leio coisas do Lair Ribeiro e me assustam, diz que apenas 2.5% de
quem faz quimioterapia sobrevive! Merda!
Cada caso é um caso! Vi o filme o poder da cura: Fé e meditação.
Alimentação, reike, e tudo mais da medicina holística. Afff Maria, será? Onde está
minha fé? Difícil crer!
Pronto agora baixou o CA 125 pra 15, estou mais aliviada! Passei
mal nessa penúltima químio, vômito e fraqueza. Mas tomei um soro e passou, tudo
passa!
Dia 21/03/2019 terminei meus ciclos de quimioterapia. Após 4 dias
surgiram os efeitos, fiquei fraca e debilitada, sem forças pra andar, muito
enjoos e vômito. Precisei novamente de soro e glicose. Levo vários dias até me
recuperar. Penso que vou morrer, a respiração é um fiozinho tênue. Até agora já
foram 20 sessões, vamos aguardar 2 meses e fazer os exames novamente. Vou
viajar pra Londres, ficar com meu irmão, passear, me distrair. Estou desconfiada,
amedrontada, quero não pensar!
Em Londres não senti nada, estava ótima!
Mas na semana seguinte à minha volta, início de junho já comecei a
sentir minha barriga estranha, cólicas que parecem menstruais, dor lateral na
altura do rim esquerdo. A barriga inchada após as refeições e as fezes
diferentes mais pastosas e frequentes. De novo! Em 26/06/2019 exames indicam
segunda recidiva, muito pouco tempo em remissão! Nem 3 meses! Isso tá muito
acelerado, o bicho é feroz e esganado. Lá vou eu pra mais uma batalha,
resignada e pacientemente. Sou resistente à platina! Tô fodida, pois medicações
existentes e eficazes só a base de platina. Vamos ver até onde aguento. No
entanto estou calma, sem ansiedade, deixando o barco correr e aguardando novos
exames. Pressa pra que? Há hora pra tudo, controle de nada! Não vou respirar a
doença, vou ficar na vida, nas pessoas ao meu lado, no sol aquecendo o inverno,
no miar da gatinha, na fala incessante cheia de vida da neta, no tocar e no olhar
doce do meu amado...vou estabelecer uma relação incondicional com a vida que pulsa
agora dentro de mim! E escutar e esperar o que o universo definiu.
Bora para o terceiro protocolo, doxorrubicina mais o Avastim,
iniciei dia 19 de agosto de 2019, serão oito sessões da medicação doxorrubicina de 28 em 28 dias e
o Avastim tomarei por um longo período de 21 em 21 dias. Primeira sessão tranquila, poucos enjoos , fadiga e desequilíbrio corporal. Mas bem tolerável. Dia 23 coloco cateter. Segunda sessão de Avastim dia 09/09, super tranquila! Dia 19/09 segunda da doxo, mais complicadinha, cansada, infecção urinária, mais fraca.
Em setembro de 2020 ainda sobrevivo, tirei ferias no natal e ano novo, em janeiro volto às quimios, firme e forte! Em fevereiro acabaram as sessões da doxo, recebo somente a manutenção. Já não fico mais frágil e debilitada. Tenho sequelas nas mãos, pés, pele, fôlego entre outras. Fiquei três meses só com o Avastim e volto a sentir sintomas da presença de células ruins, mesmos sintomas do princípio.
Lá vamos nós pra terceira recidiva....08 de outubro de 2020, tomografia apresenta presença de 2 micronodulos no pulmão, crescimento da doença nos linfonodos, nódulo no fígado , nódulo no retosigmoide. Novas estratégias, medicamentos e aguardar resposta positiva sem muito sofrimento físico.


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