sexta-feira, 12 de julho de 2019

Mudanças no galinheiro mudam a vida por inteiro!


Após constatado grávidos eu, com 16 e ele, com 21, tínhamos ido morar em outra cidade, no interior, pois ele passara no vestibular e seu pai propôs investir nos estudos e bancar o casamento.
Apesar do desespero em constatar que eu havia feito uma cagada imensa ao eleger um marido desequilibrado emocionalmente, esquizoide e desajustado, eu deveria continuar! Não tinha saída, não saberia resolver de outra maneira, estava envergonhada a tal ponto, que voltar atrás pareceria covardia e derrota. 
Não era meu orgulho falando mais alto, mas creio que a minha índole passiva, dócil e confiante que me fez crer que tudo daria um jeito. Eu era esperançosa, e acreditava que era capaz de mudar, crescer, vencer, superar, uma confiança interna muito forte e convicta, estranhamente intuitiva.
Mas também eu me encontrava muito melancólica na gravidez, diante das dificuldades, sozinha, num lugar estranho, e com um estranho grosseiro, me reclusava tristemente em casa, com minha barriga crescendo, meus sonos extensos e enjoos constantes. Eramos eu e o bebê, sozinhas num apartamento pequeno, ajeitado, com louças e utensílios da cor vermelha e laranja e as porcelanas brancas. Nada sabia fazer de comidas alternativas, um mingau, uma vitamina, eu tinha hábitos alimentares diferentes, e enjoada era impossível querer acertar uma comida!
Sozinha pelas manhãs, escutava música, limpava a casa, lavava roupa e dormia. A filha crescia e se mexia, muito! Conversava comigo até nas madrugadas, forcando- me ficar acordada pra escuta-la, sempre agitada. Mudamos de casa mesmo sendo dependentes financeiramente do sogro, pois o marido precisava ostentar, gastar, ter seus luxos e hobbies, assim inventou de ter um cão de raça e com pedigree, um animal imenso, feroz, nervoso e inquieto, um doberman, o que nos obrigou à uma primeira mudança de casa.
Era uma casa enorme, espaçosa, dois pisos, madeira e com um quintal árido mas no qual a cadela teria espaço. Não fui feliz lá, não gostei da casa, passei meus dias chorando jogada na cama, mais sozinha do que nunca! 
Era o primeiro semestre de 1977 e eu cursava o segundo ano do colegial, pelas manhãs, num colégio público, onde fiz uma amizade com uma menina curiosa, comunicativa e ávida pelas novidades da capital. Eu introvertida e ela extrovertida. Frequentei muito a casa dela, sua família me acolheu, era mais feliz com ela do que sozinha. Se tornou a madrinha da filha que eu esperava.
Nas férias de julho, retornamos pra Florianópolis, lugar em que ele nunca abandonou e sempre retornava. Desistiu de dar continuidade ao curso de biologia que ingressara em março. A filha nasceu em 25 de agosto de 77, eu com 17 anos, de parto de cesariana, após longa espera, fui as 11 da noite com dilatação e esperei 12 horas até a médica resolver fazer a cirurgia. 
Estávamos amontoados dentro da casa da sogra, num quarto dividindo espaço com a família e suas irmãs e eu queria morrer!!! Odiava aquela situação, eu era intrusa e tratada como intrusa. 
Eu era diferente, e não compartilhava os mesmos valores e estranhava tudo, mas era dócil e quieta, sofria calada. 
Após o nascimento da menina, o sogro comprou uma casa recém construída, no bairro do aeroporto, onde estavam surgindo novos loteamentos. E meu marido convence seu pai a investir num negócio de produtos naturais, o empório Sol da Terra. Nova mudança se realizou e fomos eu, ele e a filha, com a cadela e o segundo filho já na barriga, rumo ao mangue.
Durante minhas estada forçada ao lado da sogra, de julho à setembro eu comecei a aprender a cozinhar e observar o estilo de comida até então diferente de minhas referencias passadas. E passei a produzir quitutes para o empório, cuidando da casa, da filha, da barriga e da produção diária para ser vendida. 
O segundo filho nasce, calmo, sereno, tranquilo, dorminhoco. Fácil trato, alegria em cuida-lo. Sozinhos ficávamos durante o dia, a noite o marido chegava e cheirava as crias. Havia uma relativa paz, até ele se inquietar e desejar novos rumos. 
Vendeu a casa e o empório e fomos morar no centro, na casa em que a família morava e já havia se mudado para outro bairro. 
Com a venda do empório e da casa, montamos um restaurante natural, e depois de pronto, passadas duas ou três semanas de funcionamento, foi vendido. 
Novamente outra mudança, fomos morar em São Joaquim, na casa de um amigo dele. Todas as decisões era ele quem tomava, me restando a função da casa e crianças. Mesmo estando lá no mato eu não era feliz, pois aquelas companhias não eram bacanas, fumavam maconha o dia todo, eu era a hóspede e não ditava as regras. Adorava o amanhecer, pois era o momento que eu me escapava com as duas crianças e me sentia livre e tranquila, lavava as fraldas num arroio e na volta fazíamos rosquinhas de ricota no forno à lenha. O menino fez um ano quando estávamos por lá e no mesmo dia começou a caminhar. Como de costume o marido não parava em casa, sempre havia uma desculpa pra ir pra Floripa, e mantinha o fornecimento da maconha para os amigos. 
Por fim, voltamos pra Floripa e nos enfiamos na casa de minha mãe até alugar um engenho velho de chão batido, sem água encanada e sem luz numa praia deserta. Ratazanas enormes desfilavam pelo madeiramento rústico do telhado e faziam a festa nos cereais e demais comidas à vista. Para ter água eu carregava no lombo baldes de água que pegava numa bica distante. Mantinha a casa sempre arrumada e curtia muito minha solitária viagem de viver a vida mais natural, reservada e simples. 
Eu estava com dezoito anos, pura inocência, vivia um ideal, sem antecipar um futuro. Aliás, fazer planos com o marido era impossível, portanto me adaptei e passei a viver o agora. Como eu era mansa!
Chegou um tempo que marido quis voltar pra cidade e me enfiou na casa de minha mãe novamente! Eu não aguentava tanta instabilidade, já vinha triste desde nossa mudança do aeroporto, passava os dias deprimida e desesperançosa e com a desistência da casa e a vinda para minha mãe resolvi me separar. 
Não durou muito, pois precisava ter estrutura para as crianças e morar com minha mãe era o pior dos mundos! Outra mudança!
Cedi às insistências em me convencer a voltar, e alugamos um apartamento próximo ao centro, região tranquila e familiar. Eu dormia em quarto separado, mas ele sempre foi sedutor e inquieto e eu sempre passiva e positiva, até que um dia fui parar na cama do casal e fizemos um bebê. Fomos abortar e tive muita hemorragia, parando no hospital! Em seguida outro filho e com uns 5 meses de gravidez, fomos rumo ao mato, próximo a Anitápolis, Rio Novo. 
A turma alternativa convenceu o homem do dinheiro, meu sogro, a investir num sítio pra criar uma clínica com ofertas alternativas: acupuntura, massagens, casa de repouso com comidas saudáveis e da terra. Enfim, partimos sozinhos para lá eu, o marido, os 2 filhos e um no ventre, enquanto os demais nunca apareceram!
No mato tínhamos vacas, que eu buscava pela manhã para ordenha-las, plantação de batata doce, abóboras, chuchu, e algumas caixas de mel. Rio Novo também foi um dos lugares que vivi comigo mesma, sozinha com dois filhos e outro na barriga. Como sempre eu ficava sozinha com as crianças; era muito frio, noites geladas, barulhos estranhos, muito medo da noite! O bebê na barriga deve ter sentido isso!
Colhia e cozinhava muita batata doce, chuchu, abóbora. Água quente só na serpentina do fogão a lenha, luz de velas, escuridão, dias curtos e solidão.
O marido, para compensar a sua ausência e provavelmente para mais mão de obra ao trabalho, trás um casal para viver conosco. Com hábitos e valores totalmente diferentes, minha dificuldade se estampou e me vi encurralada sendo obrigada a conviver com estranhos. Desnecessário afirmar meu desespero e tratei de comunicar a situação insustentável. Talvez por dificuldades de desfazer o combinado com o casal, ou até mesmo a constatação de que no Mato não teríamos o sustento para a família que crescia, ele desiste no Mato e partimos para Blumenau, em sociedade com sua prima, para abrir um restaurante natural, na esquina da universidade local. Nessa época eu já não acreditava e não me empolgava com nada, sonhava com uma vida longe de um marido desequilibrado, mas havia as crianças. Era infeliz e não amava aquele homem ao meu lado. Mas não via saída, não vislumbrava uma atitude ousada e corajosa, afinal eu acabara de ter um filho ao chegarmos em Blumenau e ainda necessitava de cuidados.
Em Blumenau, morávamos numa casa grande, semi mobiliada, moveis antigos, e bem agradável. Embaixo montamos o restaurante, em cima a residência. De julho até o início do verão ficamos por lá.
O maldito me perseguia feito um louco, mesmo amamentando pouco, ele sentia meu cheiro de mulher e avançava e eu fugia. Mas era impossível com a minha passividade e com o medo de seus ataques e berros. Fizemos Lucas, passei a enjoar e dormir demais, era horrível, quando pensava em me livrar do homem, mais crias gerávamos.
No verão ele manifestou interesse em voltar, gostava da praia, do futebol e da família. Eu não fazia questão de voltar, e sim de me estabilizar para criação dos filhos, me importava a independência! Porém, a inquietude dele falou mais alto! Criou uma briga, rompeu de forma agressiva e violenta com os sócios e me disse que voltaríamos pra Floripa. Eu me neguei e ele surtou quebrando uma cadeira em mim. Não houve jeito, ele tava decidido e não iria ficar! E eu sozinha com 3 filhos e mais um na barriga ficou sem chance sustentar a ideia de não acompanhá-lo.  Fomos nos enfiar na casa de minha mãe, pra variar. Saímos de Blumenau, já com os 3 filhos e um no ventre e fomos morar próximo à Joaquina, e estabelecendo uma sociedade com um casal para a produção de sanduíches naturais e demais quitutes, chamava -se Sabor & Cor, na rua Vidal Ramos. O bebê nasceu ali, setembro 1982, numa casa de madeira, cor laranja , cozinha grande conjugada com a sala, dois quartos e banheiro. Eu cuidava das crianças, roupas, comida e da produção dos quitutes. O recém nascido chorava muito, e eu não conseguia dar conta de todo serviço, vivia estressada e angustiada. Foi um breve tempo, mas sentia um peso, não conseguia encontrar prazer, me sentia desesperada. Em seguida o marido se estranhou com os sócios e desmanchamos a sociedade e o negócio. Fomos então de mala e cuia morar no Centro de Floripa, numa casa grande que na frente foi estruturado um negócio de moveis usados, colocando à venda nossos móveis. Odiava a situação, não concordava com o estilo de vida que estava se perpetuando, preocupava-me com a educação formal dos filhos, e aquele homem me repugnava.
Amor não existia desde sempre, a compaixão foi se extinguindo e em janeiro de 1993, decidi romper de vez, aproveitando que estávamos desfazendo o negócio de móveis usados, pois não havia dado certo, e conforme sua sugestão, eu deveria ter que me enfiar novamente na casa de minha mãe, porem resolvi ser firme e decidida, informando que somente eu e crianças iriam pra casa de minha mãe e que a partir de então estaríamos separados! Foram então 6 anos de união, de janeiro 1977 a janeiro de 1983. Não foi fácil!
Também nada fácil voltar e estar ao lado de minha mãe, me sentia enfrentando os leões. A separação não foi consensual, ele se tornou agressivo e desorientado, impossível manter um diálogo ou estabelecer algumas condições necessárias para a manutenção das crianças. 
Meus irmãos menores que viviam na fazenda, em outra cidade, estavam voltando e queriam seu espaço de direito e eu estava sobrecarregando o ambiente. Eu estava perdida, sem dinheiro, sem formação, sem perspectivas. Mas fui forte, engoli os maus tratos e agressões de minha mãe, enfrentei a vergonha e a humilhação de estar na estaca zero e fui me adentrando no mundo da sobrevivência, onde o preço a ser pago era alto e cruel. 
Eu estava com 23 anos e já tinha 4 filhos, eu não havia completado minha formação escolar básica e nunca havia tido um emprego de carteira assinada. Não fazia ideia de como começar. Comecei fazendo o quê sabia, cozinhar! Fazia quitutes e minha mãe, ainda na ativa, vendia de lanche no serviço dela. Depois fui cuidar de crianças, tarefa que dominava com destreza. Fazia yoga e dava aulas. Percebi que precisava investir mais pra que pudesse ter melhores condições de sustento. Então larguei o yoga e fui terminar o científico e fazer o vestibular. 
Após 5 anos dando aulas em escolinhas, em 1988 entrei na universidade. Morei 7 anos, de 1983 à 1990 enfiada num quarto com 4 crianças na casa de minha mãe. Passava os dias longe, não suportava a convivência com ela, abandonei meus meninos, pois sentia que não sobreviveria ali com ela. Senti muito essa distância, me dilacerou, estraçalhou meu coração e teve repercussões drásticas e insuperáveis. 
Foi uma época de muitas dores, tristezas e desespero.


Janeiro de 2019

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