terça-feira, 17 de novembro de 2020

O chamado


 Esta noite senti o invisível presente

Os fluídos da vida, da existência, do universo
Meus sentidos estavam apuradíssimos
Ouvi o barulho interminável do silêncio
A voz da vida me atiçando
A presença do vazio e da escuridão me chamando
As urgências aceleradas
O aparentemente simples em altamente complexo e assustador
Foi uma epifania arrasadora
Tive medo do instante da morte!

É preciso esvaziar o saco
Perder a hora
Deixar cair
Nao segurar, soltar, deixar rolar
Rio encontrar o mar
Insignificar
Relevar
Escorregar
Calar, silenciar, aquietar
Perder, esquecer e desintegrar.

sábado, 14 de novembro de 2020

 Está chegando a hora

O cerco está se fechando

Hora de comer o que quiser
Hora de mandar o médico a merda
Hora de parar de se iludir
Hora do enfrentamento
Hora de planejar a finitude
Hora de investir no melhor pra mim
Vou ter flores, doces, amparo e cuidado
Vou rir pelos cotovelos
Vou dançar até cair
Vou jogar pro ar as regras
Vou transgredir minhas proprias leis
Ah, vai ser bacana, só alegria, leveza e paz
Vou sem mala, sem memória

 

terça-feira, 10 de novembro de 2020

Navalha na carne

 



Ja foram muitas!
Físicas e por analogias
Das dores que resultaram um corte com sangue e um corpo dilacerado. Elas passam, cicatrizes ficam, mas logo esquecidas.
Desde cedo, aos quatro anos, após uma mordida de cachorro tomei 30 injeções no umbigo e aos nove anos contraí hepatite viral.
Foram mais de dez procedimentos cirúrgicos, desses, seis com internações e grandes cortes: cesariana (17 anos), laqueadura (38), abdomemplastia (42), parótida esquerda(47) duas citorreduções (57 e 58)
As menores, em hospitais foram a retirada de um sinal grande abaixo da orelha, de um sinal basocelular na nuca, duas do túnel do carpo, colocação e retirada de tres cateters.
De quebra só a clavícula.
Há ainda os sofrimentos de mais de trinta sessões de quimioterapia e de internações hospitalares por conta dos seus efeitos.
As dores da alma são inumeráveis,  pois são aprendizados e maturidade espiritual. Mas doem e muito.
A perda de filhos,  seus sofrimentos,  a dificuldade de aprender e reconhecer erros e acertos, a violência sofrida, o desprezo, a acidez dos afetos, enfim me fortaleceram, apesar que alguns desses machucados ainda insistirem em permanecer.


Fui

Que fique bem claro

Nao tenho medo da morte.
É o fim de um ciclo
É uma semente estourada
Uma flor sem pétalas
Uma árvore seca
Um alimento apodrecido
É uma outra vida
Uma outra estória
Contada por mim, por vós,  por nós

Tenho medo da dor, da falta de ar, de altura, da imobilidade advinda de uma cama, de não poder sentir o sol, a chuva, as árvores.
Tenho medo da falta de amor, do ódio,  da manipulação,  da ira, da traição e da maldade.

Se perderei todas as chances de viver esses medos, então estarei feliz, mesmo morta!



Como estar leve?


Ela está sempre comigo, mas evito seu olhar.

É um cheiro, uma palavra, um lembrança,  tem sempre algo a me cercar.

Tenho medo de sucumbir
Quero chorar, quero sentir
Sentir a perda, a tristeza, a saudade, a dor
Mas me retraio. Não sei se me fará bem.
Receio o aumento do volume das minhas células doentes e ressentidas.
Mas esse aperto dói,  gostaria de não represa-lo, deixar correr meu mar de lágrimas,  ter o aperto na garganta, a coriza escorrendo como uma cachoeira e por fim ter a cabeça  latejando, pesada e dormir...

Se

 


Se a cura pela fé te deixará mais tranquilo e esperançoso,  tudo bem, eu respeito
Se creres em milagres, tudo certo,  apesar de serem muito raros e demorados
Se sugeres  outra alimentação acreditando mudanças repentinas, bom pra sua saúde e disposição
Se pensas em mim atrelada à uma receita, mandinga, casos de cura, sem problemas,  vc está querendo minha presença e meu cuidado.
Mas, por favor, de tudo que te esforças para me ver bem, faça também um tantinho a mais e respeite e me ampare nas minhas crenças,  mesmo sendo tão cartesianas e mentais.
Preciso de afeto e generosidade,  preciso que me ensines a sentir e não somente a pensar...



Retorno IV

 Novamente ele chegou com inspiração e dor

É uma doença que exige força,  determinação,  paciência,  sublimação e resignação.
São muito doídos os efeitos das quimioterapias. Eles destroçam nosso organismo, destroem nossos dias e não há luz do sol, luar ou mar que nos faça alegrar.
São dias de tristezas, dor e escuridão.  

É quando morremos para a vida mesmo estando vivos.

Qual a finalidade? Há sentido em estender a vida por alguns poucos anos mais, 1 ou 2 se durante esse período ficaremos impossibilitados de viver a luz, o sol, a alegria, a saúde?
A decisão é difícil! Estar vivo para o outro? Rastejar pra não se entregar?
Não faz sentido pra mim.
E se eu me perguntar: quero estar viva para quê? Quais são meus planos?
Não sei a resposta. Pra comer, plantar, ler, comprar, gastar, viajar, não,  essas coisas não são tão valiosas a ponto de compensar o sofrimento advindo da dor e miséria de uma quimioterapia!
Mas é pecado, covardia, heresia não se tratar?

Um Medico, um cuidador?

Eu gosto dele, é jovem, tem a idade de minha filha e estar com ele é ter a lembrança dela comigo por alguns minutos. 

Ele é liso, escorregadio e esconde a realidade.
Há temor e insegurança em sua postura, não sabe o que dizer pra fugir dos fatos.
Evita ser realista e utiliza do argumento que cada caso é diferente, há especificidades a serem consideradas. Tenta escapar das estatísticas. Me poupa ou tem receio de assumir posturas?
Mas ao mesmo tempo é ortodoxo e protocolar na hora de definir um novo tratamento, refugia-se no senso comum, desconsiderando totalmente a especificidade de cada indivíduo.
Não ousa, não há coragem, não amplia fronteiras e não enfrenta desafios, apenas faz o que sabe ou o que seus pares já fizeram.
Isto é cinismo, é o não comprometimento com seu paciente, é falta de empatia, de amparo e generosidade.
Ele não faz contato, ele vê e não toca com a alma.


Mereço isso de novo?