terça-feira, 17 de setembro de 2019

Como fazer diferente?


Hoje não tô legal! Sentimentos triplicados! Efeitos de uma quimioterapia!

Cansei de ser forte, controladora, certinha, exemplar, resolver tudo, cuidar da casa, educar criança, lavar, estender, recolher roupas, varrer, limpar, sacudir, comprar mantimentos, fazer camas, dobrar e guardar, vestir -se, pentear-se, escutar barulho intermitente da televisão, subir escadas, abrir janelas, colocar travesseiros ao sol, fazer almoço, chás, jantar, resolver papéis, pedreiro, pagar contas.....

Gosto de tomar banho, mas me controlo, não fico muito tempo, uma pena, deveria ficar mais.
Gosto de sair, mas não gosto de voltar. 
Gosto de abraços, mas recebo poucos, gosto de conversar mas não tenho com quem. Amo rir!
Gosto de café, mas tomo pouco, amo sorvete mas não posso. Gosto de caminhar, mas receio ir sozinha .

É de entristecer, volta e meia fico deprimida diante de tantas limitações que esse momento trás. Mas o que fazer... essas medicações afundam meu humor...

17 setembro 2019

domingo, 15 de setembro de 2019

Maioridade e solteirice


Era janeiro de 1983
Foi o ano de minha suposta libertação!
Mera ilusão, a vida é dura e infalível, só na morte sossegamos.
Poucas malas, sendo que a mais leve carreguei no colo.
Mãos carregadas de piás.
Jurava estar livre, do medo, da violência e da dependência.
Mas constatei estar presa ao medo da incerteza e do futuro.
Pensei estar partindo do inferno
Mas partia para uma batalha pior, solitária e escura
Quem decidia era eu, quem se estrepava éramos nós .
Havia vantagens, podia viver uma juventude desconhecida e assim conhecer a maioridade.
Mas a confusão era grande, ser mãe e mulher são sentimentos distintos
São posturas diferentes
São papéis deslocados
Me virei do avesso, me vesti e despi da culpa, me meti em infernos surreais e desconcertantes do meu querer.
Foi aprendizado, desnecessário, mas em outras circunstâncias, a paz seria meu lar.

Inquietude por segurança



Eu tenho um medo, traduzido em desespero que só agora começo a reconhecer e quem sabe esse processo me acalme a alma.
Passei a vida construindo casas, foram oito no total e estou iniciando a nona.
Que loucura é essa?
Nasci numa casa onde tinha que dividir tudo, minúscula e barulhenta. 
Na minha infância dividi o quarto com mais 4 irmãos homens e na adolescência fui pra sala, dormir num sofá cama, em meio a alucinante energia e dinâmica das longas noites de estudos, discursos ou discussões.  
Dessa situação desconfortável e desajustada fugi, na ilusão de poder ter minha própria cama. 
Mas passei a dividir com os filhos na barriga e com um marido insistente que não sossegava de parar de me assediar.
Com ele foram tantas casas, todos lares inseguros e inconstantes, não sabia o dia de amanhã, se haveria comida, abrigo, sono, nada era garantido.
Assim que consegui me ver livre da dependência de pessoas inconstantes e imprevisíveis, tratei de garantir um lar, um abrigo onde me acolher. Até aí já tinha quatro filhos, e nunca me adaptei ao barulho, às discussões e ao intenso movimento do ir e vir. 
Querendo estar sempre sossegada e no silêncio, tratei do sonho de construir um abrigo para cada filho, desse modo, estariam com suas vidas cada um no seu ritmo e eu estaria garantindo minha paz, meu silêncio, sabendo que estariam bem abrigados do frio e das intempéries. 

04/09/2019

Molecagem


Os meninos eram muitos, mas o espaço restrito
No pé de carambola, faziam a festa, deixando rastros amarelados pelo chão.
Já no pé de amora, o de mais difícil alcance, as roupas saiam manchadas de roxo, as unhas pretas e volta e meia, queimados das bichas cabeludas.
Na falta do que fazer, eram as obras de construção invadidas, para pular e brincar nas areias e se perderem nos labirintos.
No parquinho, mesmo com balanço, gangorra e carrossel, a escolha era explorar as árvores, viviam nas alturas!
De tanto brincar, cansados e extasiados, voltavam para casa com brilho no olhar.
Esses eram nós, os seis filhos de Maria

Uma pedra



Chegada a hora,
Eu não sei pra onde iria
Eu fiquei desnorteada e assustada
Eu queria o sossego, a paz, o nada fazer
Eu queria me cuidar, me olhar, me sentir , me conhecer
Eu queria um tempo pra mim, um tempo sem hora, sem prazo, sem justificativas, sem dever.
Fiquei sem chão, sem ter o que dizer
Apenas aceitar, resignadamente aceitar.
Pensei no outro, mais uma vez...
Amenizei e evitei a dor do outro
Achei ser capaz de sustentar o peso da responsabilidade
Pensei poder proteger, cuidar
Bobagem, acabei me mutilado, me anulando e me iludindo em pensar conseguir ajudar.
Não quero e não posso ajudar.
Quero a minha liberdade
Não quero estar cuidando de novo de pessoas, seja lá quantas forem, não consigo, não posso continuar me adoecendo lidando com pessoas doentes, perturbadas e desestruturadas.
Socorro, quero ir embora, quero ajuda pra cuidar do que me pesa, ou daquilo que não me pertence e não me atrai.