segunda-feira, 8 de junho de 2020

Restituindo à vida


Eu era uma mocinha, estudava, praticava esportes, às vezes saía a noite, e sempre procurava estar longe de casa. Tinha muitos conhecidos, mas poucas amigas, sem contatos diários com primos que também eram poucos. 
O sentimento de deslocamento era constante. A rua não era extensão da casa, exercia papeis diferentes e com muito estranhamento, algo não se encaixava, não havia diálogo, consentimento e empatia entre os dois mundos. 
Todos nós, irmãos, sentíamos uma dicotomia, uma distância e uma diferença monumental entre esses mundos. Levávamos uma vida esquizofrênica, dividida, alucinada, instável e inquieta.
Onde queríamos estar? Talvez juntos, talvez distantes do caos familiar, mas não muito confortáveis nas ruas, nos grupos; percebíamos nitidamente as diferenças, e a leveza e a liberdade das ruas nos atraía. Mas também lá fora não havia amor, mas tinha horizonte. Como estabelecer relações tranquilas, fortes, verdadeiras sem o respaldo de um berço confiável e estável?
Diante desse cenário, me sentia perdida e desorientada, e com dificuldades de escolhas sensatas. 
Desde o momento que o mundo passou a se tornar maior, com mais pessoas e situações participando do meu processo de amadurecimento já me via tateando insegura, cautelosa e arisca, com muito receio do erro, da ira e da desaprovação. 
Desse modo fui indo, ganhando espaço e experimentando o monstro desconhecido. E foi a leitura distorcida do amor que me cativou e me arrastou para longe de cena. 
Pensei ser amor, mas era a dissimulação do poder e da posse. Enfim, sucumbi e apostei numa fuga estratégica pensando em abastecer minhas carências e confortar minhas dores.
Foi uma ação suicida, mas após seis longos anos sobrevivi, mesmo cansada e desiludida.
Como estar de volta à cena? Como ficou o mundo na minha ausência, o que perdi e preciso recuperar? 
Pensei em resgatar, começar de onde parti, mas estava em outro mundo, outro momento e eu era outra pessoa, ainda insegura, receosa mas com uma mala nas costas, cheia de dúvidas e demandas. Perdida.
Eu precisava ampliar minha rede de amigos, um trabalho, uma nova e diferente vida, pois nada sabia, ingressar meus filhos na escola, dando-lhes rotinas e amigos e me reconhecer como mulher adulta, separada, e me tornar independente do suporte financeiro de minha mãe. 
Assustada com tantas urgências fui regressando aos poucos, retomei minhas aulas de yoga, fiz um curso com o apoio de meu irmão e passei a ministrar aulas, ter alunos e conhecer pessoas. Mas meu ganho era mínimo e nada recebia de pensão alimentícia, então por acaso, não lembro como, encontrei uma antiga conhecida de colégio e ela me propôs um trabalho com crianças no seu jardim de infância. Meu primeiro emprego com carteira assinada que durou 5 anos, de 1984 à 1989. Em paralelo às aulas do jardim, pelas manhãs, também fazia e vendia lanches para as crianças do turno vespertino e duas vezes na semana ministrava aulas de yoga pela manhã, das 6 às 7. A correria era grande, mas deu pra manter meus dois filhos menores na mesma escola que eu trabalhava, enquanto os dois maiores já estavam sendo alfabetizados. Foi duro, foi suado e sacrifiquei momentos de atenção e cuidado com todos os filhos, foi o início de uma criação distante e acelerada, com a redução de minha presença e de contatos afetivos.
Durante os cinco anos que eu estava atrelada à escola, foram intensas as vivências sociais, afetivas e profissionais. Me reconheci uma mulher profissional, com muito gosto por descobertas, aprendizagem e apreensão de conhecimentos. Fui fisgada pelo prazer da produção intelectual, retomei as leituras diárias acrescentando temas técnicos pedagógicos que me davam suporte e ampliavam meu campo de atuação. 
Esse processo da descoberta de meus dons e prazeres profissionais, acendeu em mim um desconforto: como crescer sendo uma eterna e dependente professorinha de patrões capitalistas. Me deparei com limitações e restrições e resolvi voltar a estudar. Assim, além de trabalhar na escola nos dois turnos, matutino e vespertino, passo a estudar à noite até as 22 horas. E meus filhos foram obviamente sacrificados, porém só dessa maneira, conseguiria um trabalho e salário decente, uma realização financeira e profissional.
Apta a prestar vestibular, em 1988, com 28 anos, ingresso na universidade, mesmo não sendo a escolha do curso perfeita. Desde então, cursava a universidade pelas manhãs, trabalhava a tarde na escola, que no caso meu salário foi reduzido pela metade e a noite lia, estudava ou namorava. Nessa época já estava numa segunda relação estável após separação, mas ainda muito imatura e carente, projetava no outro minhas necessidades e me iludia em pensar que o outro preencheria minhas faltas. 
Em 1990 decido abandonar o emprego e com mais duas amigas abrimos um berçário. Inútil dizer que falhamos, nenhuma de nós com perfil capitalista e com dinheiro para a manutenção do investimento. Após abandonarmos o empreendimento eu passo a ser bolsista num órgão central que dava suporte à todas as bibliotecas da Universidade. Ganhava uma miséria e minha mãe nos sustentava, como desde sempre.
Meu desespero foi grande quando me formei e não havia nenhuma perspectiva de trabalho, apesar de continuar trabalhando na biblioteca, agora com contrato somente por um determinado tempo. E foi com essa oportunidade de viver na prática os conceitos teóricos, que consegui aprovação, em quinto lugar, no primeiro concurso público que fiz. Porém antes de saber do resultado do concurso, ingressei no mestrado em Campinas, SP com bolsa da CAPES. A essa altura meus filhos já estavam habituados a viver sem minha presença, e supondo que minha ida pra São Paulo seria um sacrifício a ser feito para conseguir uma maior garantia de trabalho. 
Meu relacionamento já vinha num processo de desgaste, não havia perspectivas de emprego e então parti e passei o ano de 1993 profundamente triste e desolada com a distância dos filhos e que me afetou drasticamente. 
Ainda em 1989, com o impulso e apoio do meu companheiro iniciei a construção de uma casa, ao lado da casa de minha mãe, no mesmo terreno. Recebi também ajuda de meus pais e de meu irmão querido e tal realização foi um marco nas nossas vidas, entramos na casa no Natal e ainda sem luz, mas a necessidade do distanciamento de minha mãe era tão grande que dormimos à luz de velas, todos juntos.
Em 1994 ingresso na Universidade como professora substituta e fico até 2001, sete anos. Mas nesse ínterim, em 1997 sou chamada para assumir o cargo de bibliotecária na universidade, fruto do primeiro concurso que fui aprovada. Me torno uma funcionária pública estadual. Mas antes disso, durante o período fiz vários concursos, onde mesmo sendo aprovada, não era chamada e eu buscava alucinadamente um trabalho com vínculo duradouro e que trouxesse estabilidade financeira para não faltar nada para meus filhos e me tornasse livre da escravidão com minha mãe. 
Nessa época, devido às constantes tensões, tinha dores espalhadas por todo corpo que me dificultavam o sono e meus movimentos diários, desenvolvi a fibromialgia, cujas dores não havia alívio. 
E foi também em 1994 que conheci meu companheiro e com ele até hoje permaneço. Um parceiro calmo, amoroso, tolerante, confiável que me trouxe a paz e me fez conhecer o amor. Jamais tinha tido contato com pessoas amorosas e puras, cujos gestos, palavras e atitudes eram a expressão da paz, da segurança e da confiança. Foi um alento, uma "graça" recebida para que eu tivesse forças pra viver o que me aguardava. Essa convivência me possibilitou, às duras penas, a viver melhor minhas relações e aprender a ver o outro. 
Inicialmente no trabalho eu reproduzia meus valores brutalizados de austeridade, de impaciência, agressividade e todas as demais opressões recebidas pelo núcleo familiar e da dureza e aridez da alma e do coração. Havia ainda muito à aprender!
Após 6 meses de trabalho sou promovida à coordenadoria e dois anos depois assumi o cargo maior na área, a Direção. Enfim, realizei uma carreira profissional significativa, conforme havia intuído lá naquela escolinha onde dei início a minha trajetória e atuei durante 23 anos como funcionária pública.
No trabalho não foram anos sempre harmoniosos, os desafios e dificuldades faziam parte do meu dia a dia, meu trabalho era árduo pois consistia principalmente em investir no reconhecimento do valor e da importância da instituição biblioteca no contexto universitário. Era um processo de convencimento por meio de ações relevantes e de amplitude, melhorias nas infraestruturas das unidades e investimentos na capacitação dos profissionais bibliotecários. Atrelado ao meu rigor e disciplina profissional havia ainda a família a ser cuidada e protegida. No âmbito familiar a situação era bem mais complexa, havia sequelas insuperáveis pela ausência do pai, a interferência da avó e referências nocivas dos tios. Com todas essas variáveis e mais a minha permanente ausência, houve um desalinho, e a perda do controle. Os filhos adolescentes foram ganhando o mundo sem acompanhamento, soltos e expostos às influências desconhecidas.
Em 2001, quando assumi a Direção, meu terceiro filho teve sua primeira crise e foi diagnosticado com esquizofrenia. O mais moço, largou a universidade e foi ser motoboy, com seu perfil agitado e impulsivo, arriscou sua vida por diversas vezes. A menina, na época em que eu estava em Campinas, havia adentrado no mundo da droga e do álcool. 
Em 2010 descobri que todos utilizavam drogas e álcool, e que eu havia falhado com eles e vencido profissionalmente. Diante das constatações e após um longo processo de culpa, fui aos poucos resgatando o que dava pra ser resgatado, recuperando o contato mais diário e presente com eles e restaurando as relações. Nem tudo se encaixou e muita coisa se perdeu e não havia o que fazer. 
Mas após reflexão e análise dos fatos, concluo que fiz o que considerei relevante, fiz o que conseguia fazer, e definitivamente não possuía o controle de tudo, e jamais conseguiria assumir os papéis que não me cabia, apesar de achar que estava suprindo. Precisei juntar os cacos e continuar fazendo o que precisava ser feito, dentro das minhas possibilidades e reconhecendo que também cabia à eles responderem pelas suas escolhas.
A partir de 2008, após a inauguração do prédio da Biblioteca Central, fui pouco a pouco iniciando um processo depressivo. Parte da equipe de trabalho era hostil e eu sentia a rejeição me cercando. Sensível, vulnerável e frágil emocionalmente devido às questões familiares, fui aos poucos me retraindo e entristecendo, mas meu orgulho, força e minha resistência me mantinham aparentemente firme e indestrutível, sendo que internamente estava desfalecendo, me desestruturando.
Depois de alguns episódios explícitos de rejeição e ódio fiquei profundamente infeliz e somado aos problemas insolúveis com os filhos, sucumbi e fui ao nocaute.
Um desgosto profundo foi minando meu ser mental, espiritual e físico e meu corpo passou a produzir células doentes, distorcidas e estranhas.
Por fim, me afasto à força daquele ambiente nefasto e torna-se urgente me cuidar. Em 2017 minha vida se transforma, perco minha filha, meu filho escravizado pelas drogas, o terceiro isolado e distante em função da esquizofrenia e a infelicidade do do mais novo me arrasam e me arrastam para a dor e ela se transmuta num câncer tinhoso e de difícil controle.