Talvez tenha a sido a fase mais triste de minha vida, mas acho que a maioria dos adolescentes pensam e sentam desse mesmo jeito.
Era tudo muito triste, difícil, diferente e me exigia posicionamentos, julgamentos, escolhas, posturas, sendo que estas estavam atreladas ao meu status entre os amigos, irmãos e meus pais.
Em casa a falta de um espaço meu era angustiante. Queria pensar, ter cama pra me jogar , chorar ou rir, divagar sobre os dias, sonhar em amores, imaginar diálogos, cantar alegrias, enfim, me ver e sentir crescer, perceber as mudanças físicas, contactar com as transformações psíquicas, mas principalmente ter um lugar de pertencimento e seguro onde pudesse recolher meus lixos, atar os cordões, juntar cacos, espalhar dúvidas, refazer meus passos, bagunçar e organizar idéias, enfim fazer o contato diário comigo mesma.
Impossível, em casa não havia escolha, havia regras a serem obedecidas e seguidas e sem espaço pra ser você mesmo, para manifestar nossos quereres, sentir nossas dores ou alegrias, a vigília era constante. Eu nem aviltava a ideia de argumentar ao contrário, sequer supunha uma mudança. Onde antes eu encontrava consolo , no carinho e no afeto de minha mãe, agora nada tinha, eu havia crescido e estava me tornando uma moça, não muito bonita, mas suficiente para minha mãe se assustar e recear deixá- la esquecida, preferia me esquecer do que a si. Mas nessa época mãe não é lá tão importante, ficamos muito mais envolvidos com as novas e desafiadoras relações sociais com amigos. A importância só se fazia quando precisava do colo, do afago de um sorriso, uma mão na cabeça e um beijo terno que nos dava a sensação que não estamos perdidos diante desse turbilhão de novos fatos, sensações, e ocasiões ainda não vividas.
Com dificuldade de reconhecer e manter clareza dos sentimentos aflorados, sempre cativava poucos amigos, elegia apenas um por vez, não conseguia estabelecer com profundidade e fidelidade relações com muitas pessoas.
Tudo me parecia tenso e estranho, conseqüência dos hormônios em polvorosa? Eu sonhava muito, fantasiava uma realidade minha e exclusiva e lá ficava, sempre que conseguia estar sozinha e em silêncio, no ponto de um ônibus, tomando banho, lendo, fingindo estudar e principalmente deitada, esperando o sono me tombar. Nesses sonhos eu tinha um quarto, eu ia a praia, namorava, beijava, tinha amigas que iam na minha casa, tinha roupas bonitas, enfim um mundo pessoal invisível.
Fui crescendo magra e com pernas longas e finas. Cabelos ralos e lisos, sardas não tão marcantes, mas presentes no nariz e bochechas. Aos 13 fiquei mocinha, numa tarde caminhando na chuva, estava encharcada indo pra casa de uma amiga, foi ela que me deu o primeiro e quase único, por alguns meses, absorvente íntimo. Em casa mamãe me apresentou e me limitou a usar os "paninhos", que eram fedidos, sujos e difícil lavação.
Nessa ocasião, eu tive meu primeiro namoradinho, que consistia em pegar na mão, e após um tempo um selinho de chegada, outro de partida. Éramos crianças, com a libido nascendo, e explorando um novo território. Sempre amedrontada, assustada e pouco ousada, apesar do latejar libidinoso, temia ultrapassar meus medos. Nessa época os meninos estavam sempre por perto, nossos encontros, geralmente em frente a casa de determinado amigo(a), pois não pensávamos explorar novos territórios, eram noturnos, e entre colegas de escola. Nos domingos a tarde eu frequentava um clube, e os encontros eram com outros meninos, de escolas diferentes. O jogo da sedução exigia muito mais de nós, a disputa por atenção consistia num conjunto de requisitos que eu sempre me considerava distante de atender: vestimenta, beleza, desenvoltura, educação, leveza, autoconfiança, dinheiro, ostentação entre tantos outros que na minha fantasia eu não possuía condições de sustentar. Mas para meu espanto e alegria, alguns poucos meninos me olhavam, os menos cobiçados obviamente.
Assim, foram poucos os namoradinhos, rápidos e pueris, temia estabelecer relacionamentos mais duradouro pois eram meninos sérios de boa família acostumados a formalidades e quando pensavam em visitar-me, conhecer minha casa, família eu os afastava com desculpas e finalizada a relação. Meu temor era irem em minha casa, não só pela aparência feia e esquisita, mas também temia meu pai, imaginava sua censura, seu discurso inflamado e austero condenando e recusando qualquer proposta voltada à vida fora de seus padrões rígidos e espartanos. Desse modo, poucos foram os namorados e de rápida duração.
Meu primeiro beijo foi assustador! Uma língua inquieta, viscosa e insistente me perturbou as idéias, queria correr, fugir e nunca mais sentir aquilo. Mas o que fazer, se eu queria ter um namoradinho?
Minha primeira relação, aos 16 anos também foi assustadora! Ainda não tinha libido suficiente pra desejar estar com alguém na intimidade, meu interesse não ultrapassava a fronteira da fantasia. Mas o que fazer se eu queria mudar minha vida? Queria um quarto, não necessariamente uma casa, queria atenção mas não com exclusividade, queria uma vida social sem culpa e sem me esconder, queria ter a sensação de conquistar alguém e esse alguém gostar de mim, mas não necessariamente eu gostar desse alguém, enfim, idealizava uma vida diferente, distante de gritos e confusões, mais tranquila e amorosa. Mas minha falta de decisão, de posicionamento, meu medo constante, minha insegurança inviabilizou a continuidade de viver a adolescência em sua plenitude. Fui brutalmente assediada, manipulada e subornada, e após descobrir que minha cegueira não permitiu perceber que a escolha feita foi desastrada e havia trocado seis por meia duzia meu desespero foi mortal, morreu adolescência, alegria, esperança, desejos, vida, entreguei-me ao acaso, me deixei levar. Por forças das circunstâncias, fui uma adulta ingênua, tola, imatura e idealista. Uma menina mulher frágil, dependente e perdida.
Dos 13 aos 16 , três anos de namoricos breves, iniciei o mergulho na leitura, conheci os mais famosos e modernos cronistas brasileiros, muito investimento em esportes, onde gastava minhas energias, sem preocupação com futuro e a construção de um forte vínculo de afeto e admiração com meu pai. Partir foi muito dolorido, deixá-lo foi triste e traí-lo foi devastador. Como eu pude escolher e me entregar para um sujeito tão estranho à tudo que ele me ensinou, um cara tosco, ignorante, vazio e arrogante e cuja única e principal semelhança entre eles era a loucura e o descompasso de emoções?
Aos 16 anos eu já havia estabelecido e incrustado na minha personalidade as influências e valores vivenciados desde minha chegada ao lar dos Oliveiras Marengos.
03-12-2018

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