segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Mulheres estranhas

Data: 12-10-17   


Não gosto de mulheres que julgam, priorizam críticas estéticas,  que mandam, que são exibicionistas, que contam vantagens,  excessivamente femininas,  preocupadas com a beleza, que não sorriem, que não se divertem consigo mesmas, incapazes de rirem de si.

Mas mesmo que sejam assim dessa maneira e que tudo isso não lhes afetam a capacidade de amar, de serem gentis, bondosas, doces, simples, naturais e tolerantes, eu as amaria. A falta que sinto do amor por mim, da aceitação, da tolerância pelas minhas dificuldades parecem ser eterna. Impressionante o resultado da na aceitação e da intolerância incrustada no meu ser. Preciso me cuidar e não esperar do outro, preciso lidar com esse vazio, esse buraco sem fundo e não permitir esperar, imaginar, sonhar com o que se foi.


Partida

As folhas caem

Velhas ou novas

Lentas, mas vertiginosamente

Ao encontro de uma nova forma de vida

Da transformação 

Não resmungam, não lamentam

Apenas seguem e cumprem

O ciclo natural e imponderável da vida.

Assim, cá estou eu,

Num esforço infindável de aceitar

Minha folha valiosa, que tanto me ensinou, que muito compartilhei e amei, e que precisou partir.




Mana se foi...

Saudade

Minha branquinha

Que vazio ficou!

Com quem conversar?

Pra onde eu vou?

Quero te amar pra sempre

Que dor!

Que dor!

Descansou da luta da vida

Da dor, da angústia e da solidão

Da dificuldade de viver, de compreender   

Que seu espírito descanse em paz e na luz, que encontre o amor e o amparo tão desejado e merecido.

12-08-2017



Trajetória dos efeitos da primeira quimioterapia

Dia 11/04/2017 -1ª aplicação de quimioterapia
Tranquilo. Sono. Saí disposta,  mas devagar.
quarta. Devagar e sem efeitos. Apenas uma mínima afta na língua. Diminui fluxo vaginal. Diarreia 

quinta: Acordo com muitas dores no baixo ventre, ambos lados e na virilha e coxa.
Final do dia quase não consigo andar. Tomei tilex mas aliviou apenas 30%. Evacuei bastante e fluxo vaginal voltou a  aumentar e amarelo bem forte.
sexta: Madrugada com muitas dores, impossível se mexer,  tilex de 6 em 6 horas. Várias idas ao banheiro para urinar. 
sábado : tomo frontal pra conseguir dormir, dores constantes. Dores 24/h por dia, alterno com dipirona, pois tilex da constipação. 
domingo : mesmo com frontal acordo com dores as 04:00. Tomo dipirona, dor incessante. Evacuação pela manhã,  após 4 dias. Enjoos e náuseas surgem, vômito a noite. 
segunda: passo a tomar remédios de 4/4h . Dores diminuem e enjoos chegam com tudo. Tomo anti náusea pra conseguir almoçar.  A noite piora,  tudo roda, pareço que estou com ressaca. Evacuo pela manhã 
terça : acordo mais disposta . Enjôo mas tomo o suco e bolacha com ricota. Saio de casa pela primeira vez, vou casa de mamãe. Tomo canja.  A tarde leve náusea. A noite tomo canja e náusea mais forte. Não evacuei.
quarta. Acordo bem, tomo o suco e bolachas,  mas tenho leve enjoo. Comi bem! Um pouco mais forte! Subi e desci as escadas sozinha. Retorno pra cama e tombo, estou cansada, nauseada e dolorida. Achei que iria ter um bom dia, mas não foi,  só levantei as 15h.
quinta. Nauseada mas um pouco mais disposta. Não aguento mais meu cheiro do corrimento sanguinolento. Tive dores de barriga na madrugada,  cólica estranha. Preciso evacuar. Fui ao médico,  nada novo. Faço novos planos para o tratamento no sentido de me cuidar mais.
sexta - acordo sem dores, sem enjoos,  mas muito gripada. Garganta dolorida.  Evacuo de manhã e a tarde. Pouco para 4 dias. Tomo Aloe Vera cedo e chá de gengibre. Como muito bem, apetite voltou. Língua ainda um pouco machucada. Gases fedidos.
sábado - ainda muita gripe. Ardência no nariz,  quedas de pressão temporárias. Sem enjoos e náuseas. Dores abdominais com gases ameaçando evacuação durante todo dia, porém evacuei somente pela manhã. Medicamentos : 2x dipirona e 2x biprofenid. Chá de gengibre durante dia e suco de limão com maçã cedo. Aloe Vera e geléia real em jejum.
domingo - acrescentei o omeprazol 20 mg em jejum. Muita gripe de madrugada. Tomando a amitriptilina a noite, desde sexta pra dormir melhor. Ardência no nariz. Tirei o biprofenid. Dor de cabeça. 
segunda. Acordo bem disposta, mas tonta. Mas em seguida vem a diarreia (aloe vera) e a fadiga. Gripe melhor. Durmo mto. Dor de cabeça mto forte no final da tarde.
terça. Disposta. Fadiga sempre que fica muito em pé ou faz muitos movimentos. Leve dor no baço. Almoço bem 400g. Dor de cabeça final da tarde e ardência forte no couro cabeludo.
quarta - Dor na região fígado ao acordar. Cabelo começa a cair timidamente. 
27, 28 - sem nada de efeitos,  apenas queda de cabelos 
29, 30, 01- queda forte de cabelos. 
02/05 - 2a aplicação quimioterapia 
DIA 10-05-2017- 2a Aplicação
02 - terça- tranquilo
03- quarta - durmo e acordo bem. Sem efeitos. Leve enjoo no jantar, mas chá de gengibre aliviou. Urina avermelhada. 
04 - quinta - inicia dor no ovário de madrugada,  tomo dipirona de 6/6h. Sem evacuar
05 - sexta - passo a tomar tilex. Sem evacuar
06 - sábado.  Mto frágil,  Mto cansada, sono. Enjoos. Sem evacuar. Cabelos ralos,  passo a máquina e gilete .
07- idem.
08 - segunda - aloe vera em jejum e omeprazol 20mg. fraca, deitada e enjoada . Evacuei. Não tomo mais tilex, soh dipirona antes de dormir.
09 - terça - menos sono, mas ainda fraca. Sem remédio pra dor.  Omeprazol 20. A tarde e noite
24-05-17 – 3ª. Aplicação
Quarta : Tds certo. Disposta
Quinta : 25/5. Língua grossa,  sem fome. Começando a sentir quadril e dificuldade de subir escadas. Fadiga surgindo. Final de tarde dores baixo ventre e quadril. A noite ando com dificuldade e dores fortes, começo a tomar o tilex.

Sexta 26/05: de manhã dores corpo, pernas , quadril e baixo ventre. Tomo café e pão. Durmo bastante dia todo. Tilex
Sábado 27/05: mta dor e enjoos. Dia todo  com dor e fadiga, dormindo sempre. Tilex
Domingo: amanheço vomitando. Não como nada durante o dia. Vômito bílis. A noite ao subir escadas perco os sentidos,  mta fraqueza.  Vou pra UPA e fico no soro e plasil. Mto fraca.
Segunda: mtas dores, tomo morfina na veia lá na upa. Vou pro baía sul. Tomo mais soro e plasil. Estou com imunidade baixa não posso ficar no hospital. Vou pra casa. Evacuo bastante ao chegar em casa
Terça : acordo com diarreia, começo a comer.  A tarde nao tenho mais diarreia. Ainda mto fraca. Dores pelo corpo e enjoos. Dores na barriga entre estômago e ventre: cólica com qualquer coisa que como. Tilex pra dormir bem.
Quarta : desço pra tomar café,  ao subir perco a força e o ar. Horrível a fraqueza. Continua dor/cólica entre estômago e ventre. Dores pelo corpo continuam espalhadas coxas, joelhos, braços e mãos. Fígado,  baixo ventre. Tomo tilex. 
Quinta: diarreia pela manhã, fezes amarelas. ainda fraca e na cama. Dores as mesmas continuam. Dipirona pra dor. Comendo melhor. Ando um pouco pelo quarto. 
Sexta: idem quinta. Mais acordada. Dores fígado 
Sábado : fezes amarelas. Dores fígado mais constantes . Dipirona.
Domingo : disposta, mas lenta.
13-06-2017  4ª. Aplicação –
Fraqueza e dor após aplicação. Tomei dipirona a noite. 
14/06- quarta : passei bem, andando devagar. Sem efeitos. 
15/06-quinta: leve enjoo as 2 da manhã,  tomo plasil e passa. Acordo com dor ovários (5). A dor persiste e aumenta pela manhã e da fraqueza nas pernas (6), dificuldade de andar e pressão na vagina.
Tilex pra dormir. 
16/06 - sexta . Acordo bem mas com dor e dificuldade de andar. Enjoos no almoço.  Como pouco. Dorzinha pelve e pernas.  Tilex de manhã,  dipirona a tarde e tilex pra dormir. Comi pouco
Sábado : dores baixo ventre forte. E nas pernas,  dificuldade andar.  Tomo café da manhã. Aumento da fadiga. Dores durante a tarde e noite
Domingo : pernas ainda bambas e fracas. Dores presentes. Bom apetite.  A tarde e noite mta dor. Tilex fraco amitriptilina melhor.
Segunda: dores um pouco mais fracas, mas presentes. Bom apetite. Fraqueza pernas.
Terça e quarta : dores pelve e pernas. Dificuldade andar.
04-07-2017  5ª aplicação
Após aplicação passa bem.
Quarta: bem dorzinha leve e língua grossa e seca
Quinta : dificuldades engolir sólidos. A tarde mta dor ovário e pernas. Almoço e frutas. Tilex pra dormir 
Sexta: dores pelve, ovário e pernas. Tilex o dia inteiro
Sábado : vômitos pela manhã.  Nada como. Tilex. Faço coco
Domingo: nada como, enjoou e mta tontura, falta de ar. Faço Coco. Vou hospital tomar soro. Volto e dor durante a noite.  Nada de tomar tilex 
Segunda: tontura,  enjoos e dores pernas e ovário. Sem vontade comer. Dipirona a tarde. Pra dormir mtas dores.
Terça : acorda pouquinho melhor. Sente pernas. A tarde dores pernas. Enjoos língua grossa.
25-07-2017 – 6ª Aplicação

Nada a descrever, mesmos efeitos!
Agora é esperar 3 meses, devido ao Avastim, para a primeira cirurgia. 

Efeitos da quimioterapia

DATA: 10-05-2017

É assim mesmo que me sinto durante a rebordosa, o alvoroço dos efeitos da quimioterapia: queremos sumir e acabar com o suplício,  porém, magicamente tudo passa e a vida nos chama.
Por que tantos momentos de contradição, de extremos?
Nos obrigando ao exercício do desapego, da simplicidade na sua forma mais despojada? 

Nada tem importância, contudo tudo é vital para nossa qualidade de vida.
Cada vez mais desejo a solidão,  a não convivência, para que seja possível reconhecer-me, saber sentir, escutar e perceber meus sentidos. 
Quero escolher o dia de hoje, quero não querer o outro, as coisas, o inútil,  o supérfluo,  a ilusão.

Mudanças para minha cura?


Data: 03-05-2017 

Ha dois meses recebi o diagnóstico de cancer de ovário, no estagio iv.
Sei que preciso mudar, que quero abandonar de vez uma história que já se foi e não faz mais sentido pra mim como meu trabalho,  minha relação com os filhos e com marido, é preciso ressignificar essas relações,  preciso criar algo que volte a dar sentido à minha vida, algo que me desperte o tesão,  a criatividade,  o prazer e faça correr energia no meu ser!
O que quero/desejo?
Quais são meus planos para o amanhã? 
Com quem e o que quero estar fazendo?
Se eu encontrar essas respostas eu encontro um sentido pra minha vida e o vazio não dará espaço para dores, doença,  tristeza e desamparo.
Devo e quero deixar muita coisa pra trás. 
Devo e quero ter novos valores,  afazeres e significados. Ficar atenta e não perder oportunidades. 
Morar em outra cidade? Novas experiências e aventuras? 
Minha casa atende às minhas demandas? Quero me afastar de lembranças e famílias que não mais necessito e curto me relacionar!? 
Meu companheiro estará disposto a isso, estará inteiro comigo? 
Que contribuições ele tem a dar para minha mudança ?
Quero testar minha eterna vontade de aprender a me virar sozinha, ser  mulher e não mais somente mãe! 
Iniciar um novo trabalho que me envolva e dê motivação! 
Tenho capacidade de ser auto suficiente? 
Ser outra mulher, não a mulher que construí e estruturei para aprovação de meus pais e para adequar-me e possibilitar o sustento dos filhos?!
Quero adormecer meu excesso de racionalidade e desenvolver minha espiritualidade!?
Perguntas internas e constantes que precisam de respostas o quanto antes.
Quero me afastar definitivamente do meu trabalho, faltam quatro anos pra aposentadoria, mas com a doença talvez consiga em 2 anos é esse o prazo que estou me dando para conseguir encontrar as respostas e implementar as mudanças necessárias.

QUANDO CHEGA A HORA

Data: 07-04-2017 - um mes apos diagnóstico 



A grande incógnita que envolve a humanidade é saber que a morte é inevitável,  porém não sabemos quando. 
Pois eu fui presenteada com uma data de validade. Diferente de um produto da prateleira do mercado, hoje eu tenho uma previsão, mas sem dia agendado.
Isso me assusta? Não!  Isso é oportunidade de viver o presente, fazer escolhas conscientes,  ser seletiva e viver profundamente as relações com quem amamos, com a natureza e com o mistério da vida.
Após meu diagnostico, minhas relações com o mundo se tornaram muito mais gratificantes, o respeito com o outro, a tolerância com as diferenças,  o esforço em tentar amenizar meus ressentimentos,  a prática do exercício do perdão mais exigido.  Às vezes percebo que está tão bom e harmonioso que me sinto me apegando nessas relações e me esqueço que o amanhã é incerto.
Ha o que lamentar? Se olhar para trás,  nada a refazer, tudo foi aprendizado. Se eu olhar para frente, lamentaria os pequenos grandes momentos com os netos,  filhos, marido. Mas são efêmeros momentos,  todos têm sua própria vida e traçam o caminho de acordo com suas aspirações e necessidades,  independentemente. Estabelecem inúmeras novas relações,  e se adaptam como a eterna e ancestral história da humanidade. 
Tenho que observar o presente, descobrir o que e como devo viver daqui pra frente. Não quero me poupar de pequenas ilusões, são elas que amenizam a aridez da vida, que nos alivia a alma. Sempre fui controladora, me privei de prazeres e sem ousadia para correr riscos quando o foco não era trabalho, responsabilidade e dever. Agora devo me sentir livre! Preciso não ouvir a insistente voz interna que me castrou quando o assunto era prazer,  desfrute, usufruir, leveza e ousadia.
Devo baixar a guarda, amolecer o corpo, esticar minha respiração suavizando dessa maneira meu falar, meu olhar, meu modo de escutar e sentir. Devo estar 100% presente, atentando aos meus gestos, compartilhando com o ar que respiro e ter constante conexão comigo mesma. 
Da civilização nada mais espero, nada mais preciso,  não tenho mais pressupostos existenciais a serem testados e comprovados,  mais nenhuma necessidade de me afirmar e provar que posso, que sei, que mereço. Nenhuma busca a mais de conhecimento que preencha minha insana ansiedade e vazio existencial. Nenhuma súplica por amor, aceitação e tolerância pelos meus limites e erros. De nada e de ninguém devo ficar dependente emocionalmente. 
Talvez meu físico fique frágil e precisarei de uma mão, um auxílio.  A quem devo recorrer? Não correrei em busca, ficarei resignadamente sossegada com minhas limitações e a quem interessar possa, ficará ao meu lado. Essa escolha se dará livremente,  sem convocações ou pressões.  A obrigatoriedade é dura e cruel e não quero reviver energeticamente a opressão da obrigatoriedade.



CURA

 

Quero a cura e do quê devo ser curada?

Sim, eu quero a cura dos meus ressentimentos, das minhas mágoas,  do orgulho,  da intolerância,  enfim, da dor de minhas dificuldades e limitações. 

Quero que meus pensamentos,  meu ouvir, falar e sentir sejam para expressar amor. 
Quero o exercício da tolerância,  bondade,  da compaixão e do perdão. 

Minha cura está no abandono de minha dor.

Data: 25-03-17  

SER INTOLERANTE



Por que a intolerância?  

A urgência,  a falta de paciência com a morosidade? 

Sinto como se estivesse num bombardeio, onde decisões precisam ser rápidas,  ágeis e certeiras, pois corro o risco de vida. 
Há sempre inimigos por perto, à espreita. 
A atenção e a tensão são constantes e estratégias de defesas sempre pensadas e prontas. Se sou pega de surpresa, vem o desespero, da morte ou ser aprisionada. 
Ser refém, a dependência e subordinação me é apavorante. 
Meu orgulho é exacerbado e não me permito a derrotas. Todos são inimigos, em princípio,  estou sempre em alerta e desconfiada. 
Não relaxo, nem dormindo. 
Sou uma excelente combatente, venci muitas disputas, mas necessito aprimorar minha humildade,  baixar minha guarda e dar o prazer da vitória ao outro, com o sentimento verdadeiro de entrega, amor e compaixão. 
Preciso me render, relaxar e entregar. 
Preciso ser humilhado,  violentado, espezinhado e aceitar, com uma mansidão no coração e com a certeza que sou amado,  protegido e amparado pelo amor maior.
Sentir que a dor física e emocional só é sentida quando nos identificamos com a esfera terrena e com um passado recente e remoto.
Liberdade é liberar-se dos grilhões terrenos e tentadores que nos mantém reféns e dependentes, cegos e insensíveis às energias positivas,  leves, amorosas do universo.

Data: 18-03-17    -  10 dias apos o diagnóstico 

O MEDO



O medo é um propulsor de nossa sobrevivência. 
Nosso aliado, porém as vezes paralisador e muitas vezes criador de defesas desnecessárias.
Capaz de alterar nosso equilíbrio interno e nossa conexão com energias positivas e salutares.
Erroneamente destilamos a raiva, a vingança,  a tristeza por não compreede-lo e não localizar a razão de sua origem. 
Ter medo é a possibilidade de nos reconhecer,  situar nossas limitações e escolher o caminho a ser traçado. 
É torna-lo nosso aliado nas buscas de conquistas positivas .

Data: 18-03-17    -  10 dias apos o diagnóstico 

Impacto da realidade



   
Ainda sai persistentemente, ha quase 40 dias, das profundezas de minhas vísceras, um líquido sangrento me recordando minha fertilidade perdida, porém não esquecida.
Ovários são os transmissores da vida, da capacidade de criação e transformação. 
Quando e porquê perdi, quando me desconectei?
Quando achei que tudo estava perdido,  quando tive a constatação de que nada poderia fazer pra alterar a realidade. 
Quando perdi Rômulo,  Tiago, e estava perdendo Mayana e não conseguia apaziguar as dores do Lucas.
Quando na porta da aposentadoria percebi que não conseguiria ser livre e sair com meu parceiro a explorar um mundo novo, com experiências diferentes e instigadoras. Conhecer outros povos, lugares, dar início a aventuras ainda não vividas.
Não sou feliz sem desafios, inquietudes,  questionamentos, novos conhecimentos. 
Sinto-me viva quando penso e desvendo mistérios, quando o desconhecido é meu vizinho mais próximo,  quando nada sei e tudo descubro, quando ha batalhas a serem conquistadas. 
Sem isso eu morro, me entrego e desisto. O que sei não me basta, saio em busca do que ainda não sei.
Ha também a sensação de esgotamento, fiz e vivi o que era pra ser vivido. Nada mais a fazer. Sentimento de plenitude. 
Cansada e com saudade do PAI, rogo por seu colo.
Quero a paz de um campo de flores, a energia das árvores portentosas, a leveza de um céu azul anil e quero a serenidade do silêncio eterno.

Data: 10-03-17 - três dias após o diagnóstico

Novos Tempos


No dia 11 de fevereiro de 2017, numa manhã de sábado ensolarada fui buscar o resultado de um exame que havia feito no dia anterior. O exame era uma transvaginal porque estava sangrando sem motivo aparente, após 12 anos de menopausa.
O resultado alertava para risco de neoplasia ovariana maligna e que deveria ser investigado. Fiquei bem impressionada e a ideia da morte veio automaticamente, claro, o câncer é há muitos anos estigmatizado. Corri pra internet do meu smartphone e lá pude constatar que todos os sintomas que eu estava passando durante longos meses indicavam para o câncer de ovário. 
Minha trajetória começou em meados de novembro de 2015 sentindo dores agudas abaixo da costela no lado direito. As dores vinham e iam, eram eventuais, não constantes. Em abril de 2016 além da dor, comecei a sentir um desconforto abdominal, enjoos, cólicas estranhas, barriga dura e vou procurar um médico gastroenterologista.  Faço exames de colonoscopia,  endoscopia,  ultrassom de abdômen. Nada diagnosticado, médico sugere ser uma dor muscular abaixo das costelas e propõe que eu tome a medicação para a bactéria H, Pylori, detectada na endoscopia. Eu não acreditei que minhas dores eram oriundas de bactéria, muito menos musculares, portanto não tomei a medicação da bactéria nem do analgésico muscular. Fui á procura de um pneumologista, ginecologista, ortopedista e outro gastroenterologista e nada. Por fim, tomei o coquetel para combater a H. Pylori e as dores continuavam. Em dezembro de 2016 as dores e a instabilidade intestinal e estomacal retornam com força. Em janeiro passo o mês indo ao banheiro e com muitas dores difusas. Volto então a procurar um gastro. Faço vários exames e no final do mês de janeiro passo a ter sangramento vaginal, sendo que eu já estava na menopausa há 12 anos. Faço exame de ultrassom transvaginal cujo resultado alerta para suspeita de neoplasia maligna de ovário. Parto então em busca de um médico gineco-oncologista cirurgião, cuja indicação era cirurgia para retirada dos órgãos da pelve (ovários, útero e trompas). Após exames é constatado várias metástases, no fígado, diafragma, baço, peritônio, intestino, reto, bexiga, mesentério. Realizo também duas biópsias, uma no fígado outra durante a histeroscopia, cujo resultado revela tratar-se de carcinoma papilífero seroso de alto grau. Médicos cirurgiões afirmaram ser impossível fazer cirurgia, é preciso fazer 6 sessões de quimioterapia para diminuir e desacelerar crescimento dos tumores. Em princípio o tumor no fígado não é operável e não tem cura,  assim como a neoplasia de ovário com metástases.
Iniciei as sessões de quimioterapia no dia 11 de abril de 2017 e após a quinta aplicação eu faço nova tomografia e indica expressiva redução e diminuição do tamanho dos tumores e mostrou que o tumor no fígado era operável.
Minha última aplicação de quimioterapia do primeiro ciclo foi 25/07/2017. Esperei até 06/10 para fazer a cirurgia. Durante esse período me senti cansada, às vezes com dores no baixo ventre lado direito e outras vezes abaixo das costelas no lado direito. Aliás, é o lado direito do meu corpo que sempre senti dores. As dores nas pernas ficaram mais amenas, mas estavam presentes. A principal sequela da quimioterapia foi a neuropatia periférica,  dormência nos pés,  em todos os dedos, sensibilidade ao pisar no chão, pareço estar com uma bola dentro da planta do pé, isso se deve à medicação Taxol. 
Fiz a cirurgia dia 06 de outubro e foi um sucesso,  segundo a médica.  As químios realmente diminuíram e calcificaram os vários tumores e meu organismo respondeu adequadamente.  Já estava de pé no dia seguinte,  foi por vídeo laparoscopia,  com pequeninos cortes (5) e um dreno. As dores eram fortes e constantes, muitos gases que não saiam e inchavam a barriga. Costumava tomar o ibuprofeno,  tilex, dipirona e poucas vezes morfina para as dores. Levei quatro semanas para sentir as dores aliviarem, mesmo assim a dor abaixo do ventre e acima da virilha direita continuou muito forte, além do esperado.  Na quinta semana contrai Candidíase, no que me deixou mais dolorida e estressada.
Foi uma cirurgia grande e delicada,  retiraram ovários,  útero,  trompas endométrio,  apêndice e vesícula. Pedaços do fígado,  diafragma,  estômago,  baço, intestino grosso, reto, bexiga e 1/4 do peritônio, durante 6 horas. Sem o peritônio há aderências dos órgãos e por isso sinto mais dores. Posteriormente reiniciei as sessões de quimioterapia. Mal me recuperei da cirurgia,  ainda não andava ereta e normalmente,  sempre devagar, sentia dores e me cansava facilmente. 
Não sabia
 se meu organismo suportaria as sessões de quimioterapia, essa a principal questão era manter minha resistência e a imunidade alta. 
Não tenho medo da morte, não tenho medo do câncer.
Ganhei muito afeto de amigos nesses últimos meses. Ganhei o amor da família. Reencontrei meus filhos  Do que posso reclamar? Do que posso temer?
Nada tenho a perder, pois tudo que é bom está sendo vivido no hoje. 
Nada pra se prender ou se apegar porque a experiência do hoje é verdadeiramente imensa, real e única. 
Acordo frequentemente todos os dias as 04:00 da manhã, na hora do sopro da vida, dos pulmões. Volto a dormir. Depois volto a abrir os olhos as 05:00, as 06:00 e as 07:00.
Levantava cedo, entre 7:30 e 08:00. Pra quê tão cedo com tantas limitações e dores?
Pra me sentir viva e útil! Pra manter o controle do entorno? 
Parei com isso, agora me espalho na cama, fecho os olhos e me entrego à preguiça. 
Às vezes me entristeço com tantas limitações e dores. Elas vêm em sequência,  mal dá tempo de me recompor e aproveitar um pouquinho de sossego, me liberar da lembrança de que estou doente. É chato, mas me resigno certa de que sou capaz de ser feliz em qualquer circunstância. E sou! Não porque quero ser forte ou parecer indestrutível, mas porque foi o jeito que me habituei a viver e enfrentar os desafios.
É cansativa essa rotina de tratamento,  ainda mais que estou ciente que não há muitas perspectivas e estatísticas de cura, que são ações que retardarão um sofrimento maior. Mas aceito e cumpro meus deveres como forma de me cuidar,  de me amar. Há um esforço imenso em me respeitar e conquistar o que creio que mereço. Não quero desistir de mim e me entregar. Quero respeitar meus prazos de forma honesta e considerar que estou integrada com a harmonia do universo, e eu e ele, como numa dança amorosa,  cumprindo nossos papéis,  vivendo a vida como deve ser vivida no seu tempo devido.
Estou me amando. Adoro meus cabelos curtos, amei minha careca, a falta dos cílios,  da sobrancelha. Experiências novas, um novo modo de ver e sentir. Adoro mudanças! 
Minhas pernas e braços estão flácidos, e a perspectiva de que depois tenho que fortalecê-los com exercícios me anima, me aponta atividades para um futuro. Do que tenho a reclamar? Nada, pois pra tudo que vem há uma solução,  adaptação e aprendizado. 
Do que poderia lamentar hoje?
Acho que somente das dores, são constantes,  persistentes e chatas.  Me impedem de fazer mais coisas, de manter meu antigo ritmo acelerado. Inviabiliza viagens, caminhadas,  praia e mais contato com o ar livre. Mas ganho outras coisas muito boas: estou aprendendo a desacelerar, a desprender-me de picuinhas,  sentir o tempo passar,  curtir o meu silêncio,  escutar e entender minhas emoções .....ah tanta coisa boa!!!
É tão real o aqui e o agora, é tão fácil selecionar e priorizar, é tão prazeroso decidir e desconsiderar o que não me interessa. É tão profundo amar o outro.

É tudo tão próximo do todo, do tudo!