No dia 11 de fevereiro de 2017, numa manhã de sábado ensolarada
fui buscar o resultado de um exame que havia feito no dia anterior. O exame era
uma transvaginal porque estava sangrando sem motivo aparente, após 12 anos de
menopausa. O resultado alertava para risco de neoplasia ovariana maligna e que
deveria ser investigado. Fiquei bem impressionada e a ideia da morte veio
automaticamente, claro, o câncer é há muitos anos estigmatizado. Corri pra
internet do meu smartphone e lá pude constatar que todos os sintomas que eu
estava passando durante longos meses indicavam para o câncer de ovário.
Minha
trajetória começou em meados de novembro de 2015 sentindo dores agudas abaixo
da costela no lado direito. As dores vinham e iam, eram eventuais, não
constantes. Em abril de 2016 além da dor, comecei a sentir um desconforto
abdominal, enjoos, cólicas estranhas, barriga dura e vou procurar um médico gastroenterologista.
Faço exames de colonoscopia, endoscopia, ultrassom de abdômen. Nada
diagnosticado, médico sugere ser uma dor muscular abaixo das costelas e propõe que
eu tome a medicação para a bactéria H, Pylori, detectada na endoscopia. Eu não
acreditei que minhas dores eram oriundas de bactéria, muito menos musculares,
portanto não tomei a medicação da bactéria nem do analgésico muscular. Fui á procura
de um pneumologista, ginecologista, ortopedista e outro gastroenterologista e
nada. Por fim, tomei o coquetel para combater a H. Pylori e as dores
continuavam. Em dezembro de 2016 as dores e a instabilidade intestinal e
estomacal retornam com força. Em janeiro passo o mês indo ao banheiro e com muitas
dores difusas. Volto então a procurar um gastro. Faço vários exames e no final
do mês de janeiro passo a ter sangramento vaginal, sendo que eu já estava na
menopausa há 12 anos. Faço exame de ultrassom transvaginal cujo resultado
alerta para suspeita de neoplasia maligna de ovário. Parto então em busca de um
médico gineco-oncologista cirurgião, cuja indicação era cirurgia para retirada
dos órgãos da pelve (ovários, útero e trompas). Após exames é constatado várias
metástases, no fígado, diafragma, baço, peritônio, intestino, reto, bexiga, mesentério. Realizo também
duas biópsias, uma no fígado outra durante a histeroscopia, cujo resultado
revela tratar-se de carcinoma papilífero seroso de alto grau. Médicos
cirurgiões afirmaram ser impossível fazer cirurgia, é preciso fazer 6 sessões
de quimioterapia para diminuir e desacelerar crescimento dos tumores. Em
princípio o tumor no fígado não é operável e não tem cura, assim como a
neoplasia de ovário com metástases.
Iniciei as sessões de quimioterapia no dia 11 de abril de
2017 e após a quinta aplicação eu faço nova tomografia e indica expressiva
redução e diminuição do tamanho dos tumores e mostrou que o tumor no fígado era
operável.
Minha última aplicação de quimioterapia do primeiro ciclo foi
25/07/2017. Esperei até 06/10 para fazer a cirurgia. Durante esse
período me senti cansada, às vezes com dores no baixo ventre lado direito e
outras vezes abaixo das costelas no lado direito. Aliás, é o lado direito do
meu corpo que sempre senti dores. As dores nas pernas ficaram mais amenas, mas
estavam presentes. A principal sequela da quimioterapia foi a neuropatia periférica, dormência nos
pés, em todos os dedos, sensibilidade ao pisar no chão, pareço estar com uma bola
dentro da planta do pé, isso se deve à medicação Taxol.
Fiz a cirurgia dia 06 de outubro e foi um sucesso,
segundo a médica. As químios realmente diminuíram e calcificaram os vários
tumores e meu organismo respondeu adequadamente. Já estava de pé no dia
seguinte, foi por vídeo laparoscopia, com pequeninos cortes (5) e
um dreno. As dores eram fortes e constantes, muitos gases que não saiam e
inchavam a barriga. Costumava tomar o ibuprofeno, tilex, dipirona e
poucas vezes morfina para as dores. Levei quatro semanas para sentir as dores
aliviarem, mesmo assim a dor abaixo do ventre e acima da virilha direita
continuou muito forte, além do esperado. Na quinta semana contrai Candidíase,
no que me deixou mais dolorida e estressada.
Foi uma cirurgia grande e delicada, retiraram
ovários, útero, trompas endométrio, apêndice e vesícula.
Pedaços do fígado, diafragma, estômago, baço, intestino
grosso, reto, bexiga e 1/4 do peritônio, durante 6 horas. Sem o peritônio há
aderências dos órgãos e por isso sinto mais dores. Posteriormente reiniciei as sessões
de quimioterapia. Mal me recuperei da cirurgia, ainda não andava ereta e
normalmente, sempre devagar, sentia dores e me cansava facilmente.
Não sabia se meu organismo suportaria as sessões de quimioterapia,
essa a principal questão era manter minha resistência e a imunidade alta.
Não tenho medo da morte,
não tenho medo do câncer.
Ganhei muito afeto de amigos nesses últimos meses. Ganhei
o amor da família. Reencontrei meus filhos Do que posso reclamar? Do que posso temer?
Nada tenho a perder, pois tudo que é bom está sendo vivido no
hoje.
Nada pra se prender ou se apegar porque a experiência do hoje
é verdadeiramente imensa, real e única.
Acordo frequentemente todos os dias as 04:00 da manhã, na
hora do sopro da vida, dos pulmões. Volto a dormir. Depois volto a abrir os
olhos as 05:00, as 06:00 e as 07:00.
Levantava cedo, entre 7:30 e 08:00. Pra quê tão cedo com
tantas limitações e dores?
Pra me sentir viva e útil! Pra manter o controle do
entorno?
Parei com isso, agora me espalho na cama, fecho os olhos e me
entrego à preguiça.
Às vezes me entristeço com tantas limitações e
dores. Elas vêm em sequência, mal dá tempo de me recompor e aproveitar um
pouquinho de sossego, me liberar da lembrança de que estou doente. É chato, mas
me resigno certa de que sou capaz de ser feliz em qualquer circunstância. E
sou! Não porque quero ser forte ou parecer indestrutível, mas porque foi o
jeito que me habituei a viver e enfrentar os desafios.
É cansativa essa rotina de tratamento, ainda mais que
estou ciente que não há muitas perspectivas e estatísticas de cura, que são
ações que retardarão um sofrimento maior. Mas aceito e cumpro meus deveres como
forma de me cuidar, de me amar. Há um esforço imenso em me respeitar e
conquistar o que creio que mereço. Não quero desistir de mim e me entregar.
Quero respeitar meus prazos de forma honesta e considerar que estou integrada
com a harmonia do universo, e eu e ele, como numa dança amorosa, cumprindo
nossos papéis, vivendo a vida como deve ser vivida no seu tempo devido.
Estou me amando. Adoro meus cabelos curtos, amei minha
careca, a falta dos cílios, da sobrancelha. Experiências novas, um novo
modo de ver e sentir. Adoro mudanças!
Minhas pernas e braços estão flácidos, e a perspectiva de que
depois tenho que fortalecê-los com exercícios me anima, me aponta atividades
para um futuro. Do que tenho a reclamar? Nada, pois pra tudo que vem há uma
solução, adaptação e aprendizado.
Do que poderia lamentar hoje?
Acho que somente das dores, são constantes,
persistentes e chatas. Me impedem de fazer mais coisas, de manter meu
antigo ritmo acelerado. Inviabiliza viagens, caminhadas, praia e mais
contato com o ar livre. Mas ganho outras coisas muito boas: estou
aprendendo a desacelerar, a desprender-me de picuinhas, sentir o tempo
passar, curtir o meu silêncio, escutar e entender minhas emoções
.....ah tanta coisa boa!!!
É tão real o aqui e o agora, é tão fácil selecionar e
priorizar, é tão prazeroso decidir e desconsiderar o que não me interessa. É
tão profundo amar o outro.
É tudo tão próximo do todo, do tudo!