segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Novos Tempos


No dia 11 de fevereiro de 2017, numa manhã de sábado ensolarada fui buscar o resultado de um exame que havia feito no dia anterior. O exame era uma transvaginal porque estava sangrando sem motivo aparente, após 12 anos de menopausa.
O resultado alertava para risco de neoplasia ovariana maligna e que deveria ser investigado. Fiquei bem impressionada e a ideia da morte veio automaticamente, claro, o câncer é há muitos anos estigmatizado. Corri pra internet do meu smartphone e lá pude constatar que todos os sintomas que eu estava passando durante longos meses indicavam para o câncer de ovário. 
Minha trajetória começou em meados de novembro de 2015 sentindo dores agudas abaixo da costela no lado direito. As dores vinham e iam, eram eventuais, não constantes. Em abril de 2016 além da dor, comecei a sentir um desconforto abdominal, enjoos, cólicas estranhas, barriga dura e vou procurar um médico gastroenterologista.  Faço exames de colonoscopia,  endoscopia,  ultrassom de abdômen. Nada diagnosticado, médico sugere ser uma dor muscular abaixo das costelas e propõe que eu tome a medicação para a bactéria H, Pylori, detectada na endoscopia. Eu não acreditei que minhas dores eram oriundas de bactéria, muito menos musculares, portanto não tomei a medicação da bactéria nem do analgésico muscular. Fui á procura de um pneumologista, ginecologista, ortopedista e outro gastroenterologista e nada. Por fim, tomei o coquetel para combater a H. Pylori e as dores continuavam. Em dezembro de 2016 as dores e a instabilidade intestinal e estomacal retornam com força. Em janeiro passo o mês indo ao banheiro e com muitas dores difusas. Volto então a procurar um gastro. Faço vários exames e no final do mês de janeiro passo a ter sangramento vaginal, sendo que eu já estava na menopausa há 12 anos. Faço exame de ultrassom transvaginal cujo resultado alerta para suspeita de neoplasia maligna de ovário. Parto então em busca de um médico gineco-oncologista cirurgião, cuja indicação era cirurgia para retirada dos órgãos da pelve (ovários, útero e trompas). Após exames é constatado várias metástases, no fígado, diafragma, baço, peritônio, intestino, reto, bexiga, mesentério. Realizo também duas biópsias, uma no fígado outra durante a histeroscopia, cujo resultado revela tratar-se de carcinoma papilífero seroso de alto grau. Médicos cirurgiões afirmaram ser impossível fazer cirurgia, é preciso fazer 6 sessões de quimioterapia para diminuir e desacelerar crescimento dos tumores. Em princípio o tumor no fígado não é operável e não tem cura,  assim como a neoplasia de ovário com metástases.
Iniciei as sessões de quimioterapia no dia 11 de abril de 2017 e após a quinta aplicação eu faço nova tomografia e indica expressiva redução e diminuição do tamanho dos tumores e mostrou que o tumor no fígado era operável.
Minha última aplicação de quimioterapia do primeiro ciclo foi 25/07/2017. Esperei até 06/10 para fazer a cirurgia. Durante esse período me senti cansada, às vezes com dores no baixo ventre lado direito e outras vezes abaixo das costelas no lado direito. Aliás, é o lado direito do meu corpo que sempre senti dores. As dores nas pernas ficaram mais amenas, mas estavam presentes. A principal sequela da quimioterapia foi a neuropatia periférica,  dormência nos pés,  em todos os dedos, sensibilidade ao pisar no chão, pareço estar com uma bola dentro da planta do pé, isso se deve à medicação Taxol. 
Fiz a cirurgia dia 06 de outubro e foi um sucesso,  segundo a médica.  As químios realmente diminuíram e calcificaram os vários tumores e meu organismo respondeu adequadamente.  Já estava de pé no dia seguinte,  foi por vídeo laparoscopia,  com pequeninos cortes (5) e um dreno. As dores eram fortes e constantes, muitos gases que não saiam e inchavam a barriga. Costumava tomar o ibuprofeno,  tilex, dipirona e poucas vezes morfina para as dores. Levei quatro semanas para sentir as dores aliviarem, mesmo assim a dor abaixo do ventre e acima da virilha direita continuou muito forte, além do esperado.  Na quinta semana contrai Candidíase, no que me deixou mais dolorida e estressada.
Foi uma cirurgia grande e delicada,  retiraram ovários,  útero,  trompas endométrio,  apêndice e vesícula. Pedaços do fígado,  diafragma,  estômago,  baço, intestino grosso, reto, bexiga e 1/4 do peritônio, durante 6 horas. Sem o peritônio há aderências dos órgãos e por isso sinto mais dores. Posteriormente reiniciei as sessões de quimioterapia. Mal me recuperei da cirurgia,  ainda não andava ereta e normalmente,  sempre devagar, sentia dores e me cansava facilmente. 
Não sabia
 se meu organismo suportaria as sessões de quimioterapia, essa a principal questão era manter minha resistência e a imunidade alta. 
Não tenho medo da morte, não tenho medo do câncer.
Ganhei muito afeto de amigos nesses últimos meses. Ganhei o amor da família. Reencontrei meus filhos  Do que posso reclamar? Do que posso temer?
Nada tenho a perder, pois tudo que é bom está sendo vivido no hoje. 
Nada pra se prender ou se apegar porque a experiência do hoje é verdadeiramente imensa, real e única. 
Acordo frequentemente todos os dias as 04:00 da manhã, na hora do sopro da vida, dos pulmões. Volto a dormir. Depois volto a abrir os olhos as 05:00, as 06:00 e as 07:00.
Levantava cedo, entre 7:30 e 08:00. Pra quê tão cedo com tantas limitações e dores?
Pra me sentir viva e útil! Pra manter o controle do entorno? 
Parei com isso, agora me espalho na cama, fecho os olhos e me entrego à preguiça. 
Às vezes me entristeço com tantas limitações e dores. Elas vêm em sequência,  mal dá tempo de me recompor e aproveitar um pouquinho de sossego, me liberar da lembrança de que estou doente. É chato, mas me resigno certa de que sou capaz de ser feliz em qualquer circunstância. E sou! Não porque quero ser forte ou parecer indestrutível, mas porque foi o jeito que me habituei a viver e enfrentar os desafios.
É cansativa essa rotina de tratamento,  ainda mais que estou ciente que não há muitas perspectivas e estatísticas de cura, que são ações que retardarão um sofrimento maior. Mas aceito e cumpro meus deveres como forma de me cuidar,  de me amar. Há um esforço imenso em me respeitar e conquistar o que creio que mereço. Não quero desistir de mim e me entregar. Quero respeitar meus prazos de forma honesta e considerar que estou integrada com a harmonia do universo, e eu e ele, como numa dança amorosa,  cumprindo nossos papéis,  vivendo a vida como deve ser vivida no seu tempo devido.
Estou me amando. Adoro meus cabelos curtos, amei minha careca, a falta dos cílios,  da sobrancelha. Experiências novas, um novo modo de ver e sentir. Adoro mudanças! 
Minhas pernas e braços estão flácidos, e a perspectiva de que depois tenho que fortalecê-los com exercícios me anima, me aponta atividades para um futuro. Do que tenho a reclamar? Nada, pois pra tudo que vem há uma solução,  adaptação e aprendizado. 
Do que poderia lamentar hoje?
Acho que somente das dores, são constantes,  persistentes e chatas.  Me impedem de fazer mais coisas, de manter meu antigo ritmo acelerado. Inviabiliza viagens, caminhadas,  praia e mais contato com o ar livre. Mas ganho outras coisas muito boas: estou aprendendo a desacelerar, a desprender-me de picuinhas,  sentir o tempo passar,  curtir o meu silêncio,  escutar e entender minhas emoções .....ah tanta coisa boa!!!
É tão real o aqui e o agora, é tão fácil selecionar e priorizar, é tão prazeroso decidir e desconsiderar o que não me interessa. É tão profundo amar o outro.

É tudo tão próximo do todo, do tudo!

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