Ainda sai persistentemente, ha quase 40
dias, das profundezas de minhas vísceras, um líquido sangrento me recordando
minha fertilidade perdida, porém não esquecida.
Ovários são os transmissores da vida, da capacidade de
criação e transformação.
Quando e porquê perdi, quando me desconectei?
Quando achei que tudo estava perdido, quando tive a
constatação de que nada poderia fazer pra alterar a realidade.
Quando perdi
Rômulo, Tiago, e estava perdendo Mayana e não conseguia apaziguar as
dores do Lucas.
Quando na porta da aposentadoria percebi que não conseguiria
ser livre e sair com meu parceiro a explorar um mundo novo, com experiências
diferentes e instigadoras. Conhecer outros povos, lugares, dar início a
aventuras ainda não vividas.
Não sou feliz sem desafios, inquietudes,
questionamentos, novos conhecimentos.
Sinto-me viva quando penso e desvendo mistérios, quando o
desconhecido é meu vizinho mais próximo, quando nada sei e tudo descubro,
quando ha batalhas a serem conquistadas.
Sem isso eu morro, me entrego e desisto. O que sei não me
basta, saio em busca do que ainda não sei.
Ha também a sensação de esgotamento, fiz e vivi o que
era pra ser vivido. Nada mais a fazer. Sentimento de plenitude.
Cansada e com
saudade do PAI, rogo por seu colo.
Quero a paz de um campo de flores, a energia das árvores
portentosas, a leveza de um céu azul anil e quero a serenidade do silêncio
eterno.
Data: 10-03-17 - três dias após o diagnóstico

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