segunda-feira, 28 de setembro de 2020


 Nasci e cresci ateia ou agnóstica.

Nunca percebi nos meus pais, durante a infância e juventude,  a existência de alguma devoção religiosa. 

Somente após o falecimento de meu irmão, minha mãe passou a fazer alusão à Deus, às vezes enaltecendo, outras praguejando.

Eu e meu irmão no início  da adolescência, e por influência de nossa ajudante doméstica, frequentamos a igreja Batista,  por um breve período. 

Acho que buscávamos uma comunidade,  um aprendizado sobre convivência social e uma fuga de casa. Não durou, foi difícil a adaptação, uso de linguagem desconhecida e pouco racional aos nossos ouvidos.

Estranhei durante minha caminhada a não incorporação de alguns sentimentos e a não prevalência de ações como a gratidão, a compaixão  e a caridade.

Isso me fez falta para amenizar o coração,  dividir e compartilhar com o outro,  amparar, reconhecer o amparo e a ausência do exercício da vida em grupo.

Concebia o mundo solitário,  rude, duro e exaustivo. A humanidade sempre me pareceu inimiga e nada acolhedora.

Concebia a ideia do coletivo, da egrégora, das iniciativas caridosas, do ser tolerante e humilde, estando todos sempre atrelados aos pressupostos teológicos. 

Construí e solidifiquei o entendimento da religião como o ópio do povo,  uma bengala. Reconheço ter tido uma curta e preconceituosa visão. 

Havia um incômodo social frequente,  afinal ser religioso ou ter uma religião é ser um sujeito temente a Deus ou à algum outro poder inquestionável; denotando nossa humildade e resignação perante nossos conflitos. 

Diante da dificuldade de me curvar, ser ateu era ser segregado, estar separado, preterido e subjulgado.

Uma boa parcela da humanidade do nosso convívio diário,  possui um laço comum que mantém seus membros iguais e unidos, que no caso é o papel agregador das relegiões. 

Sempre cultivei minha preciosa solidão, acreditava que na minha vida não havia espaço para a futilidade social e o insistente domínio ofensivo de meu silêncio e privacidade

Demorei anos até entender que posso ser uma agnóstica feliz e compartilhar com todos independente do credo.

Posso afirmar tranquila e sem temor que não preciso de um Deus idealizado para viver e me proteger, mas necessito e gosto de pessoas e relações saudáveis, onde eu possa praticar a caridade, a humildade,  a compaixão e o amor independente e amplo. Gosto de pensar num universo imparcial, acolhedor e equilibrado que nos fornece luz, energia, discernimento e sossego. Entretanto nas horas da profunda tristeza,  do desespero pela falta de controle frente às vicissitudes do destino, sucumbimos e recorremos à ele, o imponderável milagre das soluções e o amparo à nossa dor


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