Nasci e cresci ateia ou agnóstica.
Nunca percebi nos meus pais, durante a infância e juventude, a existência de alguma devoção religiosa.
Somente após o falecimento de meu irmão, minha mãe passou a fazer alusão à Deus, às vezes enaltecendo, outras praguejando.
Eu e meu irmão no início da adolescência, e por influência de nossa ajudante doméstica, frequentamos a igreja Batista, por um breve período.
Acho que buscávamos uma comunidade, um aprendizado sobre convivência social e uma fuga de casa. Não durou, foi difícil a adaptação, uso de linguagem desconhecida e pouco racional aos nossos ouvidos.
Estranhei durante minha caminhada a não incorporação de alguns sentimentos e a não prevalência de ações como a gratidão, a compaixão e a caridade.
Isso me fez falta para amenizar o coração, dividir e compartilhar com o outro, amparar, reconhecer o amparo e a ausência do exercício da vida em grupo.
Concebia o mundo solitário, rude, duro e exaustivo. A humanidade sempre me pareceu inimiga e nada acolhedora.
Concebia a ideia do coletivo, da egrégora, das iniciativas caridosas, do ser tolerante e humilde, estando todos sempre atrelados aos pressupostos teológicos.
Construí e solidifiquei o entendimento da religião como o ópio do povo, uma bengala. Reconheço ter tido uma curta e preconceituosa visão.
Havia um incômodo social frequente, afinal ser religioso ou ter uma religião é ser um sujeito temente a Deus ou à algum outro poder inquestionável; denotando nossa humildade e resignação perante nossos conflitos.
Diante da dificuldade de me curvar, ser ateu era ser segregado, estar separado, preterido e subjulgado.
Uma boa parcela da humanidade do nosso convívio diário, possui um laço comum que mantém seus membros iguais e unidos, que no caso é o papel agregador das relegiões.
Sempre cultivei minha preciosa solidão, acreditava que na minha vida não havia espaço para a futilidade social e o insistente domínio ofensivo de meu silêncio e privacidade
Demorei anos até entender que posso ser uma agnóstica feliz e compartilhar com todos independente do credo.
Posso afirmar tranquila e sem temor que não preciso de um Deus idealizado para viver e me proteger, mas necessito e gosto de pessoas e relações saudáveis, onde eu possa praticar a caridade, a humildade, a compaixão e o amor independente e amplo. Gosto de pensar num universo imparcial, acolhedor e equilibrado que nos fornece luz, energia, discernimento e sossego. Entretanto nas horas da profunda tristeza, do desespero pela falta de controle frente às vicissitudes do destino, sucumbimos e recorremos à ele, o imponderável milagre das soluções e o amparo à nossa dor

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