segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Aquilo que escondemos


 Hoje percebo o quanto sempre fui doente, nasci doente! 

Sou fruto de uma união desajustada

Dois seres inquietos, angustiados e depressivos. 

Cresci num ambiente claustrofóbico, onde o desejo de não estar ali era presente e constante. Fiz escolhas absurdas e desconcertantes que resultaram na multiplicação de dores e de frutos doentios.

Se, olho pra trás vejo minhas dores, tristezas e concluo que sempre fui depressiva e escondi. 

Se busco entender como sobrevivi diante de tantos desafios, percebo que foi minha rigidez que me segurou e meu orgulho que não permitiu sucumbir. 

Quando me dizem que sou forte, não fico feliz, pois sei que minha fortaleza foi construída nos alicerces da dor, do orgulho, da ambição e da teimosia. 

Meu sofrimento se transformou em força e me manteve adoecida ao longo de minha vida. 

Lembro-me de minha filha e sua imensa batalha contra a dor e sofrimento

Me reconheço nela, porém ela se revoltava e gritava aos quatro cantos, já eu me encolhia e me resguardava solitária no meu esconderijo.

Tive hepatite aos nove anos, primeiro grito de desespero e raiva acumulada. 

O resultado de meu constante medo e pavor tornaram meus músculos e princípios rígidos e inflexíveis, sequei minhas águas emocionais, me afastei de todos e de mim mesma, meu pavor de contato com os outros era evidente, preferindo sempre a solidão e o silêncio. 

Sou depressiva, ansiosa, rígida, indecisa, o medo do passado, do presente e do futuro me paralisa, receio dormir, acordar e viver!

Estou sempre em alerta, seguro objetos com força, levanto os ombros e tenciono os músculos.

Dos pés à cabeça quando entro em ação, desde o ouvir, olhar, falar ou tocar, tudo arde e em alerta, ai como cansa!

Sei que meus filhos, todos têm o mesmo sentimento, as mesmas dores e angústias, o mesmo grande e profundo vazio existencial e isso para mim, mãe, é insuportável, insustentável, desesperador e mortal. 

Necessito de descanso e paz, já se passaram muitos anos, estou cansada!


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