quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Rastros saudosos





Aqueles que se vão nos deixam lembranças, ruins e boas. Na maioria boas, pois a saudade quando grita são as boas lembranças que estão emergindo.
Que lembranças minhas terão?
Suponho que se lembrarão da minha inquietude em relação ao caos, a bagunça e ao barulho; da insistência em buscar a estabilidade e controle, ou seja, de tudo aquilo que me apavora e me faz sentir insegurança e medo, daquilo que me assustou e desesperou no meu caminhar.
Irão lembrar do meu perfume! meu cheiro de jasmim, de madeira, do cravo e da canela, cheiros que me remetem à paz e ao sossego!
Será que lembrarão do meu silêncio? Da escuridão que eu gostava de ficar lendo, jogando, trabalhando? Mas talvez do sorriso largo e fácil não esquecerão, sorriso molar, como dizia meu dentista.
Daqueles que desfrutaram de minha comida, talvez também sintam saudade.
Sentir saudade é gostoso! Lembranças boas nos trás alegria!
Vou sentir saudade do mar, do som das ondas quebrando, das espumas brancas, da areia quente e rir das minhas tentativas de pegar jacaré. 
Das pessoas que estavam próximas de mim, daqueles que me amaram fazendo- me sentir viva e feliz, da minha casa cheirosa, aconchegante e acolhedora, da sua segurança e proteção que significava. Saudade do sol do inverno, da chuva de verão, das flores e das árvores que sempre me inspiraram, nutriram e me fizeram mais forte e serena: dos altos Garapuvus, coloridos manacás da serra, imensos e amplos flamboyants, floridos jacarandás e quaresmeiras. Espero encontrar por onde eu for, montanhas verdes, virgens e arborizadas! Como são belas, portentosas e inabaláveis! É de lá que eu vim e pra lá quero ir, sempre! Serra do Rio do Rastro, da Dona Francisca, da Graciosa, Floresta da Tijuca, Cambirela.
Será que tenho alguém pra perdoar antes de partir? Sim, de muitas pessoas e situações preciso me redimir! Muitas mágoas acumulei, muitas dores causei e tantas outras não curei!
Meu ciúme, inveja, orgulho, arrogância e vaidade, quanta blasfêmia ao grande universo harmonioso, amoroso e acolhedor! Meu sincero perdão à tudo e à todos!

É tão surpreendente essa vida, com que facilidade nos apegamos, contudo a matéria é tão vaga e finita! Hoje esbarro com mil pessoas no mercado, nas ruas, no restaurante e amanhã nunca mais posso encontra-las, que marcas e historias ficam? Nenhuma, pois não agregaram significados. Dificuldade de estar no mundo e perceber que tudo é tão etéreo, sublime e sutil!
Com quem ficarão minhas roupas, plantas, panelas, cobertas, toalhas, tudo aquilo que me cercou, representou e me encantou? Querer e ter são desejos fascinantes, mágicos, alienantes e hipnotizantes; perder e entregar são doídos, solitários e desesperadores. Não conhecemos outro modo de vida nessa terra de viventes, parece que tudo se baseia nisso.
Passo meus dias exercitando o desapego, tentando insignificar ou resignificar meus quereres. Temo pelo sofrimento do outro frente à minha partida, sinto o amor do outro pela minha companhia e lamento ter que abandona-los assim no meio do caminho, pois temos a eterna sensação que ainda não é hora, que falta muito a ser vivido, porque estamos sempre no futuro ou no passado, lembrando das coisas que já se foram.
Estou sem futuro, um grande desafio e oportunidade para viver o presente! 
Estou experimentando o verdadeiro sentimento de finitude e de que o que tenho hoje deixarei pra trás sem dor ou pesar, quero estar leve, sem peso pra carregar, quero estar serena, sem contas para acertar. A paz eu quero encontrar!!!

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