Hoje percebo o quanto sempre fui doente, nasci
doente!
Sou fruto de uma união desajustada, de dois
seres inquietos, angustiados e depressivos.
Cresci num ambiente claustrofóbico,
onde o desejo de não estar ali era presente e constante.
Fiz escolhas absurdas
e desconcertantes que resultaram na multiplicação de dores e de frutos
doentios.
Se olho pra trás vejo minhas dores, tristezas e
concluo que sempre fui depressiva e angustiada.
Se busco entender como
sobrevivi diante de tantos desafios suicidas, percebo que foi minha rigidez que
me segurou e meu orgulho que não permitiu sucumbir.
Quando me dizem que sou
forte, não fico feliz, pois sei que minha fortaleza foi construída nos
alicerces da dor, do orgulho, da ambição e da teimosia.
Meu sofrimento se
transformou em força e me manteve adoecida ao longo de minha vida.
Quando
lembro da minha filha e sua imensa batalha contra a dor e sofrimento, eu me
reconheço, porém ela se revoltava e gritava aos quatro cantos, já eu me
encolhia e me resguardava solitária no meu esconderijo.
O resultado de meu constante medo e pavor
tornaram meus músculos, sentimentos e princípios rígidos e inflexíveis, sequei
minhas águas emocionais, me afastei de todos e de mim mesma, meu pavor de
contato com os outros era evidente, preferindo sempre a solidão e o silêncio.
Sou tensa, ansiosa, rígida, indecisa, o medo do passado, do presente e do
futuro me paralisa, receio dormir, acordar e viver!
Estou sempre em alerta, seguro objetos com
força, levanto os ombros e tenciono os músculos, dos pés à cabeça quando entro
em ação, desde o ouvir, ver, falar ou tocar, tudo acesso e em alerta, ai como
cansa!
Sei que meus filhos, todos têm o mesmo
sentimento, as mesmas dores e angústias, o mesmo grande e profundo vazio
existencial e isso para mim, mãe, é insuportável, insustentável, desesperador e
mortal.
Necessito de descanso e paz, já se passaram
muitos anos, estou cansada!

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