Muitas vezes é um grande e pesado fardo carregar o caos do passado e a história da família. Esse fardo, já senti mais pesado e às vezes ainda sinto.
Deixo de senti-lo quando não coloco toda a responsabilidade sobre meus ombros, quando percebo que não sou a única responsável por tudo sozinha.
Sinto-me melhor e mais leve quando me dou conta e me aproprio somente daquilo que sou responsável, quando percebo o que posso fazer e o que está sob meu alcance, somente aquilo que depende de mim.
Dessa forma, faço o que me é possível e não tento tomar pra mim o que não consigo mudar porque não depende de mim.
Essa constatação foi um grande avanço para amenizar minhas angústias, pois descobri que a mim compete o que é meu, compete fazer o que me cabe, o que alcanço, o que é viável diante de minhas possibilidades.
Nos meus 51 anos de vida esse fardo, esse peso, essa tristeza esteve presente nos meus pensamentos, nas minhas ações e nos meus sonhos.
Todos os dias me esforço para superar. Não me tornei uma pessoa perfeita e sei que jamais serei, mas procuro, à meu modo, fazer as coisas de uma maneira mais tranqüila, coerente e acertada.
Ainda erro, muitas vezes! Nem sempre faço correto, mesmo achando que sim, e muitas vezes por não saber como fazer e outras por ainda estar cega e não perceber onde estão os erros.
Mas hoje, não me puno mais pelos meus erros, não me culpo e sim procuro reconhecer e voltar atrás para tentar fazer diferente e mais acertado. Não me culpo porque sei que estou tentando acertar, porque todos os dias sei que estou tentando aprender, que me esforço pra crescer.
Nesse engodo de sentimentos e condicionamentos familiares arraigados em todos nós, eu busco identificar o que posso e consigo modificar e transformar numa coisa melhor para mim e para quem eu amo.
No desespero, na escuridão, na dificuldade de identificar o que de errado está nos acontecendo, tento não culpar o mundo, as pessoas, meus pais, meus irmão ou meus filhos. Tento ver quais ações posso ter para não gerar tristeza, solidão e raiva.
Tento descobrir de que forma posso agir para me sentir melhor, mais segura para compartilhar. Foi reconhecendo esse sentimento de desespero e solidão que me esforçei para ficar melhor com as pessoas que amo.
Talvez nem sempre eu tenha conseguido, mas com certeza, todas as minhas ações e intenções foram para avançar. Porque desejo ser feliz para que eu possa desfrutar da alegria e leveza da vida.
Por mais que eu tente, se eu não fizer a minha parte, o que é meu esforço, meu intento, meu desejo de também sair dessa roda viva e ser mais feliz, tudo será em vão.
É preciso mudar o rumo dessa história ou caso contrário, sempre que me encontrar entre a cruz e a espada, sob pressão, sentirei todos os dias essa sensação de desespero, de estar carregando um fardo, de solidão, estarei à mercê dessa história familiar.
Não sou perfeita, a perfeição não existe! Existe a harmonia, a plenitude diante dos desafios e diferenças.
Agir corretamente diante dos desafios não exclui a existência deles.
Vivemos socialmente com pessoas diferentes e encontrar a harmonia entre essas diferentes relações é nossa busca.
Buscar a perfeição é não aceitar nossas limitações e erros, é ser rigoroso consigo e com o mundo, é tornar-se tenso e distante das diferentes manifestações da vida. É não aceitar o erro, a aprendizagem, as possibilidades de escolha.
É a solidão! Pois se não aceitamos o erro, excluímos possibilidades, oportunidades, e não nos permitimos enxergar novas formas de sentir, dividir, desfrutar, amar, crescer, trocar, compartilhar....
Quando me assusto, se sinto acuada e me identifico com os temores alheios, por instinto de sobrevivência me defendo. Minha defesa é devolver ao mundo, em dobro, a dor recebida, e assim começa e não termina uma sucessão de ofensas, defesas, desespero.
Crescer é identificar com isenção de intensa emoção, o que é de cada um, e cada um ficar com que é seu. É não tomar pra si o que é do outro ou dar ao outro a responsabilidade que não é dele. É não entrar na emoção do outro e identificar dentro de si quais, quanto e como tais emoções são verdadeiras.
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