segunda-feira, 25 de outubro de 2010

REMOTAS LEMBRANÇAS

Poucas são as lembranças, mas fortes as que ficaram!
Das mais remotas lembro-me de um berço de vime redondo no centro de algum lugar e o mundo girava à minha volta...
...nas escadarias do morro do céu, primeira manifestação da sexualidade: olhar calcinhas das moças que subiam...
..meu primeiro velório - silêncio, pessoas atônitas, imobilidade, ritual..
...priemira responsabilidade: cuidar irmão mais novo no jardim de infância, esperando infinitamente alguém me resgatar pro ninho seguro, onde não seria mais a vigilante e sim vigiada!
Meu primeiro ano escolar foi um paraíso: Emíla, Emília, Emília um recanto de paz e alegria, um doce na minha vida! descobri a possibilidade de ganhar o mundo...escola, aprender, crescer, emancipar-se, deixar a infância pra trás. Emília minha primeira professora que com amor, doçura, paciência e muito carinho abriu a porta de um novo mundo. Os ditados eram minhas paixões - a prova de que já dominava a escrita, seguida das redações: a casa é bonita, tem janelas e portas, jardins com flores.....
Aos nove anos meu primeiro prêmio, forjado pela professora que me mostrou o resultado do enigma minutos antes do embate. Eu acertei, ganhei e ainda não descobri se foi meu anjo da guarda vestido de professora ou meu primeiro contato com o mundo dos espertos. Sorte não ter sido eu a autora da contravenção, mas fiquei sem entender, apesar de feliz em levar meu prêmio pra casa.
Muito intensa e prazerosa é também a lembrança de meu primeiro disco: A Bela Adormecida! uma rica menina, privada de sua infância e adolescência, quando sai de cena todos desaparecem, vigiada, preservada e mantida sob cuidados até encontrar alguém que a mereça.... sei que não foi o primeiro disco, mas esse foi o meu! ganho de uma forma única, especial e mágica. Naquela ocasião me causou grande impacto, pois privados de uma série de coisas, principalmente tudo que se relacionava ao lúdico, ao prazer, com um simples e único pedido fui agraciada por mamãe.
Me senti forte, amada, próxima. Foram dias após dias, anos após anos, gerações após gerações e até hoje canto as canções e percebo seus efeitos afetivos...
Crescendo, correndo, subindo em árvores e muros, jogando bola, tomando banho de chuva, brigando, gritando...seis filhos, cinco irmãos, homens, todos homens...a alma masculina passa ser meu encanto, minha referência e parceira. Eu era mais um menino, igual..para conseguir compartilhar...
Ainda aos nove anos hepatite. Parei, sosseguei com a promessa de ganhar três bonecas de uma só vez, a boneca da vez: Susi. Um mês, tempo pra esquecer as molecadas masculinas e descobrir a feminilidade. As bonecas me ajudaram, mas...não entendo como, após meu restabelecimento meus interesses mudaram, passei a usar blusas, hábito inexistente até então...
Furúnculos, vieram todos numa só ocasião e nunca mais. Me preparava para os exames de admissão. Só posso crer que as doenças e dores foram pontuais para provocar transformações, mudanças e amadurecimento.
Minha infância chega ao fim! Fui para o ginásio, então com 11 anos.

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