Lembranças ausentes até os sete anos, breves e muito leves são os flashs....
Minha mais remota lembrança: atendeu meu pedido de ir pra escola antes do tempo, aos 5 anos. Desisti na primeira semana, peguei o bonde andando e ainda sem maturidade.
Matinê aos domingos, enfileirados, do maior para o menor e fotografias com as roupas novas...
Feira livre: madrugar, carregar sacolas, vigiá-las...caminhar, caminhar, caminhar um salto, dois passos, um salto, dois passos - só assim conseguia acompanhar suas largas passadas...caminhar, caminhar, primeiros a chegar, últimos a sair: a xepa da feira!
Saúde, educação e alimentação - o que há de melhor!
Aos seis anos uma menina e seu irmão de cinco sozinhos ao dentista, sem fraquejar, sem sentir dor! O melhor profissional, o melhor tratamento dentário! melhores escolas, melhores professores..ai do mestre que não correspondesse...discurso garantido na reunião dos pais!
Difícil foi aceitar e acreditar que o melhor na maioria das vezes era ser diferente dos demais: no cabelo, no pensar, na merenda escolar, nos cadernos...
Diferenças marcantes e conflitantes que permearam o curso de nossas vidas. Ser "o melhor" foi um desafio infernal e me assombrou sempre minhas ações, sonhos, relações......ausência de manifestações de méritos, pois ainda há muito a "melhorar"
Leituras, minhas fugas. Obrigada! Aprendi a pensar, argumentatr e expressar.
Mingau de aveia com banana desciam quadrado garganta abaixo, mas mantinham meu corpo com gás esportivo.
Aos sábados cortar bigode no sofá da sala, ouvir as estórias e ficar presa que nem criança cagada nos seus braços na hora da sesta.
Noites longas, todos em volta da mesa, silêncio sepulcral com exceção das aulas de história que eram ricas na contextualização, noção de tempo e espaço!
Nas cólicas menstruais noturnas socorria-me com gotinhas milagrosas.
Aos domingos, levar e buscar ao clube. Meia noite, pontualmente, de variant vermelha, pijama, lá estava ele, meu anjo protetor!
É, de papai tenho saudades: do cheiro do bigode, do hálito de chimarrão, do olhar curioso e muitas vezes acuado. Do sorriso largo, lindo, dos lábios carnudos, das mãos grandes, quadradas e carinhosas afagando meus parcos cabelos.
Hoje abraço seu peito já miúdo e frágil, mas seus braços continuam grandes e abertos.
Ainda me aflige sua sede de saber, conhecer, descobrir, mas sossego quando lembro que sua sede é compartilhar e trocar.
Ele gosta de ser amado. Derrete-se com uma palavra doce e carinhosa....ou talvez apenas se lembre de sua menininha que tanto lhe amou, admirava e venerava!
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